Antes de completar 18 anos, Kirk Cameron já recebia salários que muitos adultos levariam décadas para alcançar, aparecia nas capas de revistas juvenis e tinha seu rosto reconhecido em praticamente qualquer lugar dos Estados Unidos. O curioso é que o rapaz no centro de toda aquela atenção nunca havia planejado ser ator. Seu desejo de infância era cursar medicina e se tornar cirurgião.
A televisão mudou seus planos, mas a fama não conseguiu determinar o restante de sua vida. Cameron se afastou do circuito tradicional de Hollywood, formou uma família com seis filhos e passou a escolher trabalhos ligados às próprias convicções. Em 2024, ganhou ainda um novo papel fora das câmeras: o de avô.
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O adolescente que virou o rosto mais conhecido de “Tudo em Família”
Nascido em 12 de outubro de 1970, Kirk Thomas Cameron começou a trabalhar como ator aos nove anos. A entrada na profissão ocorreu depois que uma amiga de sua mãe sugeriu que o garoto fosse apresentado a agentes publicitários.
A recomendação veio da mãe de Adam Rich, ator mirim conhecido pela série “Eight Is Enough”. Barbara Cameron seguiu o conselho e passou a levar o filho para testes. Kirk apareceu em comerciais, incluindo uma campanha do McDonald’s, e conseguiu pequenas participações na televisão.
O menino, porém, estava longe de demonstrar entusiasmo com a rotina. Anos depois, contou que ficava irritado por precisar arrumar o cabelo, colocar a camisa para dentro da calça e enfrentar cerca de uma hora no trânsito para participar das audições.
Tudo mudou em 1985, quando foi escolhido para interpretar Mike Seaver na série “Growing Pains”, exibida no Brasil com o título “Tudo em Família”. Cameron tinha 14 anos quando passou a viver o filho mais velho e encrenqueiro do casal Jason e Maggie Seaver.
A produção permaneceu no ar até 1992 e transformou o jovem ator em um dos principais ídolos adolescentes da década de 1980. Ele apareceu repetidamente em publicações como “Tiger Beat”, “Teen Beat” e “16”, além de receber duas indicações ao Globo de Ouro pelo papel. No auge do programa, seu salário teria chegado a US$ 50 mil por semana.
Sua irmã mais nova, Candace Cameron Bure, também construiu uma carreira ainda criança. Ela ficou conhecida mundialmente como D.J. Tanner, uma das protagonistas de “Full House”, série chamada de “Três é Demais” no Brasil.
Uma mudança religiosa alterou sua relação com a fama
A família de Cameron não tinha o hábito de frequentar igrejas. O ator afirmou que, aos 16 ou 17 anos, provavelmente se definiria como ateu. Sua aproximação com o cristianismo começou depois que uma garota por quem estava interessado o convidou para acompanhá-la a um culto.
Ele admitiria mais tarde que aceitou o convite por causa dela, e não por interesse religioso. A experiência, contudo, fez com que começasse a rever suas crenças. Aos 17 anos, em pleno sucesso de “Growing Pains”, Cameron se converteu ao cristianismo protestante.
A mudança logo afetou seu comportamento no estúdio. O ator passou a questionar cenas e histórias que considerava incompatíveis com seus valores. Entre elas, estava uma sequência na qual Mike Seaver acordaria ao lado de uma garota e perguntaria o nome dela.
Produtores e colegas temiam que as novas exigências interferissem no andamento da série. Cameron reconheceu posteriormente que adotou uma postura radical naquele período e que poderia ter explicado melhor suas decisões ao elenco.
Quando a produção terminou, ele reduziu o contato com os antigos companheiros e se distanciou da estrutura que havia comandado sua adolescência. Anos depois, afirmou que desejava começar uma vida longe do “circo” no qual estivera durante sete anos.
Isso não significa que tenha abandonado completamente a atuação, embora tenha deixado para trás o modelo de carreira que poderia mantê-lo entre as grandes estrelas dos estúdios. Cameron continuou trabalhando em projetos menores, sobretudo produções de temática cristã.
O casamento com uma colega de elenco
Enquanto interpretava Mike Seaver, Cameron conheceu Chelsea Noble, atriz que viveu Kate MacDonald, namorada de seu personagem nas últimas temporadas de “Growing Pains”.
