Durante boa parte da infância e da adolescência, Chad Allen aprendeu a interpretar personagens antes mesmo de ter tempo para descobrir quem era fora das câmeras. Seu rosto aparecia em revistas juvenis, séries populares e materiais promocionais cuidadosamente planejados. Havia, porém, um papel que os executivos esperavam que ele mantivesse também na vida real: o do jovem galã heterossexual, disponível para alimentar as fantasias românticas do público.
Quando essa imagem foi rompida sem sua autorização, Chad descobriu rapidamente como Hollywood podia transformar uma informação pessoal em sentença profissional.
Nascido em 1974, Chad Allen Lazzari começou a atuar ainda criança. Um de seus primeiros trabalhos de destaque foi em St. Elsewhere, no qual interpretou Tommy Westphall, um menino autista. O personagem, inicialmente secundário, ganhou importância crescente dentro da série médica.
Para construir a atuação, Chad recorreu às explicações de sua mãe e às próprias lembranças de infância. Anos depois, contou que conseguia entender a tendência do personagem de se concentrar em detalhes porque também passava longos períodos observando formas e desenhos nas paredes, enquanto criava histórias mentalmente.
A carreira avançou depressa. Em vez de uma rotina escolar comum, ele alternava gravações, testes, sessões de fotos e entrevistas. Vieram participações em produções como Airwolf e papéis frequentes em séries familiares como Our House e My Two Dads. Em Our House, trabalhou com Shannen Doherty, que mais tarde se tornaria conhecida mundialmente por Barrados no Baile.
No fim dos anos 1980, Chad já era tratado como ídolo adolescente. As revistas publicavam informações sobre seus gostos, planos e vida afetiva, criando uma sensação de intimidade com leitoras que, na prática, conheciam uma versão administrada por agentes, publicitários e executivos. Em uma matéria de 1994, ele comentou que algumas garotas sabiam tantos detalhes divulgados pelas revistas que acreditavam conhecê-lo pessoalmente.
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O sucesso trouxe dinheiro e oportunidades, mas também tornou difícil separar o garoto do produto comercial. Chad percebeu que havia uma imagem pública montada ao redor dele, com poses, respostas e expectativas bastante específicas.
Aos 16 anos, decidiu diminuir o ritmo profissional e frequentar uma escola comum. Entrou para o grupo de teatro e encontrou um ambiente bem diferente das campanhas voltadas a adolescentes. Ali, a atuação parecia menos ligada à fabricação de um galã e mais próxima do trabalho artístico que originalmente o havia atraído.
A pausa não representou o fim da carreira. Alguns anos depois, Chad conquistou o papel de Matthew Cooper em Dr. Quinn, Medicine Woman. A série, estrelada por Jane Seymour, tornou-se um dos dramas familiares mais conhecidos da televisão americana dos anos 1990. Allen permaneceu no elenco durante seis temporadas, justamente no período em que sua vida pessoal passou a ser tratada como material de tabloide.
Em 1996, quando Chad tinha 21 anos, o tabloide americano The Globe publicou fotografias em que ele aparecia beijando outro homem em uma banheira de hidromassagem durante uma festa. As imagens teriam sido vendidas por alguém que alegava ser amigo das pessoas fotografadas.
Chad não havia decidido tornar pública sua orientação sexual. Portanto, não se tratou de um anúncio planejado ou de uma entrevista concedida por vontade própria. Ele foi exposto por uma publicação que converteu um momento íntimo em mercadoria.
Na época, parte de sua família e do público ainda não sabia que ele era gay. O ator contou mais tarde que sentiu medo diante da repercussão e da movimentação de advogados, empresários e executivos interessados em decidir como a situação seria “administrada”. Em entrevista à revista The Advocate, ele relatou que havia pessoas próximas que já sabiam, enquanto outras jamais tinham perguntado ou não tinham intimidade suficiente com ele.
Criado em uma família católica rigorosa, Chad também precisou enfrentar o impacto dentro de casa. Segundo ele, seu pai inicialmente teve dificuldade para encará-lo, algo que o atingiu profundamente. A reação refletia um conflito comum naquele período, quando a homossexualidade ainda era frequentemente tratada por famílias religiosas como motivo de vergonha ou fracasso moral.
O elenco de Dr. Quinn ofereceu apoio, e ele conseguiu permanecer na produção até o encerramento da série. O problema tornou-se mais evidente depois.
Hollywood não divulgou um comunicado afirmando que Chad Allen estava proibido de trabalhar. A exclusão ocorreu de maneira mais silenciosa, como costuma acontecer quando uma indústria prefere proteger a própria imagem em vez de admitir preconceito.
