Todos os dias ele fotografava a esposa pela janela, até perceber tarde demais o que havia registrado

Há fotografias que ganham outro significado quando vistas muitos anos depois. Um sorriso que parecia espontâneo pode revelar cansaço; uma brincadeira pode esconder irritação; um simples olhar para cima pode parecer, retrospectivamente, uma despedida. Foi mais ou menos isso que aconteceu com uma das séries mais conhecidas do fotógrafo japonês Masahisa Fukase.

No outono de 1973, Fukase começou a fotografar sua esposa, Yoko Wanibe, enquanto ela saía de casa para trabalhar em uma galeria de arte em Tóquio. Do quarto andar do apartamento onde viviam, ele apontava uma teleobjetiva para a rua e registrava Yoko olhando para cima, em direção à janela.

A cena se repetiu tantas vezes que se transformou em um ritual entre os dois.

Nas primeiras imagens, Yoko aparece sorrindo, fazendo caretas, brincando com o marido e até encenando pequenas performances diante da câmera. Em outras, surge com roupas diferentes, cabelos ao vento e expressões exageradas. As fotografias passavam longe de um retrato doméstico convencional.

O projeto ficou conhecido como “From Window”, ou “Da Janela”, e parte dessas imagens foi publicada inicialmente sob o título “Yōko”. Em 1974, o trabalho chegou ao Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, na exposição New Japanese Photography.

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A câmera fazia parte do casamento

Yoko ocupou um espaço enorme na produção de Fukase durante os anos em que permaneceram juntos. Eles haviam se casado em 1964, mas a relação entre marido, fotógrafo e modelo começou a ficar difícil de separar.

Fukase fotografava a esposa constantemente, dentro e fora de casa, durante viagens e em situações comuns da rotina do casal. Com o tempo, aquilo que para ele parecia uma forma de registrar alguém que amava começou a ter outro peso para ela.

Em um texto publicado ainda em 1973, Yoko resumiu esse incômodo de uma maneira bastante direta: depois de anos vivendo juntos, dizia sentir que Fukase a enxergava principalmente por meio da lente e que as fotografias feitas dela diziam, na verdade, muito mais sobre ele próprio.

Esse detalhe muda bastante a maneira como “From Window” é observada hoje.

Quando as fotografias são colocadas em sequência, a disposição de Yoko diante da câmera parece mudar. Os gestos brincalhões continuam existindo, mas há registros nos quais ela aparenta estar mais distante, cansada ou simplesmente menos interessada naquele ritual.

O cineasta Mark Gill, que anos depois pesquisou a vida de Fukase para um filme sobre o fotógrafo, descreveu a série como uma espécie de “barômetro” daquele casamento: no começo há muita alegria, enquanto imagens posteriores mostram Yoko aparentemente mais cansada e, em alguns momentos, incomodada.

Isso não significa que exista uma fotografia específica capaz de determinar: “foi exatamente aqui que ela deixou de amá-lo”. Relações humanas, para azar de quem gostaria de resolvê-las com uma legenda conveniente, raramente funcionam com tamanha precisão.

O que existe é uma sequência visual que adquiriu um significado doloroso depois do que aconteceu.

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A mulher fotografada todos os dias acabou indo embora

A vida particular do casal havia se transformado repetidamente em matéria-prima artística. Segundo o Museu Metropolitano de Fotografia de Tóquio, essa dinâmica acabou produzindo um paradoxo: em determinado momento, parecia que os dois permaneciam juntos também para que a própria relação continuasse sendo fotografada.

Em 1976, Yoko decidiu se separar.

Ela acreditava que Fukase permanecia ao seu lado sobretudo por causa das fotografias. O casamento, iniciado 12 anos antes, chegou ao fim.

Vista depois do divórcio, “From Window” ganhou uma leitura que Fukase provavelmente não poderia controlar quando pressionava o obturador: todas aquelas manhãs mostravam uma mulher saindo de casa, afastando-se fisicamente do marido enquanto ele continuava parado na janela.

Pouco a pouco, a distância que era de alguns andares e alguns metros passou a parecer emocional.

Há algo particularmente curioso nisso. Fukase utilizava a fotografia como tentativa de preservar pessoas, relações e momentos, mas reconheceria posteriormente que sua necessidade compulsiva de fotografar quem estava próximo também contribuía para afastá-los.

Depois de Yoko vieram os corvos

O divórcio afetou profundamente Fukase.

Durante aquele período, o fotógrafo voltou sua câmera para outra presença que começava a aparecer com frequência diante dele: corvos.

As aves passaram a ocupar seus negativos durante viagens pelo Japão, especialmente em Hokkaido, região onde havia crescido. Fotografadas no crepúsculo, sobre árvores, fios e paisagens quase vazias, elas deram origem ao trabalho que se tornaria o mais famoso de sua carreira: “Ravens”, posteriormente publicado como The Solitude of Ravens.

O contraste com as fotografias de Yoko é difícil de ignorar.

Em “From Window”, havia movimento, roupas, expressões, brincadeiras e uma mulher olhando diretamente para ele. Em “Ravens”, predominam sombras, silhuetas, granulação e animais atravessando paisagens escuras.

Décadas depois, as fotografias feitas da janela continuaram sendo revisitadas justamente porque conhecemos o final daquela história. Yoko aparece em muitas delas sorrindo para o homem com a câmera, mas cada passo que dava rumo ao trabalho também a levava para fora do enquadramento.

Três anos depois do início daquele ritual, ela faria algo que a teleobjetiva de Fukase já havia registrado centenas de vezes: sairia de sua vista.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.