Biografias

A história de coragem e esperança de uma sobrevivente do Holocausto

Durante boa parte da vida, Henia Lewin contou que havia sido salva dentro de uma mala. A frase parece resumir sua história, mas deixa de fora uma sequência de decisões arriscadas: o esconderijo construído pelo pai, o sedativo obtido pela mãe, a família lituana que aceitou protegê-la e uma coincidência inesperada diante de um policial.

Henia nasceu em janeiro de 1940, em Kaunas, cidade da Lituânia também conhecida como Kovno. Era filha de Gita e Jonas Wisgardisky, um casal judeu de classe média que trabalhava e contava com uma babá para cuidar da menina.

A rotina da família começou a mudar em 1940, quando a Lituânia foi ocupada pela União Soviética. A situação ficou ainda mais perigosa em junho de 1941, com a invasão alemã. Henia tinha cerca de um ano e meio quando seus pais receberam a ordem para se mudar para o gueto de Kovno, criado em um bairro cercado e severamente vigiado.

Uma infância escondida atrás de uma parede

Dezenas de milhares de judeus foram concentrados no gueto em condições de superlotação, falta de alimentos, doenças e trabalho forçado. Famílias inteiras passaram a viver sob o medo das seleções e execuções promovidas pelos nazistas e por colaboradores locais.

Poucos dias depois do fechamento do gueto, as autoridades pediram que homens com conhecimento de línguas estrangeiras se apresentassem como voluntários. A justificativa era que eles trabalhariam como tradutores e redatores de documentos.

O tio de Henia estava entre os 526 homens que atenderam ao chamado. Todos foram levados para fora do gueto e assassinados. O pai da menina também pretendia se apresentar, mas chegou tarde demais ao local de reunião — um atraso que acabou preservando sua vida.

Dentro da residência da família, Jonas construiu uma parede falsa. O compartimento era usado para esconder Henia e sua prima mais nova, Shoshana Berk, sempre que soldados realizavam buscas.

A proteção, porém, tinha prazo incerto. Gita começou a ouvir relatos sobre crianças retiradas de outros guetos sob a alegação de que seriam vacinadas ou receberiam cuidados médicos. Elas desapareciam.

Em outubro de 1941, mais de 160 bebês e crianças que estavam em um hospital no gueto de Kovno foram executados. Em março de 1944, outra operação nazista contra crianças e idosos matou mais de 1.300 pessoas. O temor de Gita, portanto, estava longe de ser exagerado.

O plano para retirar Henia do gueto

Quando Henia tinha aproximadamente três anos e meio, seus pais decidiram que mantê-la escondida já era arriscado demais. A alternativa era tirá-la do gueto e entregá-la a pessoas dispostas a criá-la sob uma identidade falsa.

O plano exigia silêncio absoluto. Henia já falava e poderia chorar ou chamar pelos pais diante dos guardas. A família conseguiu um medicamento para sedá-la. Inconsciente, a menina foi acomodada dentro de uma mala e retirada da área cercada.

Do lado de fora, ela foi entregue a Jonas Stankevicz, que havia concordado em levá-la para sua propriedade rural. O perigo, contudo, continuou.

Enquanto carregava a mala, Stankevicz foi abordado por um policial lituano, que pediu seus documentos. Caso o homem resolvesse abrir a bagagem, encontraria a criança e provavelmente mataria os dois.

Nesse momento, um veículo com soldados alemães parou nas proximidades. Os militares queriam instruções para chegar ao gueto, mas não falavam a língua do policial. Ele entrou no veículo para mostrar o caminho e permitiu que Stankevicz seguisse adiante.

Ao recordar o episódio décadas depois, Henia costumava apontar a ironia: sua fuga havia sido favorecida pela chegada de um veículo cheio de nazistas.

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Uma nova família e um nome escondido

Henia passou cerca de dois anos com Jonas e Joana Stankevicz e as duas filhas do casal. Para explicar sua presença, a família dizia que ela era uma criança russa abandonada durante a guerra ou filha de uma parente que não poderia criá-la.

Na casa, Henia precisou aprender rapidamente a representar outra identidade. Chamava os Stankevicz de pai e mãe, acompanhava os costumes religiosos da família e evitava qualquer comentário que pudesse revelar sua origem judaica.

Gita também participou da retirada de Shoshana, prima de Henia. A menina foi encaminhada a outra propriedade rural, onde permaneceu escondida.

Os resgates faziam parte de uma rede formada por judeus, integrantes da resistência, religiosos e famílias cristãs. Entre os participantes estava o padre católico Bronislovas “Bronius” Paukštys, que providenciava documentos falsos, abrigos temporários e contatos para pessoas que tentavam escapar. Mais tarde, ele seria reconhecido pelo Yad Vashem como Justo entre as Nações.

O reencontro depois da libertação

Jonas conseguiu fugir após ser levado a um hospital por causa de um ferimento na mão. Ele escapou por uma janela. Gita abandonou um grupo de trabalho realizado fora do gueto e, durante parte da fuga, foi escondida em uma igreja por Paukštys.

O casal havia combinado um ponto de encontro para o caso de os dois conseguirem escapar separadamente. Eles se reencontraram e passaram algum tempo escondidos em diferentes locais até a chegada das forças soviéticas.

Depois da libertação de Kaunas, em 1944, Gita e Jonas iniciaram a procura pela filha. A família Stankevicz havia se deslocado para o norte da Lituânia, perto da fronteira com a Letônia, o que tornou a busca mais demorada. Meses depois, Henia finalmente voltou aos braços dos pais.

Shoshana também foi localizada e passou a ser criada como irmã de Henia, pois todos acreditavam que seus pais haviam morrido. Em 1947, entretanto, sua mãe apareceu na casa da família. Ela também havia sobrevivido.

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Da menina escondida à educadora

Após a guerra, Henia e os pais passaram por um campo para pessoas deslocadas na Alemanha. Em 1949, a família emigrou para Israel. Quatro anos depois, mudou-se para Montreal, no Canadá.

Henia estudou psicologia e se formou também como professora de hebraico e iídiche. Trabalhou em escolas, universidades e organizações ligadas à educação e à preservação da cultura judaica. Em 1968, estabeleceu-se em Burlington, no estado norte-americano de Vermont, onde atuou por décadas como educadora.

Com o passar dos anos, ela começou a visitar escolas para contar o que aconteceu com sua família. Em uma palestra realizada em janeiro de 2023, então com 83 anos, falou a estudantes sobre a responsabilidade de agir diante da perseguição, do preconceito e da violência.

Sua mensagem costumava se concentrar em quem presencia uma injustiça e decide permanecer em silêncio. “Não seja um espectador. Seja uma pessoa que faz o bem”, disse Henia durante uma apresentação a alunos nos Estados Unidos.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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