Voltar para casa costuma ser associado ao reencontro com aquilo que permaneceu esperando: o rosto da mãe, a língua ouvida na infância, a comida preparada pela família e a segurança de um quarto conhecido. Para Herman Lehmann, porém, o retorno significou ser retirado à força da vida que aprendera a considerar sua.
Quando chegou a Loyal Valley, no Texas, escoltado por soldados em maio de 1878, Herman já não era o menino levado de uma plantação quase oito anos antes. Sua família havia passado esse tempo procurando por ele e, em determinado momento, chegou a acreditar que estivesse morto. Diante do rapaz que retornava, sua mãe quase não conseguiu reconhecê-lo.
O estranhamento era recíproco: Herman também não reconheceu imediatamente a mulher que nunca havia desistido de encontrá-lo.
Herman Lehmann nasceu em 5 de junho de 1859, perto de Loyal Valley, no condado de Mason. Era filho de imigrantes alemães e cresceu falando o idioma da família.
Em 16 de maio de 1870, quando estava prestes a completar 11 anos, ele ajudava os irmãos a espantar pássaros de uma plantação de trigo. Naquele dia, um grupo apache atacou a propriedade e capturou Herman e seu irmão mais novo, Willie.
Duas meninas que estavam no local conseguiram escapar. Willie também recuperou a liberdade poucos dias depois, durante um confronto entre os sequestradores e soldados enviados para procurar os garotos. Herman continuou sob o controle do grupo e foi levado para longe de sua comunidade.
A captura ocorreu em um período de conflitos frequentes nas fronteiras do Texas. Povos indígenas defendiam seus territórios enquanto o avanço de colonos, soldados, caçadores e criadores de gado alterava profundamente a região. Ataques, represálias e capturas aconteciam de ambos os lados.
Crianças capturadas por grupos indígenas podiam ser incorporadas às famílias como substitutas de parentes mortos. Depois de adotadas, muitas eram tratadas como integrantes legítimas da comunidade, e não simplesmente como prisioneiras mantidas indefinidamente.
Entre os apaches, Herman foi acolhido por um guerreiro conhecido como Carnoviste. Aprendeu a língua, a caçar, montar a cavalo, localizar água, proteger-se durante deslocamentos e sobreviver nas planícies.
A mudança foi profunda. Ainda criança e afastado de tudo o que conhecia, Herman passou a construir vínculos afetivos com as pessoas ao seu redor. Aos poucos, as lembranças da infância perderam espaço para a rotina que vivia diariamente.
Ele deixou de se enxergar como o filho desaparecido de uma família alemã. Em suas memórias, apresentaria aquele período como alguém que havia se tornado apache e desejava permanecer entre os indígenas.
Isso ajuda a entender por que sua história não cabe na explicação simplista de que passou oito anos esperando por um resgate. Quando as autoridades finalmente o localizaram, Herman já considerava aquele modo de vida parte central de quem era.
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Anos depois, Carnoviste morreu. Herman responsabilizou um curandeiro apache pelo ocorrido e acabou matando o homem. Temendo ser perseguido pelos parentes da vítima, abandonou o grupo.
Durante meses, viveu sozinho nas planícies. Caçava para obter alimento, dormia ao ar livre e evitava aproximações que pudessem colocar sua vida em risco.
O isolamento chegou ao fim quando ele encontrou um grupo de comanches. Sua recepção inicialmente foi tensa, mas Herman conseguiu explicar sua história com a ajuda de um guerreiro que falava apache. Foi aceito pelo grupo e recebeu outro nome: Montechema.
Na primavera de 1877, esteve envolvido em combates contra caçadores de búfalos no Texas. Um desses confrontos ocorreu em Yellow House Canyon e é citado como uma das últimas grandes batalhas entre indígenas e não indígenas no estado.
Ainda em 1877, Herman conheceu Quanah Parker, uma das figuras mais importantes da história comanche.
Quanah era filho de Cynthia Ann Parker, norte-americana capturada ainda criança durante um ataque a Fort Parker. Ela cresceu entre os comanches, formou uma família com Peta Nocona e tornou-se mãe de Quanah. Décadas depois, ao ser levada de volta para parentes brancos, Cynthia também teve enorme dificuldade para aceitar a separação de sua família comanche.
