Um médico corajoso explica por que nunca se deve beijar uma pessoa morta

Despedir-se de alguém próximo pode envolver gestos muito pessoais. Em diferentes famílias e culturas, tocar o rosto, segurar as mãos ou dar um último beijo em quem morreu faz parte do velório. Um vídeo que circulou nas redes sociais colocou essa prática em discussão ao afirmar que ela poderia representar um risco à saúde.

O conteúdo foi publicado pelo médico moldavo Viktor Ivanovik, que reúne centenas de milhares de seguidores no TikTok. Na gravação, ele faz um alerta direto aos espectadores: recomenda que as pessoas evitem beijar alguém que morreu.

Segundo Ivanovik, o motivo estaria relacionado às alterações que começam a ocorrer no organismo depois da morte. Ele afirma que, com o avanço da decomposição, bactérias presentes no corpo podem se proliferar e que o contato próximo poderia trazer consequências à saúde.

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Uma das alegações que mais chamou atenção foi a de que essa exposição poderia causar perda do olfato. O médico também menciona um período de aproximadamente nove horas após a morte como um momento em que o processo de decomposição já estaria liberando bactérias potencialmente nocivas.

A explicação, porém, exige algumas ressalvas importantes. As principais autoridades de saúde não sustentam a ideia de que cadáveres, de maneira geral, se tornem perigosos simplesmente porque algumas horas se passaram após a morte. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o risco de infecção representado por um corpo é normalmente muito baixo quando a pessoa não morreu de uma doença altamente infecciosa.

Também não há, nas orientações consultadas de órgãos de saúde, respaldo para uma regra geral segundo a qual beijar um cadáver após nove horas provoque perda do olfato. Uma revisão científica publicada em 2024 observa que alguns agentes infecciosos podem permanecer viáveis após a morte, mas ressalta que os dados sobre transmissão pós-morte ainda são limitados e variam bastante conforme o microrganismo e a forma de exposição.

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Quando realmente existe risco

Isso não significa que todo contato seja livre de cuidados. Determinados vírus e bactérias podem continuar presentes no sangue, nas secreções e em outros fluidos corporais de uma pessoa falecida. Por isso, profissionais que lidam diretamente com cadáveres seguem protocolos de higiene e proteção.

A OMS cita riscos específicos para quem manipula corpos, incluindo exposição a agentes relacionados à tuberculose, hepatites virais e algumas infecções gastrointestinais. A transmissão, nesses casos, depende de circunstâncias concretas, como contato com fluidos, mucosas ou pele lesionada.

Há ainda situações em que beijar ou tocar o corpo realmente deve ser evitado. Orientações britânicas sobre doenças virais hemorrágicas, por exemplo, recomendam impedir esse tipo de contato quando a pessoa morreu de uma infecção de alto risco.

O mesmo princípio aparece em protocolos relacionados a outras doenças específicas. O CDC, órgão de saúde pública dos Estados Unidos, já publicou recomendações para evitar contato direto com cadáveres em determinados cenários infecciosos, especialmente quando há possibilidade de exposição a fluidos corporais.

Em orientações destinadas ao setor funerário, autoridades de saúde britânicas recomendam que as famílias sejam informadas quando houver algum risco conhecido de infecção ao tocar ou beijar a pessoa falecida. A avaliação, portanto, depende da causa da morte e das condições do corpo, e não apenas do número de horas transcorridas.

@victorivanovik83♬ son original – 𝘿𝙅 𝘽𝙔 𝙏𝙐𝙉𝙄𝙎𝙄𝘼

O alerta provocou reações nas redes sociais

O vídeo de Ivanovik acabou despertando uma discussão bastante pessoal. Alguns usuários disseram que nunca haviam pensado na possibilidade de existir algum risco sanitário nesse tipo de despedida.

Outros reagiram de maneira diferente. Uma pessoa comentou que havia beijado o próprio pai após sua morte e que repetiria o gesto, mesmo conhecendo possíveis riscos. A reação ajuda a explicar por que recomendações desse tipo mexem tanto com o público: práticas de despedida frequentemente têm significado afetivo, familiar ou religioso.

As próprias orientações internacionais reconhecem essa dimensão. A OMS defende que costumes culturais e necessidades das famílias sejam respeitados sempre que não exista um risco sanitário relevante. A entidade também ressalta que é equivocada a crença de que corpos humanos, por si só, representem automaticamente uma ameaça de doenças ou epidemias.

Assim, embora o alerta do médico tenha chamado atenção para um cuidado que pode ser necessário em casos específicos, a recomendação absoluta de jamais beijar uma pessoa morta simplifica uma questão bem mais dependente das circunstâncias. Quando há suspeita ou confirmação de doença infecciosa, a orientação dos profissionais responsáveis pelo corpo deve prevalecer.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.