Quando o caso do navio Zong chegou a um tribunal de Londres, os responsáveis pela morte de mais de 130 pessoas africanas escravizadas não estavam sentados no banco dos réus. A tripulação tampouco respondia por assassinato. O processo discutia uma questão comercial: os proprietários do navio tinham direito a receber da seguradora pelas pessoas lançadas vivas ao oceano?
Essa forma de tratar o massacre ajuda a entender como funcionava o tráfico transatlântico de escravizados no século XVIII. Homens, mulheres e crianças eram registrados, negociados e segurados como mercadorias. No Zong, essa estrutura econômica criou uma situação especialmente perversa: algumas pessoas passaram a valer mais mortas no mar do que doentes ao desembarcar.
Em agosto de 1781, o Zong deixou a costa de Gana com destino a Black River, na Jamaica. A bordo estavam cerca de 440 pessoas africanas escravizadas — aproximadamente o dobro da capacidade prevista para a embarcação — e uma tripulação formada por somente 17 homens.
O comando estava nas mãos de Luke Collingwood, que também exercia a função de cirurgião. A travessia foi marcada por superlotação, doenças e mortes. Antes do massacre, aproximadamente 60 cativos e sete tripulantes já haviam morrido. Quanto mais pessoas adoeciam, menor se tornava o lucro esperado com a venda delas na Jamaica.
Erros de navegação prolongaram a viagem. O navio passou pela região de Jamaica sem aportar e precisou corrigir sua rota, aumentando a preocupação com os mantimentos. A tripulação alegaria posteriormente que a água potável estava acabando e que seria necessário reduzir o número de pessoas a bordo.
Essa justificativa, porém, seria contestada. Os seguradores sustentaram que a situação havia sido causada pela má administração da viagem e questionaram se realmente existia uma escassez inevitável de água. Relatos apresentados no processo indicavam ainda que havia chovido durante aquele período.
Os proprietários do Zong haviam contratado um seguro para as pessoas escravizadas transportadas no navio. Pela lógica das apólices marítimas da época, mortes provocadas por doenças ou pelas condições da travessia geralmente não eram indenizadas.
Havia, contudo, uma regra diferente para cargas deliberadamente jogadas ao mar durante uma suposta emergência. Quando parte da carga era descartada para salvar o navio ou preservar o restante, os proprietários poderiam solicitar compensação aos seguradores. Pessoas escravizadas eram juridicamente enquadradas dentro desse mesmo raciocínio comercial.
Diante da possibilidade de que vários cativos morressem antes de serem vendidos, Collingwood e outros tripulantes decidiram lançá-los ao oceano. A alegação seria que o sacrifício havia sido necessário para preservar a água disponível e salvar as demais pessoas no navio.
Entre 29 de novembro e os primeiros dias de dezembro de 1781, mais de 130 homens, mulheres e crianças foram jogados vivos ao mar em diferentes grupos. As fontes históricas apresentam pequenas diferenças na contagem: algumas registram 132 vítimas, enquanto outras indicam 133.
O número real pode ser ainda maior. Os documentos existentes são incompletos e boa parte das informações veio de homens ligados à própria embarcação, interessados em justificar suas decisões. O livro de bordo do Zong desapareceu antes do julgamento, dificultando a reconstrução exata dos acontecimentos.
O Zong atracou em Black River em 22 de dezembro de 1781. Das aproximadamente 440 pessoas africanas levadas a bordo na costa ocidental da África, menos de 200 chegaram vivas à Jamaica. Além das vítimas lançadas ao mar, muitas morreram em decorrência de doenças, fome, desidratação e das condições do confinamento.
Após o desembarque, os proprietários apresentaram o pedido de indenização. Eles classificaram as mortes como uma perda necessária de carga durante uma emergência marítima. Os seguradores recusaram o pagamento, acusando os responsáveis pelo navio de fraude e negligência.
A recusa deu origem ao processo conhecido como Gregson v. Gilbert. O nome vinha de representantes dos proprietários e dos seguradores. O ponto central continuava sendo o contrato: caberia ou não indenização pela “carga” lançada ao mar?
O primeiro julgamento ocorreu em março de 1783, no Guildhall, em Londres. Um júri decidiu inicialmente a favor dos donos do Zong. Dentro da estrutura jurídica aplicada naquele momento, o descarte das pessoas escravizadas podia ser analisado como o lançamento de qualquer outra mercadoria ao oceano.
Os seguradores recorreram. O caso foi examinado pelo chefe de Justiça Lord Mansfield, que determinou a realização de um novo julgamento diante das evidências de erros de navegação, má administração e dúvidas sobre a suposta falta de água.
Não há registro de que esse novo julgamento tenha ocorrido. Os documentos conhecidos também indicam que os proprietários não receberam a indenização pretendida. Ainda assim, nenhum integrante da tripulação foi processado criminalmente pelas mortes.
A ausência de uma acusação por assassinato revela o lugar reservado às pessoas escravizadas naquele sistema. A Justiça britânica discutiu minuciosamente se a seguradora deveria arcar com o prejuízo, enquanto a morte deliberada de mais de uma centena de seres humanos permaneceu sem punição.
A história ganhou repercussão quando Olaudah Equiano, escritor e abolicionista que havia sido escravizado quando criança, informou Granville Sharp sobre o que ocorrera. Sharp já atuava contra o tráfico de pessoas e tentou transformar o episódio em uma investigação criminal.
Ele escreveu a autoridades, incluindo o primeiro-ministro britânico, e pediu que os responsáveis fossem julgados por assassinato. Seus esforços não conseguiram produzir uma acusação formal. Nenhum dos homens envolvidos no massacre foi condenado.
A divulgação do processo, entretanto, forneceu aos abolicionistas um exemplo concreto de como interesses comerciais, seguradoras e tribunais sustentavam o tráfico transatlântico. O caso do Zong passou a ser citado em campanhas, textos e debates públicos sobre a violência produzida pela transformação de seres humanos em propriedade.
O massacre não provocou sozinho o fim do tráfico britânico, mas ajudou a ampliar a indignação pública. O comércio britânico de pessoas escravizadas seria proibido em 1807. A escravidão na maior parte das colônias do Império Britânico só seria abolida legalmente em 1833.
Quase seis décadas depois, em 1840, o pintor britânico J. M. W. Turner apresentou a obra Slave Ship — Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying, Typhoon Coming On. A pintura mostra um navio afastando-se enquanto corpos acorrentados aparecem entre ondas violentas.
Pesquisadores e o Museu de Belas Artes de Boston apontam que Turner provavelmente se inspirou no massacre do Zong. A obra tornou-se uma denúncia visual do tráfico transatlântico e atualmente integra o acervo do museu norte-americano.
Em Black River, na Jamaica, existe hoje um monumento dedicado às vítimas. Cerimônias realizadas no local incluem celebrações memoriais e o lançamento de flores ao mar, em homenagem às pessoas que morreram antes de chegar à ilha onde seriam vendidas.
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