Anos depois, o ator contou que, após o fim de Dr. Quinn, não conseguiu sequer uma audição para um episódio piloto da mesma emissora em que havia trabalhado durante seis anos em uma série de grande audiência. Ele observou que vinha trabalhando sem interrupções desde a infância, mas que as oportunidades praticamente cessaram depois que sua orientação sexual se tornou pública.
É importante fazer uma distinção: Chad não deixou de atuar imediatamente. Ele ainda participou de filmes, séries e produções teatrais. O que mudou foi o acesso aos papéis de maior projeção e às oportunidades oferecidas anteriormente com tanta facilidade.
O antigo galã passou a ser avaliado por executivos como um risco comercial. Na lógica dos estúdios, um ator gay assumido poderia não ser aceito pelo público como interesse romântico de personagens femininas. Era uma suposição baseada mais no conservadorismo dos dirigentes do que na capacidade de interpretação de Chad.
A repercussão também trouxe algo que ele não esperava. Jovens gays começaram a enviar cartas agradecendo por sua visibilidade. Chad respondeu pessoalmente a várias delas. Segundo o ator, perceber que outras pessoas enfrentavam conflitos parecidos ajudou a diminuir a sensação de isolamento provocada pela exposição.
Enquanto lidava com a pressão profissional e familiar, Chad enfrentava problemas graves com álcool e outras drogas. Em um relato posterior, descreveu um período em que se encontrava sozinho em um apartamento em Malibu, física e emocionalmente debilitado.
A atriz Heather Tom, sua amiga próxima e parceira em projetos teatrais, afastou-se ao perceber que não conseguiria ajudá-lo enquanto ele continuasse naquele estado. A ruptura funcionou como um alerta. Chad entrou em um programa intensivo de recuperação e permaneceu envolvido com iniciativas de apoio a outras pessoas que enfrentavam dependência.
A experiência também alterou sua relação com a própria história. Em vez de tentar reconstruir a imagem de ídolo juvenil, ele passou a participar de trabalhos relacionados à comunidade LGBTQIA+, à recuperação e à saúde mental.
Em 2007, produziu e estrelou Save Me, filme que acompanha um homem gay enviado para uma instituição religiosa que promete alterar sua orientação sexual. A produção foi exibida no Festival de Sundance e abordou os danos causados pelas chamadas terapias de conversão.
Em 2015, Chad anunciou que estava deixando a carreira de ator. A decisão veio depois de mais de três décadas diante das câmeras e coincidiu com uma mudança acadêmica que já estava em andamento.
Naquele mesmo ano, concluiu a graduação em Psicologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA. Mais tarde, ingressou no programa de doutorado em Psicologia Clínica da Antioch University New England.
Sua dissertação, concluída em 2020, recebeu o título Separating Rope Strands: An Unraveling of Shame in Gay Men. No trabalho, Chad investigou as origens da vergonha em homens gays e a maneira como esse sentimento pode afetar a formação da identidade, a autoestima e os vínculos afetivos.
O tema possuía uma relação evidente com sua biografia, mas foi abordado por meio de teorias psicológicas e estudos clínicos. Chad transformou experiências que durante anos haviam sido exploradas por revistas e programas de entretenimento em objeto de pesquisa profissional.
Atualmente, ele usa o nome completo Chad Allen Lazzari em sua atividade como psicólogo. Sua clínica, chamada Confluence Psychotherapy, atende pacientes presencialmente em Vermont e também oferece sessões on-line em estados americanos participantes do sistema PsyPact.
De acordo com seu perfil profissional, Chad trabalha principalmente com trauma, transtorno de estresse pós-traumático, questões masculinas e demandas relacionadas à população LGBTQIA+. Ele atende indivíduos, casais e grupos.
O nome da clínica faz referência à confluência, ponto em que dois rios se encontram. A escolha combina com a trajetória de alguém que passou décadas tentando conciliar versões aparentemente incompatíveis de si mesmo: o ator conhecido pelo público, o homem cuja intimidade foi exposta e o profissional que decidiu estudar os efeitos psicológicos da vergonha.
Longe da rotina de estreias e tapetes vermelhos, Chad passou a viver em uma região rural de Vermont, cercado pela natureza e por animais de estimação. Em uma publicação da Antioch University, ele foi descrito vivendo no estado com o companheiro, dois gatos e uma cadela, enquanto trabalhava no atendimento clínico de jovens adultos.
O menino que cresceu interpretando papéis para milhões de espectadores agora trabalha ouvindo histórias que raramente chegam às câmeras. A diferença é que, no consultório, identidade, medo e vergonha não precisam ser transformados em manchetes para chamar atenção.
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