Quanah provavelmente compreendia melhor que a maioria das pessoas o conflito vivido por alguém ligado a culturas diferentes. Ele acolheu Herman e passou a tratá-lo como integrante de sua família.
Naquele período, Quanah procurava convencer grupos comanches que ainda circulavam livremente pelas planícies a se estabelecerem na reserva próxima a Fort Sill, no então Território Indígena, atual Oklahoma. Herman acompanhou o grupo até a região.
Foi em Fort Sill que outras pessoas começaram a prestar atenção naquele jovem de pele clara e olhos azuis que vivia entre os comanches.
A mãe de Herman nunca havia encerrado completamente as buscas. Ao saber que um rapaz com suas características vivia na reserva, pediu que ele fosse levado ao Texas, mesmo sem ter certeza de que se tratava de seu filho.
Em abril de 1878, uma ordem determinou que Herman fosse enviado de volta. Cinco soldados e um condutor o escoltaram em um veículo puxado por mulas. A chegada a Loyal Valley ocorreu em 12 de maio daquele ano.
Os moradores se reuniram para observar o retorno do jovem desaparecido. Para a comunidade, aquela deveria ser a reparação de uma tragédia iniciada oito anos antes.
Para Herman, era uma nova ruptura.
Ele acreditava que seus parentes estivessem mortos e não reconheceu imediatamente a mãe. Ela também teve dificuldade para enxergar naquele rapaz o menino que perdera.
Herman já não falava o alemão aprendido em casa e também não dominava o inglês. Precisou reaprender a se comunicar com a família e entender os hábitos daquela sociedade.
A readaptação foi difícil. Ele não estava acostumado a dormir em camas, rejeitava determinados alimentos e mantinha roupas e comportamentos aprendidos entre apaches e comanches.
O rapaz visto pelos parentes como alguém finalmente “recuperado” sentia que havia sido afastado de sua família indígena. Embora tivesse nascido entre colonos de origem alemã, sua formação durante a adolescência ocorrera em outro ambiente, com referências sociais, afetivas e culturais bastante diferentes.
A tentativa de devolvê-lo ao lugar exato que ocupava aos 10 anos esbarrava em um fato simples: aquele menino já não existia.
Mesmo depois de permanecer novamente entre os parentes biológicos, Herman não rompeu os vínculos construídos nos anos anteriores.
Em 1900, mudou-se para o Território Indígena para ficar mais próximo de amigos apaches e comanches. No ano seguinte, Quanah Parker assinou uma declaração reconhecendo que havia adotado Herman como filho.
Em 1908, o Congresso dos Estados Unidos autorizou a concessão de 160 acres de terra em Oklahoma a Herman, na condição de membro adotivo da Nação Comanche. Ele escolheu uma propriedade próxima à atual cidade de Grandfield.
Esse reconhecimento oficial mostra que sua ligação com os comanches continuou relevante décadas depois do retorno ao Texas.
Em 1927, Herman publicou, com edição de J. Marvin Hunter, o livro “Nine Years Among the Indians”, traduzido como “Nove Anos Entre os Índios”. A obra reuniu suas lembranças sobre a captura, a convivência com apaches e comanches, os conflitos e a difícil readaptação à sociedade dos colonos.
Como ocorre com outros relatos autobiográficos, alguns episódios dependem principalmente das memórias do próprio Herman e devem ser lidos considerando o tempo decorrido e a interferência editorial. Ainda assim, o livro se tornou uma referência importante para pesquisadores interessados nas chamadas narrativas de cativeiro e na história das fronteiras do Texas.
Herman morreu em 2 de fevereiro de 1932, aos 72 anos, no condado de Mason. Foi sepultado em Loyal Valley, região onde havia nascido e de onde fora levado quando criança.
Sua vida acabou registrada sob diferentes definições: filho de imigrantes alemães, criança capturada, guerreiro apache, integrante dos comanches e filho adotivo de Quanah Parker. Todas descrevem partes reais de sua trajetória, mas nenhuma, isoladamente, explica quem ele se tornou.
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