Muito antes de Paul Hewson adotar o nome Bono e ocupar os maiores palcos do mundo, ele era um adolescente de Dublin que voltava da escola para uma casa marcada pela ausência da mãe. Ali Stewart conheceu esse garoto antes dos discos, dos contratos milionários e das multidões. O relacionamento dos dois começou justamente em um dos períodos mais difíceis da vida do futuro vocalista do U2.
A história costuma ser apresentada como um casamento duradouro entre uma celebridade e sua namorada de infância. Porém, alguns detalhes ajudam a entender por que essa relação ganhou tanta importância para Bono — e também por que Ali construiu uma trajetória que vai muito além da carreira do marido.
Alison Stewart nasceu em março de 1961 e cresceu em Raheny, região localizada ao norte de Dublin, na Irlanda. Aos 12 anos, ela conheceu Paul David Hewson no Mount Temple Comprehensive School, onde ele estudava um ano à frente.
Paul era expansivo, desajeitado e fazia questão de chamar a atenção. Ali, a princípio, não ficou exatamente encantada. Ela chegou a descrevê-lo usando a palavra irlandesa “eejit”, algo próximo de “bobo” ou “idiota” em português.
Apesar da primeira impressão, os dois começaram a se aproximar. Naquela época, ninguém ao redor poderia prever que Paul se tornaria o líder de uma das bandas mais conhecidas da história do rock.
Em setembro de 1974, quando Bono tinha 14 anos, sua mãe, Iris Hewson, sofreu um aneurisma durante o funeral do próprio pai. Ela morreu poucos dias depois, em um hospital de Dublin.
O impacto da perda foi agravado pela maneira como a família reagiu. Bono contou anos mais tarde que seu pai, Bob, e seu irmão mais velho, Norman, praticamente deixaram de falar sobre Iris. Segundo o músico, os três evitavam qualquer conversa que pudesse trazer aquela dor de volta.
Sem a presença da mãe, a rotina doméstica também mudou. Bono relatou que as refeições perderam o caráter familiar e passaram a servir basicamente como alimento para sobrevivência. Durante certo período, seu irmão levava para casa refeições excedentes da companhia aérea em que trabalhava.
Foi nesse contexto que Ali percebeu que o colega enfrentava dificuldades bem maiores do que demonstrava na escola.
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Ali começou a acompanhá-lo no caminho até a escola e a ajudá-lo em tarefas simples do cotidiano. Algumas biografias relatam que ela lavava suas roupas, preparava comida e tentava garantir que ele estivesse se alimentando adequadamente.
Esses gestos ocorreram longe de qualquer atenção pública. Paul ainda não era um cantor famoso e tampouco tinha uma carreira estabelecida. Era um adolescente tentando reorganizar a vida após uma perda repentina.
A amizade se transformou em namoro por volta de 1976. Foi também naquele ano que outro estudante do Mount Temple, Larry Mullen Jr., colocou um anúncio no mural da escola procurando músicos para formar uma banda.
Paul respondeu ao chamado. O grupo inicial ainda não se chamava U2 e passou por diferentes formações e nomes antes de reunir Bono, Larry Mullen Jr., Adam Clayton e David Evans, o The Edge.
Enquanto o projeto musical dava seus primeiros passos, Ali permanecia próxima. Ela conhecia as inseguranças e o luto do rapaz muito antes de sua imagem ser associada a óculos escuros, turnês internacionais e discursos diante de milhares de pessoas.
Depois de alguns anos de namoro, Bono e Ali começaram a conversar sobre casamento. O cantor, porém, queria esperar até que a carreira apresentasse alguma estabilidade.
Eles se casaram em 31 de agosto de 1982, na All Saints Church, em Raheny. Bono tinha 22 anos e Ali, 21. Adam Clayton, baixista do U2, foi o padrinho do noivo.
A situação financeira do casal ainda estava longe do conforto que viria posteriormente. O U2 acumulava despesas relacionadas às gravações e às turnês, e os dois não tinham dinheiro para pagar uma lua de mel.
Chris Blackwell, fundador da gravadora Island Records, emprestou ao casal sua propriedade GoldenEye, na Jamaica. Ao retornarem à Irlanda, Bono e Ali chegaram a dividir uma pequena residência com outros integrantes da banda.
