A China lançou ao espaço a primeira astronauta de Hong Kong, em um marco simbólico e científico para o programa espacial do país.
Li Jiaying, de 43 anos, embarcou na nave Shenzhou-23 rumo à estação espacial chinesa Tiangong, ao lado de outros dois astronautas. Ela atua como especialista de carga útil na missão, função ligada à condução e acompanhamento de experimentos científicos no espaço.
O lançamento aconteceu no domingo, 24 de maio, a partir do deserto de Gobi, no noroeste da China, usando um foguete Long March 2F. Algumas horas depois, a nave acoplou à estação espacial Tiangong.
A presença de Li Jiaying na missão foi tratada como um momento histórico por autoridades chinesas e de Hong Kong.
Ela é policial, mãe de três filhos e agora se torna a primeira pessoa de Hong Kong a participar de uma missão espacial tripulada chinesa.
Segundo a BBC, o chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, classificou a participação dela como um momento “histórico”. A Xinhua também destacou a mobilização de moradores, estudantes e instituições em Hong Kong para acompanhar o lançamento.
Além de Li Jiaying, a missão conta com Zhu Yangzhu, engenheiro espacial de 39 anos, e Zhang Zhiyuan, ex-piloto da Força Aérea chinesa, também de 39 anos.
Segundo a AP, Zhu Yangzhu é o comandante da missão. Zhang Zhiyuan atua como piloto, enquanto Li Jiaying segue como especialista de carga útil.
A equipe seguirá a rotina de experimentos, manutenção e operações na estação Tiangong, estrutura central do programa espacial tripulado chinês.
Um dos pontos mais importantes da Shenzhou-23 é a possibilidade de uma permanência de um ano em órbita para um dos astronautas.
As autoridades chinesas ainda devem definir quem ficará esse período prolongado na estação. A missão faz parte de um experimento para estudar como o corpo humano e os equipamentos se comportam durante estadias mais longas no espaço.
A Reuters informou que a permanência prolongada ajudará a China a reunir experiência para futuras missões de longa duração, incluindo planos de exploração lunar.
A missão Shenzhou-23 tem entre seus objetivos estudar os efeitos da microgravidade no corpo humano e realizar pesquisas científicas e tecnológicas a bordo da Tiangong.
Esse tipo de estudo é essencial para programas espaciais que desejam manter astronautas por períodos cada vez maiores fora da Terra.
Quanto mais tempo uma pessoa passa no espaço, maior a necessidade de entender impactos sobre músculos, ossos, circulação, sono, imunidade e adaptação psicológica.
O lançamento ocorre em meio à expansão do programa espacial chinês.
A China pretende enviar astronautas à Lua até 2030, enquanto os Estados Unidos trabalham com a meta de uma nova missão tripulada lunar em 2028, dentro do programa Artemis.
Nos últimos anos, o país também avançou em missões robóticas. Em 2024, a missão Chang’e-6 coletou amostras do lado oculto da Lua e as trouxe de volta à Terra, feito inédito na exploração espacial.
A Shenzhou-23 se encaixa nesse plano maior: formar experiência em permanência orbital, testar tecnologias e preparar etapas futuras para voos mais distantes.
Desde 2021, a China vem enviando astronautas para estadias regulares na estação Tiangong, normalmente com duração aproximada de seis meses.
A estação se tornou uma plataforma permanente para experimentos em baixa órbita terrestre e também um símbolo da autonomia chinesa no espaço.
A missão atual amplia essa ambição ao testar uma presença humana mais prolongada, algo que exige maior controle de saúde, logística, manutenção e suporte tecnológico.
A ida de uma astronauta de Hong Kong ao espaço tem uma dimensão que vai além da ciência.
Analistas ouvidos pela BBC apontam que histórias como a de Li Jiaying podem ser usadas pelas autoridades chinesas para estimular sentimento patriótico, especialmente entre jovens de Hong Kong.
Ao mesmo tempo, a trajetória dela também carrega uma força narrativa própria: uma mulher, mãe, policial e cientista de missão que chega ao espaço em um momento de expansão do programa espacial chinês.
A missão acontece em um cenário de competição crescente entre China e Estados Unidos na exploração espacial.
Enquanto a China avança com a Tiangong e mira a Lua até 2030, a Nasa busca retomar pousos tripulados lunares e construir presença sustentável fora da Terra.
Essa corrida não envolve apenas prestígio. Ela também passa por tecnologia, ciência, influência internacional e domínio de capacidades estratégicas.
A Shenzhou-23 representa mais do que mais uma missão espacial.
Para Hong Kong, marca a primeira vez que uma de suas representantes chega ao espaço. Para a China, reforça a mensagem de que seu programa espacial está entrando em uma fase mais ambiciosa, com missões longas, tripulações diversas e planos lunares cada vez mais próximos.
Li Jiaying disse, segundo a agência Xinhua, que foi inspirada por Yang Liwei, o primeiro astronauta enviado ao espaço pelo programa chinês.
Agora, ela própria passa a ocupar um lugar histórico nessa trajetória.
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