Uma televisão desligada ocupa pouco espaço. Ligada durante horas, porém, pode ocupar o tempo que seria usado para caminhar, conversar, dormir melhor ou simplesmente descansar a mente. É nesse sentido — e não como uma promessa literal de longevidade — que circula um conselho atribuído ao cardiologista Evguêni Cházov: diminuir drasticamente a presença da televisão na rotina doméstica.
Cházov foi um importante médico soviético e russo, pioneiro em tratamentos para dissolução de coágulos e dirigente de grandes instituições de cardiologia. Também exerceu o cargo de ministro da Saúde da União Soviética e ajudou a fundar a organização Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1985. Ele morreu em 2021, aos 92 anos.
A recomendação de “tirar a televisão de casa”, entretanto, aparece principalmente em matérias recentes sobre os supostos segredos de longevidade do médico. Não foi localizado um registro primário confiável no qual Cházov determine literalmente que as pessoas joguem o aparelho fora. O conselho deve ser entendido como uma reflexão sobre excesso de notícias negativas, sedentarismo e estresse — fatores que, de fato, merecem atenção.
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O aparelho em si não causa infarto. O problema costuma estar no modo como ele é utilizado.
Horas seguidas diante da tela podem significar longos períodos sentado, menos atividade física, refeições feitas sem atenção, sono atrasado e exposição contínua a conteúdos que provocam medo, revolta ou ansiedade.
Estudos observacionais relacionam períodos prolongados assistindo à televisão a um risco maior de doenças cardiovasculares e mortalidade. Isso não prova que o aparelho seja diretamente responsável pelo problema, mas indica que o hábito pode fazer parte de um estilo de vida prejudicial.
A Organização Mundial da Saúde também alerta que níveis elevados de comportamento sedentário estão associados a maior incidência de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e mortes por diferentes causas. A recomendação é limitar o tempo parado e substituir parte dele por qualquer atividade física possível, mesmo que leve.
Portanto, “eliminar a televisão” pode significar, na prática, retirar da rotina o consumo automático e prolongado de telas.
Receber informações faz parte da vida. A dificuldade começa quando a pessoa permanece conectada durante horas a tragédias, crimes, conflitos políticos e conteúdos sensacionalistas.
Esse fluxo constante pode manter o organismo em estado de alerta. Em uma situação estressante, o corpo libera hormônios como a adrenalina, acelera os batimentos cardíacos e aumenta temporariamente a pressão arterial. Quando a tensão se prolonga, ela pode prejudicar o sono, alterar o apetite e favorecer comportamentos como fumar, beber em excesso ou abandonar exercícios.
A Associação Americana do Coração explica que o estresse crônico pode contribuir para a hipertensão e está associado a um risco cardiovascular maior. A entidade ressalta, contudo, que a relação é complexa e ainda continua sendo estudada.
Isso significa que assistir a um telejornal não provocará automaticamente uma doença cardíaca. O problema está na repetição diária, especialmente quando a pessoa percebe irritação, angústia, insônia ou sensação de ameaça mesmo depois de desligar a tela.
Para a maioria das pessoas, uma mudança de rotina será mais útil do que retirar fisicamente a televisão da sala.
Algumas medidas simples podem reduzir os efeitos negativos:
Evite deixar a televisão ligada durante toda a noite ou até o momento de dormir. Escolha antecipadamente o que deseja assistir e desligue quando o programa terminar.
Informar-se uma ou duas vezes ao dia costuma ser suficiente. Repetir as mesmas notícias por horas aumenta o desgaste emocional sem acrescentar informações realmente úteis.
Interrompa os períodos sentado. Caminhar pela casa, buscar água, organizar um cômodo ou fazer alguns alongamentos já ajuda a quebrar o comportamento sedentário.
A OMS recomenda que adultos façam entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade intensa. Caminhadas, dança, bicicleta e tarefas domésticas mais ativas também entram nessa conta.
Alguns programas divertem ou informam. Outros deixam o espectador irritado, assustado ou emocionalmente exausto. Reconhecer essa diferença ajuda a escolher melhor o que merece espaço dentro de casa.
Textos sobre Cházov também atribuem ao médico conselhos relacionados ao perdão, à honestidade e à necessidade de encontrar um propósito para viver.
Essas orientações não devem ser apresentadas como tratamentos médicos contra doenças cardíacas. Perdoar alguém, por exemplo, não desobstrui artérias nem substitui medicamentos. Ainda assim, lidar melhor com conflitos pode reduzir ruminações, melhorar o sono e diminuir parte da tensão cotidiana.
Guardar mágoas costuma fazer com que a pessoa reviva repetidamente o mesmo episódio. O corpo pode reagir a essas lembranças com aceleração cardíaca, tensão muscular e irritabilidade. Perdoar, nesse contexto, não exige aceitar abusos ou voltar a conviver com quem causou sofrimento. Pode significar encerrar internamente uma situação e estabelecer limites mais firmes.
Um propósito não precisa envolver reconhecimento público ou conquistas grandiosas. Cuidar de alguém, participar de um projeto, cultivar uma horta, aprender uma habilidade ou manter vínculos sociais já pode oferecer estrutura aos dias.
Atividades com significado ajudam a evitar que a rotina seja preenchida exclusivamente por preocupações e consumo passivo de conteúdo. Elas também estimulam movimento, contato social e interesse pelo futuro.
As histórias sobre Cházov descrevem uma alimentação sem rigidez extrema. Ele teria consumido pão, chá com açúcar e alguns embutidos, mantendo atenção às quantidades e evitando excessos frequentes.
A experiência pessoal de uma pessoa longeva, entretanto, não funciona como prescrição nutricional. Alguém pode chegar à velhice mantendo certos hábitos e ainda assim esses hábitos não serem recomendáveis para toda a população.
Para proteger o coração, continuam valendo orientações respaldadas por evidências: consumir mais alimentos naturais, controlar o excesso de sódio, reduzir gorduras trans, evitar tabagismo, manter atividade física e acompanhar pressão arterial, colesterol e glicemia.
Talvez a resposta mais adequada não seja “a televisão”, mas o uso sem controle que fazemos dela.
O que deve perder espaço é o hábito de passar horas imóvel, acompanhar notícias alarmantes de forma compulsiva, dormir diante da tela e transformar todo momento de descanso em consumo de conteúdo.
A televisão pode continuar na sala. O controle remoto, porém, precisa voltar para as mãos de quem assiste — e não comandar silenciosamente sua rotina.
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