Os casos de hepatite aguda grave em crianças continuam aumentando no Brasil e no mundo. Por aqui, o Ministério da Saúde informou, neste sábado (14), que 41 casos seguem em investigação. Segundo dados divulgados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), cerca de 450 crianças já foram diagnosticadas com a doença. Diante desse cenário, os cientistas continuam na busca para identificar o agente responsável por esse surto.

Uma linha inicial de investigação das autoridades de saúde indicou um tipo de adenovírus (o 41F) como o possível causador da doença, após ele ter sido identificado em 72% das crianças que apresentaram o problema no Reino Unido. No entanto, os pesquisadores ainda não conseguiram explicar como esse adenovírus, que geralmente é associado a sintomas gastrointestinais ou resfriados leves, estaria provocando hepatite grave em crianças.

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Com isso, novas hipóteses estão surgindo na comunidade científica e a principal delas relaciona a infecção prévia por covid-19 aos quadros de inflamação no fígado. “Fortes evidências apontam ser o SARS-CoV-2 o causador desta grave hepatite, não como apresentação aguda da covid-19, mas sim como complicação tardia ou manifestação de covid longa em crianças”, destacou nas redes sociais o pediatra Rubens Cat, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e chefe do Departamento de Pediatria do Complexo do Hospital de Clínicas da UFPR.

Um artigo publicado na última sexta-feira (13), na revista científica The Lancet Gastroenterology & Hepatology, reforça essa fala do médico e esclarece por que o coronavírus pode estar envolvido neste recente surto de hepatite. No documento, pesquisadores do Imperial College de Londres, no Reino Unido, e do Centro Médico Cedars Sinai, nos Estados Unidos, destacaram que até agora nenhuma exposição ambiental comum foi encontrada entre a população pediátrica com insuficiência hepática e que um agente infeccioso continua sendo a causa mais plausível.

De acordo com o artigo, o SARS-CoV-2 foi identificado em 18% dos casos relatados no Reino Unido e 11% dos 97 casos na Inglaterra também apresentaram teste positivo para covid-19 na admissão dos pacientes com hepatite; outros três casos tiveram resultado positivo nas oito semanas anteriores à admissão. Em Israel, 11 dos 12 pacientes com a doença foram infectados pelo coronavírus nos últimos meses. Os autores ressaltaram, ainda, que a maioria dos casos relatados ocorreu entre crianças ainda não elegíveis para receber a vacina contra a covid-19 — refutando, portanto, qualquer associação entre a tal hepatite misteriosa e a imunização contra o coronavírus, como já tinha sido informado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os pesquisadores explicaram que a infecção por SARS-CoV-2 pode resultar na formação de reservatórios virais, que persistem no trato gastrointestinal e podem levar à liberação repetida de proteínas virais, dando origem a uma resposta imunológica. A repetição desse processo pode desencadear a ativação ampla e inespecífica de células T, que são responsáveis pela defesa do corpo contra agentes desconhecidos.

O que isso significa? Que o SARS-CoV-2 tem um efeito chamado de superantígeno, que leva ao aumento das células do sistema imune de forma exacerbada e, consequentemente, provoca uma verdadeira cascata de eventos inflamatórios no organismo — esse é o mecanismo por trás da síndrome inflamatória multissistêmica em crianças, já apontada como uma das consequências da infecção por covid-19.

E como esse mecanismo estaria levando aos casos de hepatite? A resposta estaria na infecção por adenovírus após a pessoa ter contraído o coronavírus. “Nossa hipótese é de que os casos recentemente relatados de hepatite aguda grave em crianças podem ser uma consequência da infecção por adenovírus com trofismo [tecido] intestinal em crianças previamente infectadas por SARS-CoV-2 e que carreguem reservatórios virais”, defenderam os pesquisadores.

Eles acrescentaram: “Sugerimos que crianças com hepatite aguda sejam investigadas quanto à persistência de SARS-CoV-2 nas fezes, porque isso poderia fornecer evidências de um mecanismo de superantígeno do vírus da covid-19 em um hospedeiro sensibilizado por adenovírus 41F”.

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Fonte: O Globo

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