O casamento ocorreu pouco antes da ascensão internacional do U2. Em 1983, o álbum War e músicas como Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day aumentaram a projeção do grupo. A agenda passou a incluir viagens prolongadas, entrevistas, gravações e apresentações em vários países.
A rotina de Bono mudou rapidamente. Ele passava longos períodos longe de casa, cercado por músicos, profissionais da indústria e admiradores. Ali, por sua vez, precisou lidar com a exposição e com as ausências frequentes do marido.
O próprio cantor reconheceu que o casamento enfrentou momentos delicados, especialmente durante a produção de The Joshua Tree, na segunda metade da década de 1980. O trabalho ocupava grande parte de seu tempo, e a distância afetava a convivência do casal.
Ali nunca demonstrou grande interesse pelo ambiente das celebridades. Segundo relatos do casal, essa postura ajudou a manter Bono conectado à vida que tinha antes do reconhecimento público.
Para o músico, a amizade construída na adolescência tornou-se uma das bases do relacionamento. Em diferentes entrevistas, ele afirmou que a paixão pode mudar com o passar dos anos, enquanto a amizade oferece sustentação quando as circunstâncias ficam mais difíceis.
Embora seja frequentemente apresentada como “a mulher de Bono”, Ali Hewson desenvolveu atividades independentes da música do marido.
Ela estudou ciências sociais, política e sociologia na University College Dublin. Concluiu a graduação em 1989, aos 28 anos, pouco depois do nascimento de Jordan, primeira filha do casal. Ali chegou a realizar seus exames finais poucas semanas após o parto.
Bono e Ali tiveram mais três filhos: Eve, nascida em 1991; Elijah, em 1999; e John, em 2001. A família tentou preservar a privacidade das crianças, apesar da crescente atenção dirigida ao cantor.
Paralelamente, Ali passou a atuar em campanhas ambientais e humanitárias, com atenção especial às consequências do acidente nuclear de Chernobyl.
No início da década de 1990, Ali viajou para áreas atingidas pela contaminação radioativa em Belarus. Ela participou como narradora do documentário irlandês Black Wind, White Land, exibido em 1993, que mostrou os efeitos prolongados do desastre nuclear ocorrido em 1986.
Em 1994, tornou-se patrona do Chernobyl Children’s Project International, organização posteriormente rebatizada como Chernobyl Children International. Ao longo dos anos, fez diversas viagens a Belarus, participou de comboios humanitários e ajudou a transportar suprimentos médicos.
Seu trabalho também se voltou contra a usina nuclear de Sellafield, no Reino Unido. Em 2002, Ali liderou uma campanha que enviou cartões-postais ao governo britânico pedindo o fechamento das instalações.
Em 2005, ela e a empresária Rogan Gregory fundaram a Edun, marca de moda que buscava incentivar a produção e a geração de empregos em países africanos. A proposta era usar o comércio como instrumento de desenvolvimento econômico, em vez de limitar o apoio a doações pontuais.
A influência de Ali também apareceu na produção musical do U2. Durante as gravações de The Joshua Tree, Bono ficou tão envolvido com o trabalho que se esqueceu do aniversário da esposa.
Como pedido de desculpas, escreveu a canção Sweetest Thing. A primeira versão foi lançada como lado B do single Where the Streets Have No Name, em 1987.
Anos depois, a banda regravou a música para a coletânea The Best of 1980–1990. O novo lançamento ocorreu em 1998 e ganhou um videoclipe gravado nas ruas de Dublin.
Ali aceitou o pedido de desculpas com uma condição bem-humorada: os rendimentos obtidos com o single deveriam ser destinados às crianças afetadas pelo acidente de Chernobyl. A receita foi direcionada ao projeto humanitário com o qual ela trabalhava.
No clipe, Bono tenta reconquistar a esposa com flores, carruagens, músicos e cartazes gigantes. Ali aparece por alguns segundos, olhando para o marido com uma expressão pouco impressionada — uma referência divertida à garota que, ainda na escola, achava aquele colega barulhento um verdadeiro “eejit”.
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