Há objetos médicos que passam despercebidos sob a roupa e outros que seus usuários aprendem, por pressão social, a esconder. Para Sara Levitt, durante muitos anos, a bolsa de ostomia pertencia à segunda categoria. Hoje, a modelo canadense faz justamente o contrário: sobe à passarela com o dispositivo à mostra e fala sobre fezes com um humor que desmonta parte do constrangimento em torno do assunto.
Aos 30 anos, Sara transformou uma condição que manteve em segredo por cerca de 15 anos em parte visível de seu trabalho como modelo e criadora de conteúdo. Ela vive com doença de Crohn e utiliza uma bolsa de ostomia presa ao abdômen para coletar os resíduos eliminados pelo intestino. Em entrevista à revista People, resumiu sua nova postura de maneira direta: “Quero compartilhar minha história. Não tenho nada a esconder.”
A frase ganha outro peso quando se conhece o que aconteceu antes das fotos e dos desfiles.
Uma doença que começou ainda na infância
Sara Levitt nasceu em Montreal, no Canadá. Segundo seu relato à People, ela recebeu diagnóstico de colite ulcerativa aos três anos, após apresentar sangue nas fezes, perda de apetite e outros sintomas. Em 2006, exames indicaram que seu quadro havia evoluído para doença de Crohn.
Os dois anos seguintes incluíram longas internações, uso de medicamentos e períodos em que precisava ser alimentada por uma sonda nasal. Aos 11 anos, chegou a pesar aproximadamente 18 quilos, segundo contou.
Quando os medicamentos deixaram de controlar adequadamente seu quadro, a situação se tornou grave. Exames apontavam risco de ruptura intestinal e sepse, e os médicos recomendaram uma cirurgia de emergência. Em maio de 2008, aos 13 anos, ela foi submetida à primeira operação para criação de uma ostomia.
Em termos simples, a ostomia cria cirurgicamente uma abertura chamada estoma, por onde as fezes deixam o organismo e seguem para uma bolsa coletora externa presa ao abdômen. Ileostomias e colostomias estão entre os tipos usados em pacientes com doenças inflamatórias intestinais.
A expressão “bolsa de cocô”, usada pela própria Sara com bom humor, refere-se justamente a esse dispositivo médico.
Durante anos, ela fazia de tudo para esconder a bolsa
A cirurgia melhorou consideravelmente sua condição física, mas trouxe uma dificuldade diferente. Adolescente, Sara passou a pensar constantemente em como esconder a bolsa.
Ela contou que temia que outras pessoas sentissem nojo, percebessem algum cheiro ou ouvissem os ruídos produzidos pelo estoma. Também imaginava que dificilmente seria considerada atraente ou que teria problemas para se relacionar afetivamente.
A roupa passou a fazer parte desse esforço diário. Calças de cintura alta e peças capazes de cobrir o abdômen eram escolhas frequentes. Biquínis eram evitados em público. Quando aparecia em fotografias, Sara preferia ser registrada de costas ou usava alguma peça para cobrir a região.
Em uma ocasião, chegou a editar digitalmente uma fotografia para retirar a bolsa de ostomia de seu corpo.
Com o passar dos anos, também descobriu que a cirurgia inicialmente considerada temporária teria caráter permanente. Sara passou por cinco procedimentos desde 2008; sua colostomia inicial acabou sendo convertida em uma ileostomia.
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Um biquíni marcou o começo da mudança
Uma viagem familiar a Cuba, em 2019, provocou uma primeira mudança na relação de Sara com o próprio corpo. Ela decidiu levar somente biquínis e apareceu em público com a bolsa visível, embora ainda tentasse cobri-la com o braço em alguns momentos.
O gesto parece pequeno para quem nunca precisou esconder um dispositivo médico preso ao corpo. Para ela, era algo que havia evitado durante anos.
Em 2023, outra viagem a Cuba, dessa vez sozinha, teve um efeito ainda maior. Sara começou a tirar fotografias sem esconder a ostomia. Houve até um vazamento da bolsa durante a viagem, situação que anteriormente teria provocado enorme constrangimento. Dessa vez, ela simplesmente resolveu o problema e seguiu com o dia.
Ao rever as fotografias, decidiu publicar sua história.
No aniversário de 29 anos, em setembro de 2023, mostrou publicamente a bolsa de ostomia pela primeira vez. A experiência abriu espaço para algo que dificilmente imaginava durante a adolescência: trabalhar como modelo exibindo justamente aquilo que havia passado anos tentando apagar das fotografias.
Da tentativa de esconder à passarela
Sara passou a usar a moda de outra maneira. Peças transparentes, calças de cintura baixa, roupas de banho e produções que deixam a bolsa visível começaram a aparecer em ensaios e desfiles.
O perfil oficial do Miss Universe Canada registra que ela se tornou a primeira pessoa ostomizada a desfilar na New York Fashion Week. Também participou de desfiles em Montreal, Dallas Swim Week e Miss Bikini USA e foi escolhida como candidata ao Miss Universe Canada 2025.
Há, inclusive, uma piada que ela repete ao falar de sua carreira: gosta de “longas caminhadas pela passarela enquanto faz cocô na bolsa”. A frase deliberadamente desconfortável tem uma função bastante clara. Sara coloca em público uma atividade corporal que costuma ser tratada com extremo constrangimento, especialmente quando associada a doença, cirurgia e deficiência visível.
Ela chegou a dar um nome à própria bolsa: Liv, palavra que significa “vida” em sueco.
A escolha tem relação direta com o que o dispositivo representa para ela. Aos 13 anos, Sara enxergava a ostomia como algo capaz de afastá-la da vida que gostaria de ter. Anos depois, passou a reconhecer que aquela cirurgia havia permitido justamente que saísse do hospital, recuperasse peso e retomasse atividades que a doença havia limitado.
Vida com uma ostomia pode incluir praia, esporte e vida sexual
Parte do trabalho de Sara nas redes sociais também consiste em responder dúvidas bastante práticas. Pessoas ostomizadas podem tomar banho, nadar, viajar, praticar atividades físicas e manter vida sexual. Naturalmente, cuidados com o estoma, pele e equipamento continuam necessários.
A Crohn’s & Colitis Foundation explica que pessoas com ileostomia podem manter uma vida ativa e participar de atividades como esportes, natação, viagens e trabalho. A organização também destaca que a ostomia pode ser temporária ou permanente, dependendo do quadro clínico.
Sara diz receber mensagens de pessoas que decidiram usar biquíni pela primeira vez ou que passaram a sentir menos medo diante da possibilidade de uma cirurgia de ostomia depois de acompanhar seu conteúdo.
É justamente por isso que, nas passarelas, ela prefere deixar a bolsa onde todos possam vê-la. O objeto que um dia determinava quais roupas ela podia vestir agora aparece em editoriais, concursos e desfiles sem qualquer tentativa de disfarce. E, nesse caso, a provocação cabe literalmente no abdômen.
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