Elza Soares, uma mulher de parecia eterna, se foi no mesmo 20 de janeiro que Mané Garrincha, seu grande amor de uma vida.

“Foi como se fosse um drible (dele) no espaço-tempo. Ou como uma inventiva divisão rítmica (dela): uma síncope inesperada, o acento da voz rouca no tempo fraco, deixando a orquestra e o público como que suspensos, encantados num Brasil que deu certo”, disse Hugo Sukman, jornalista e escritor do livro “Nara – 1964).

Em artigo à Folha de São Paulo, Hugo conta que “faz sentido que Garrincha e Elza tenham morrido no mesmo dia, e no dia do padroeiro da cidade que lhes serviu de palco”.

“Se Mané foi as pernas (tortas) desse Brasil, Elza foi a voz. Igualmente torta. Ou melhor, rouca, a mais suingada das que já apareceram por aqui”, completou.

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Considerada a artista brasileira do milênio, Elza Soares nasceu em uma família muito humilde, composta por dez irmãos, na favela da Moça Bonita, atualmente Vila Vintém, no bairro de Padre Miguel, e ainda pequena mudou-se para um cortiço no bairro da Água Santa, onde foi criada.

Em sua infância, vivia a brincar na rua, soltar pipa, piões de madeira, até brigar com os meninos. Era uma vida pobre, porém feliz para uma criança, apesar de ter que ajudar a mãe nos serviços domésticos, levando latas d’água na cabeça.

A voz de Elza é inesquecível. “Quando Elza chegou ao auditório da Rádio Tupi em 1953, mal-ajambrada no vestido da mãe gordíssima ajustado por alfinetes ao seu corpo magérrimo para concorrer nos “Calouros em Desfile”, o apresentador Ary Barroso não conseguiu segurar sua ironia: “De que planeta você vem minha filha?”. “Do planeta fome, seu Ary”, na primeira das infinitas respostas que precisou dar na vida até que a deixassem começar a cantar. E aí ela cantou e, a Ary e à plateia suspensos diante daquele Brasil improvável dando certo ali na frente deles, só restou dar a nota máxima e a primeira das muitas consagrações que Elza conquistaria pela voz”, contou Hugo Sukman.

Com sua voz poderosa, nos 1970, que Elza foi ficando cada vez mais sambista, cantando “Malandro”, de Jorge Aragão, mais uma vez revolucionária apresentando ao mundo a Geração Cacique de Ramos.

“Foi a voz que a salvou de sucumbir às dificuldades da vida cantando “Língua” de Caetano Veloso nos 80, até ser redescoberta por uma nova geração nos 90 e chegar no século XXI de novo como porta-voz das meninas e mulheres brasileiras”, explicou Hugo Sukman.

Elza era a representante das pessoas pobres e das periferias como ela, a dizer em samba diretamente aos homens que as violentam: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim/Cadê meu celular/Eu vou ligar pro um oito zero/Vou entregar teu nome…”.

“Como curador, fui instado a encerrar uma história do samba. E quem me salvou foi Elza. Num filme ainda inédito para o MIS de Copacabana sobre uma História Social do Samba, o dilema de como terminar uma história imensa como a do samba – e sobretudo “social”, ou seja, da gente do samba – foi resolvida com Elza cantando “A voz do morro”, de Zé Kéti, linda, moderna, em preto e branco, improvisando ao final, “samba, eu sou o samba, samba, eu sou o samba”. E é mesmo”, completou o jornalista.

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