Há um tipo de cansaço que passa depois de uma noite bem dormida. E há aquele que começa a interferir em atividades simples, surge sem uma explicação convincente e continua sendo empurrado para a conta da rotina. Foi justamente essa diferença que Susan Schmidt, hoje com 47 anos, gostaria de ter percebido mais cedo.
A australiana, mãe de dois filhos e fisioterapeuta, descobriu um câncer colorretal em estágio 4 depois de passar meses convivendo com uma fadiga intensa que inicialmente atribuiu à vida corrida e às mudanças hormonais da perimenopausa. O quadro chegou a um ponto incomum: Susan precisava parar o carro no caminho de volta para casa para dormir antes de conseguir continuar dirigindo.
O primeiro sinal apareceu em maio de 2023. Susan levava a filha para o treino de remo, um trajeto de cerca de 15 minutos, e em algumas ocasiões precisava interromper a volta para tirar um cochilo de aproximadamente 40 minutos dentro do carro.
Na época, ela encontrou explicações aparentemente razoáveis para aquela exaustão. Pensou em perimenopausa, alterações hormonais e no acúmulo de compromissos. Meses depois, reconheceria que aquele nível de sonolência estava muito distante do seu padrão habitual.
Em junho daquele ano, durante uma viagem à França, surgiu uma segunda mudança. Susan, que afirma não ter histórico de prisão de ventre, começou a apresentar constipação.
Novamente, havia uma explicação fácil à mão: viagem, alimentação diferente, queijos e refeições mais pesadas. Ela não associou o problema intestinal ao cansaço que já vinha sentindo.
Depois de retornar à Austrália, porém, o quadro mudou de intensidade. Em setembro de 2023, Susan teve uma crise de dor abdominal muito forte, acompanhada em um dos episódios por vômitos e diarreia. Segundo seu relato, a dor era mais intensa do que a do parto.
A primeira avaliação incluiu exames de sangue e amostras de fezes, que não apontaram inicialmente a causa do problema. Dias depois, a dor reapareceu e uma nova consulta levou à indicação de uma colonoscopia.
O exame identificou um tumor. Investigações posteriores mostraram que Susan tinha câncer colorretal em estágio 4, com disseminação para outras regiões do corpo.
Informações divulgadas pelo hospital St Vincent’s Private Hospital Northside apontam que ela foi diagnosticada especificamente com câncer de reto em estágio 4 e apresentava lesões nos pulmões. Outras avaliações também identificaram comprometimento de linfonodos pélvicos e do útero.
Desde o diagnóstico, Susan passou por sucessivas etapas de tratamento. Ela relatou ter realizado dezenas de ciclos de quimioterapia, além de cirurgia intestinal, histerectomia e retirada dos ovários. Também houve uma tentativa de imunoterapia, interrompida após uma complicação autoimune.
Hoje, aos 47 anos, ela usa a própria experiência para chamar atenção principalmente para dois sinais que pareciam banais quando apareceram: fadiga extrema e mudança no funcionamento intestinal.
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Ter fadiga não significa estar com câncer. Sono insuficiente, estresse, anemia, infecções, alterações hormonais e uma série de outras condições podem provocar o sintoma.
O ponto de atenção é uma mudança significativa em relação ao padrão habitual, principalmente quando a exaustão é persistente, dificulta tarefas corriqueiras ou não melhora de forma satisfatória com repouso. A fadiga também pode ocorrer em pessoas com câncer e, dependendo do caso, estar relacionada à própria doença ou a alterações como anemia.
No caso de Susan, o sinal era suficientemente intenso para fazê-la interromper uma viagem curta de carro e dormir antes de conseguir voltar para casa.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta entre os sinais que podem estar associados ao câncer de intestino:
Constipação, portanto, pode fazer parte desse conjunto, mas isoladamente possui inúmeras causas muito mais comuns e benignas. A importância está principalmente em perceber quando ocorre uma alteração nova, persistente ou acompanhada de outros sintomas.
Susan ressalta que não apresentava o sinal que muitas pessoas associam imediatamente ao câncer intestinal: sangue visível nas fezes. O que percebeu foram fadiga, prisão de ventre e dois episódios intensos de dor abdominal.
Depois da própria experiência, Susan passou a colaborar com a Bowel Cancer Australia e a defender que as pessoas conversem com mais naturalidade sobre mudanças nas fezes e nos hábitos intestinais.
Ela própria reconhece que evitava esse tipo de assunto, apesar de trabalhar como fisioterapeuta e possuir conhecimento na área da saúde. Para Susan, o constrangimento em falar sobre evacuação ajuda a explicar por que determinadas mudanças podem demorar a chegar ao consultório médico.
No Brasil, o INCA reforça que pessoas que apresentam sinais sugestivos devem ser avaliadas por profissionais de saúde e, conforme o caso, investigadas com exames clínicos, laboratoriais, endoscópicos ou de imagem. Em 2026, o SUS também passou a adotar uma estratégia organizada de rastreamento para pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos, utilizando teste imunoquímico fecal e encaminhamento para colonoscopia quando indicado.
A experiência de Susan não transforma cansaço ou constipação em sinais automáticos de câncer. O alerta é outro: quando algo muda de maneira clara e persistente no próprio corpo, especialmente quando diferentes sintomas aparecem juntos, atribuir tudo à rotina durante meses pode atrasar uma investigação que merecia ter começado antes.
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