Seu pai o colocou em contato com substâncias aos 6 anos, e aos 8 ele já enfrentava dependência… Hoje é um dos atores mais bem pagos do mundo

The Guardian, Robert tinha seis anos e estava tomando vinho branco quando o pai lhe ofereceu maconha. Downey Sr. contou que imediatamente percebeu ter cometido um erro ao entregar um baseado ao menino.

O episódio estava longe de ser uma experiência isolada.

Anos mais tarde, Robert Downey Jr. explicou que consumir drogas junto com o pai acabou se transformando, para ele, em uma espécie de demonstração de afeto. Era uma relação familiar em que carinho, aprovação e consumo de substâncias se misturavam de maneira bastante confusa para uma criança.

Em seu documentário Sr., lançado em 2022 e dedicado à relação com o pai, Downey afirmou que aos oito anos já era dependente de drogas.

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Enquanto a dependência avançava, a carreira começava

O curioso, e bastante cruel, é que os dois lados de sua vida cresceram praticamente ao mesmo tempo.

Ainda criança, Robert participou de produções do pai. Mais tarde estudou interpretação e, na adolescência, decidiu abandonar a escola para tentar viver profissionalmente como ator.

Nos anos 1980, começou a conquistar espaço em Hollywood. Filmes como Weird Science (1985) e Less Than Zero (1987) ajudaram a transformá-lo em um dos jovens atores mais comentados daquela geração.

O segundo título acabou ganhando uma dimensão particularmente incômoda quando comparado à vida do próprio ator. Em Less Than Zero, Downey interpretava Julian, um jovem rico consumido pela dependência de cocaína.

Fora das câmeras, ele também estava enfrentando problemas cada vez mais graves com drogas.

Até quem estava próximo tentou interferir. Seu relacionamento com Sarah Jessica Parker durou cerca de sete anos, mas o consumo de drogas de Downey contribuiu para o desgaste da relação.

Profissionalmente, entretanto, seu talento continuava difícil de ignorar.

Em 1992, veio um papel decisivo: Charlie Chaplin em Chaplin, dirigido por Richard Attenborough. A interpretação lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar.

Parecia o momento em que sua carreira poderia alcançar outro patamar. Em vez disso, poucos anos depois, sua vida pessoal começou a desmoronar publicamente.

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Cocaína, heroína, uma arma e uma sequência de prisões

Em junho de 1996, Downey foi parado pela polícia após dirigir em alta velocidade na Califórnia. Com ele foram encontrados cocaína, heroína e uma pistola Magnum .357. O episódio deu início a uma sucessão de problemas judiciais que acompanharia o ator durante anos.

Pouco tempo depois aconteceu um dos casos mais estranhos daquele período.

Sob efeito de drogas, Downey entrou na casa de outra pessoa e acabou dormindo em uma das camas. A família encontrou um astro de Hollywood desacordado dentro da residência e chamou a polícia.

Vieram períodos de reabilitação, liberdade condicional e testes obrigatórios para detectar drogas.

Downey continuava recaindo.

Depois de faltar a exames determinados pela Justiça, chegou a passar meses preso. Em 1999, recebeu uma sentença de três anos em uma instituição prisional da Califórnia destinada também ao tratamento de dependência química. Sua passagem pelo sistema penitenciário ocorreu quando ele já era um ator conhecido e indicado ao Oscar.

A situação profissional também ficou crítica. Produtores passaram a considerar sua contratação um risco. Conseguir seguro para colocá-lo em uma produção se tornou difícil, e recaídas podiam interromper gravações inteiras.

Mesmo assim, ele ainda conseguia bons trabalhos.

Em 2000, entrou para o elenco da série Ally McBeal e recebeu elogios por sua atuação. Outra prisão, porém, voltou a colocar sua carreira em risco. Em 2001, após mais um episódio relacionado ao consumo de cocaína, acabou dispensado da produção.

Para Hollywood, contratar Robert Downey Jr. começava a parecer uma aposta cara demais.

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A recuperação que permitiu sua volta ao cinema

A mudança não aconteceu de uma hora para outra. Downey passou por tratamentos, recaídas e diferentes tentativas de abandonar as drogas.

Ele afirma estar livre delas desde julho de 2003. Ao falar sobre sua recuperação, já mencionou terapia, programas de 12 passos, meditação, yoga, artes marciais e o apoio de pessoas próximas entre os recursos que ajudaram nesse processo.

Mesmo sóbrio, ainda existia outro problema: voltar a ser considerado confiável pelos estúdios.

Um dos atores que o ajudaram nessa fase foi Mel Gibson, que assumiu o risco financeiro necessário para que Downey pudesse trabalhar em The Singing Detective, de 2003. Aos poucos, novas oportunidades apareceram.

Kiss Kiss Bang Bang, lançado em 2005, foi um passo importante.

Mas a transformação de sua carreira viria três anos depois.

Então apareceu Tony Stark

Quando Robert Downey Jr. foi escolhido para protagonizar Homem de Ferro, em 2008, ele ainda estava longe da posição comercial que alcançaria posteriormente.

O filme mudou isso.

Sua interpretação de Tony Stark se tornou o centro de uma sequência de produções da Marvel e fez do ator um dos nomes mais valiosos do cinema comercial. Homem de Ferro, Os Vingadores, Homem de Ferro 3, Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato colocaram Downey no comando de franquias que movimentaram bilhões de dólares nas bilheterias.

E seus salários acompanharam essa mudança.

Aqui vale uma precisão em relação ao título: Robert Downey Jr. não ocupa permanentemente a posição de ator mais bem pago do planeta. Ele liderou o ranking anual da Forbes por três anos consecutivos.

Em 2013, a revista estimou seus ganhos em US$ 75 milhões entre junho de 2012 e junho de 2013.

No ano seguinte, apareceu novamente no topo, também com aproximadamente US$ 75 milhões.

Em 2015, chegou ao terceiro primeiro lugar consecutivo, dessa vez com ganhos estimados em US$ 80 milhões em apenas um ano.

Era uma posição difícil de associar ao homem que, poucos anos antes, tinha dificuldade até para ser segurado por uma produção cinematográfica.

Aos 58 anos, veio o primeiro Oscar

Tony Stark garantiu dinheiro, popularidade e estabilidade profissional. Mas Robert Downey Jr. ainda tinha uma pendência curiosa no currículo.

Apesar de décadas recebendo elogios pela atuação, nunca havia vencido um Oscar.

Isso mudou em 2024.

Por sua interpretação de Lewis Strauss em Oppenheimer, de Christopher Nolan, Downey venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. A vitória aconteceu cerca de três décadas depois de sua primeira indicação por Chaplin.

Na cerimônia, ele conseguiu até fazer humor com o próprio passado ao agradecer, entre outras coisas, à infância complicada que teve.

Aos 58 anos, recebia a principal estatueta de sua profissão. Aos seis, fumava maconha oferecida pelo pai. Aos oito, segundo seu próprio relato, já estava dependente. Aos 31, seria preso carregando cocaína e heroína. Mais tarde, passaria por uma prisão estadual.

E, entre 2013 e 2015, aquele mesmo homem ocuparia por três anos consecutivos o topo da lista de atores mais bem pagos do mundo.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.