Passados quase 39 anos do maior acidente radiológico do mundo, a história das vítimas do Césio-137 em Goiânia continua a ser marcada por uma trágica sina de apagamento. A mais recente página dessa história foi o veto do Governador de Goiás, Daniel Vilela, ao projeto de lei que previa a construção do Memorial às Vítimas do Acidente Radiológico. A decisão, que dá continuidade a uma política de descaso, representa uma segunda borracha passada sobre a memória daqueles que sofreram e ainda sofrem com as consequências da radiação.
O projeto de lei, de autoria do Deputado Karlos Cabral e aprovado pela Assembleia Legislativa, era um sopro de esperança para as vítimas e suas famílias.
O memorial não seria apenas uma homenagem, mas um espaço para relembrar, informar, refletir e incentivar a pesquisa sobre os efeitos da radiação. Seria um marco para que as novas gerações conhecessem a história e para que a tragédia jamais se repetisse. A proposta, contudo, foi recebida com profunda tristeza ao ser vetada pelo governo estadual, sob a justificativa de inconstitucionalidade e vício de iniciativa.
Para as vítimas, a negativa do memorial é a continuação de um longo processo de invisibilidade. O veto do atual governo ecoa o descaso de seu antecessor, Ronaldo Caiado, que por sete anos não promoveu o reajuste das pensões das vítimas, agravando a situação de vulnerabilidade de muitas famílias. É como se o poder público, mais uma vez, virasse as costas para a sua responsabilidade histórica.
A construção do memorial, proposta para ser erguida em um local de grande circulação em Goiânia, seria um ato de reparação e um reconhecimento da dívida do Estado para com as vítimas. A luta por esse espaço de memória é a luta contra o esquecimento. É a luta para que a dor e as perdas não se tornem apenas uma nota de rodapé na história de Goiás.
A sociedade goiana e as autoridades precisam compreender que a construção do memorial não é apenas um ato simbólico, mas uma necessidade para a consolidação da memória coletiva e para a valorização da vida. Negar esse direito às vítimas é perpetuar a injustiça e o apagamento a que foram submetidas por quase quatro décadas. A história não pode ser apagada.
Por Nara Rúbia Ribeiro advogada da Associação das Vítimas do Césio 137
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