Os dois se casaram em 21 de julho de 1991, quando ele tinha 20 anos. O casal teve seis filhos: Jack, Isabella, Ahna, Luke, Olivia e James. Os quatro mais velhos foram adotados, enquanto os dois mais novos são filhos biológicos.
A adoção ocupou um espaço importante na vida da família. Chelsea também foi adotada quando criança, circunstância que influenciou a decisão do casal. Cameron contou que os filhos sempre souberam de suas origens e que receberam apoio para procurar parentes biológicos quando tiveram idade suficiente.
O ator também costuma dizer que, dentro de casa, deixou de pensar nos filhos a partir da distinção entre adotivos e biológicos. Para ele e Chelsea, todos foram criados sob as mesmas regras, responsabilidades e demonstrações de afeto.
Durante esse período, Cameron manteve uma presença bem mais discreta no entretenimento comercial. Participou da franquia cristã “Deixados para Trás”, interpretou o bombeiro Caleb Holt no drama “À Prova de Fogo”, lançado em 2008, e passou a atuar como apresentador, produtor, escritor e evangelista.
Ele saiu de Hollywood, mas continuou diante das câmeras
A frase de que Kirk Cameron “abandonou Hollywood” ajuda a resumir sua mudança de prioridades, mas precisa de uma pequena correção: ele nunca parou totalmente de atuar.
O que Cameron rejeitou foi a busca por espaço nas grandes produções convencionais. Em vez disso, concentrou sua carreira em filmes, programas e livros direcionados ao público cristão e conservador.
Em 2022, protagonizou e produziu “Lifemark”, drama inspirado em uma história real de adoção. O tema tinha ligação direta com sua família, já que Chelsea e quatro dos filhos do casal foram adotados.
Dois anos depois, começou a apresentar “Adventures with Iggy and Mr. Kirk”, programa infantil produzido em parceria com a editora cristã Brave Books. A estreia ocorreu em novembro de 2024, em Nashville.
Cameron também voltou a comentar as condições enfrentadas por crianças e adolescentes nos bastidores da televisão. Após o lançamento do documentário “Quiet on Set”, ele falou sobre Brian Peck, ator e treinador de diálogos que circulava pelo set de “Growing Pains” e que, anos depois, foi condenado por abuso sexual contra um menor.
Embora Cameron não tenha acusado Peck de atacá-lo, afirmou que já desconfiava de comportamentos inadequados nos bastidores quando era adolescente. Também classificou como chocantes as revelações apresentadas no documentário.
A mudança da Califórnia para o Tennessee
Depois de passar praticamente toda a vida na Califórnia, Cameron decidiu deixar o estado com a família. A mudança para o Tennessee foi concluída em 2024, após alguns de seus filhos se estabelecerem na região de Nashville.
O ator disse que buscava custo de vida mais baixo, proximidade com os filhos adultos e uma comunidade que considerava mais alinhada aos seus valores familiares e religiosos. Ele também apontou Nashville como um polo crescente para produções cristãs e projetos independentes.
Mesmo tendo feito críticas duras à política e às condições econômicas da Califórnia, Cameron afirmou que guarda boas lembranças de sua infância no estado e que não descarta retornar algum dia.
A mudança acabou facilitando um acontecimento importante na família. Em 2024, sua filha Ahna Cameron Bower deu à luz Maya Jeanne Noble Bower, primeira neta do ator e de Chelsea.
Ao anunciar a chegada da criança, Cameron escreveu que ele e a esposa estavam com o coração transbordando e ansiosos para passar o máximo de tempo possível com a menina. A publicação foi feita quando ele ainda tinha 53 anos.
Em outubro de 2025, o antigo astro mirim completou 55 anos. Quatro décadas depois de conquistar a televisão como Mike Seaver, ele aparece nas redes sociais com cabelos grisalhos, barba bem aparada e uma aparência que rapidamente despertou comentários elogiosos dos admiradores.
Kirk continua casado com Chelsea, participa de produções voltadas ao público cristão e acompanha de perto a vida dos seis filhos. O adolescente que estampava revistas e provocava suspiros nos anos 1980 agora divide suas publicações entre trabalhos, encontros familiares e registros com a primeira neta.
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