Quando alguém pensa em alimentação prejudicial ao coração, é comum lembrar imediatamente de bacon, frituras, carnes gordurosas ou excesso de sal. Mas existe outro grupo de alimentos que pode passar despercebido justamente por aparecer em produtos vendidos como opções práticas ou até saudáveis: os carboidratos refinados.
O cirurgião cardiovascular americano Dr. Philip Ovadia chama atenção para o consumo frequente desses alimentos e afirma que eles podem contribuir para resistência à insulina, inflamação e processos associados à formação de placas nas artérias.
A própria American Heart Association (AHA), em sua orientação alimentar atualizada em 2026, recomenda priorizar alimentos feitos principalmente com grãos integrais em vez de grãos refinados, reduzir açúcares adicionados e dar preferência a alimentos minimamente processados.
O que são carboidratos refinados?
Carboidratos refinados são encontrados em alimentos produzidos a partir de grãos que passaram por processamento e perderam parte de seus componentes naturais, especialmente fibras.
Farinha branca, por exemplo, é utilizada na fabricação de pães, bolachas, biscoitos, massas e diversos produtos industrializados. O problema não está no fato de o alimento conter carboidratos, já que eles fazem parte de uma alimentação normal e fornecem energia. A questão é a qualidade do carboidrato e o conjunto do alimento consumido.
A AHA diferencia os carboidratos refinados dos alimentos ricos em carboidratos complexos e fibras, como legumes, frutas e grãos integrais. A fibra retarda a digestão e ajuda a evitar elevações rápidas da glicose no sangue.
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Por que eles podem afetar o coração?
O consumo frequente de alimentos ricos em carboidratos refinados, especialmente quando associado ao excesso de calorias e açúcares adicionados, pode contribuir para alterações metabólicas que aumentam o risco cardiovascular.
Após uma refeição rica em carboidratos de rápida absorção, a glicose sanguínea aumenta e o organismo libera insulina para ajudar a transportá-la para as células. Quando esse padrão ocorre repetidamente dentro de uma alimentação de baixa qualidade, pode haver associação com resistência à insulina, ganho de peso e alterações nos níveis de triglicerídeos.
A AHA destaca que o excesso de açúcares simples pode elevar os triglicerídeos, um dos fatores relacionados ao risco de doenças cardiovasculares.
Outro ponto é a inflamação. Estudos observacionais associam padrões alimentares mais inflamatórios, nos quais aparecem com frequência grãos refinados e bebidas açucaradas, a maior risco de doença cardíaca e acidente vascular cerebral.
É nesse contexto que entra o alerta de Ovadia sobre a formação de placas nas artérias. A aterosclerose envolve processos complexos, com participação de colesterol, inflamação, pressão arterial, tabagismo, diabetes e outros fatores. Portanto, atribuir o problema a um único alimento seria simplificar demais uma questão médica bastante mais complicada.
Os alimentos que podem esconder o problema
O alerta ganha importância porque carboidratos refinados não aparecem somente em doces ou produtos obviamente pouco nutritivos.
Entre os exemplos citados por Ovadia estão:
- granola com pouca gordura;
- pão integral, dependendo da formulação;
- biscoitos de arroz;
- bagels;
- iogurtes saborizados;
- sucos de frutas;
- aveia instantânea;
- cereais matinais;
- biscoitos salgados;
- batatas fritas.
Isso não significa que todos esses alimentos sejam automaticamente prejudiciais ou que precisem ser eliminados da alimentação. O rótulo e a composição fazem diferença. Um pão integral com boa quantidade de fibras e poucos ingredientes é nutricionalmente diferente de um produto com farinha refinada, açúcar e pouca fibra.
A própria AHA recomenda observar os rótulos e comparar produtos considerando quantidades de sódio, açúcares adicionados, gordura saturada e outros componentes.
Pão integral é sempre uma escolha saudável?
Não necessariamente.
A palavra “integral” na embalagem não transforma magicamente um produto em alimento cardioprotetor. Alguns produtos classificados como integrais ainda podem conter quantidades relevantes de açúcares adicionados, sódio e outros ingredientes.
Por isso, vale olhar a lista de ingredientes e a tabela nutricional. Quanto maior a presença de grãos integrais e fibras e menor a quantidade de açúcares adicionados, melhor tende a ser a escolha dentro de uma alimentação voltada à saúde cardiovascular.
A recomendação atual da AHA é justamente priorizar alimentos feitos principalmente com grãos integrais em vez de versões refinadas.
O problema não é simplesmente “comer carboidrato”
Essa distinção é importante porque demonizar carboidratos seria outro erro.
Frutas, feijão, lentilha, ervilha, batata, aveia e grãos integrais também fornecem carboidratos. Muitos desses alimentos oferecem simultaneamente fibras, vitaminas, minerais e outros nutrientes importantes.
A AHA ressalta que a qualidade dos carboidratos importa mais do que simplesmente classificá-los como bons ou ruins. Frutas e vegetais, por exemplo, contêm carboidratos, mas também fornecem fibras e micronutrientes.
O problema aparece principalmente quando alimentos refinados e ricos em açúcares adicionados ocupam uma parcela grande da alimentação e substituem opções mais nutritivas.
O que colocar no lugar?
A recomendação não precisa ser complicada. Em vez de simplesmente retirar carboidratos refinados, a estratégia mais interessante é substituí-los por alimentos com melhor composição nutricional.
Algumas trocas possíveis incluem:
Pão branco → pão integral com boa quantidade de fibras
Cereal açucarado → aveia em flocos
Biscoitos → frutas, castanhas ou iogurte natural
Bebida açucarada → água, café ou chá sem açúcar
Arroz branco em excesso → arroz integral ou uma combinação com feijão e vegetais
Produtos ultraprocessados → alimentos minimamente processados
A alimentação mediterrânea costuma ser citada como referência porque reúne vegetais, frutas, leguminosas, peixes, grãos integrais, castanhas, sementes e azeite, enquanto reduz a presença de alimentos ultraprocessados e carnes processadas.
As recomendações de 2026 da AHA seguem uma lógica semelhante: priorizar vegetais e frutas, escolher grãos integrais, consumir fontes saudáveis de proteína e gorduras insaturadas, reduzir alimentos ultraprocessados e limitar açúcares adicionados.
Portanto, o alerta do cirurgião cardiovascular chama atenção para um hábito que pode ser facilmente ignorado: consumir diariamente produtos feitos com farinha refinada e açúcar, acreditando que eles são equivalentes a alimentos integrais.
O coração não costuma ser prejudicado por uma refeição isolada. O risco cardiovascular é construído ao longo do tempo, pela combinação de alimentação, atividade física, pressão arterial, colesterol, glicemia, peso corporal, tabagismo, genética e outros fatores. É justamente por isso que trocar regularmente carboidratos refinados por alimentos ricos em fibras e nutrientes pode ser mais relevante do que procurar um único “vilão” na dieta.
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