A Ilha dos Birutas tinha gafes que muita gente nunca percebeu — uma delas aparece logo na abertura

Décadas antes de reprises em alta definição, pausas digitais e fãs analisando cada cena quadro a quadro, pequenos deslizes de produção podiam atravessar uma série inteira praticamente despercebidos. A Ilha dos Birutas (Gilligan’s Island) é um ótimo exemplo disso. Exibida originalmente entre 1964 e 1967, a comédia teve 98 episódios em três temporadas e construiu boa parte de seu humor em situações absurdas envolvendo sete náufragos presos em uma ilha.

Só que, olhando com mais atenção, alguns detalhes acabam revelando o que acontecia atrás das câmeras. Há pessoas a mais no barco, estruturas do estúdio aparecendo onde deveria existir uma ilha isolada, objetos que mudam de posição e até um detalhe histórico ligado ao assassinato do presidente John F. Kennedy.

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Tem gente demais a bordo do S.S. Minnow

A sequência de abertura apresenta os personagens embarcando para o passeio que deveria durar apenas três horas. A conta parece simples: cinco passageiros, Gilligan e o Capitão, totalizando sete pessoas.

Mas uma das tomadas mostra oito pessoas no S.S. Minnow.

Enquanto os sete personagens podem ser identificados em diferentes pontos da embarcação, existe ainda outra pessoa conduzindo o barco. A explicação mais provável é bastante prática: alguém da equipe precisava pilotar a embarcação durante a gravação, enquanto o elenco permanecia visível para a câmera. O resultado criou involuntariamente um oitavo ocupante que jamais aparece entre os náufragos.

É daqueles erros que passam sem esforço quando a abertura dura poucos segundos. Depois que alguém aponta, porém, fica difícil não perceber.

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A ilha deserta tinha prédios logo atrás

Outro deslize aparece em The Friendly Physician, episódio em que os náufragos são levados para a ilha do excêntrico Dr. Boris Balancoff.

Em determinado momento, quando os personagens navegam pela lagoa, a câmera enquadra uma área um pouco acima do que deveria. No fundo da imagem surgem edifícios do próprio complexo de estúdios da CBS.

Boa parte das cenas da lagoa era gravada em um cenário construído no CBS Studio Center. Vegetação e enquadramentos cuidadosamente escolhidos ajudavam a esconder prédios, instalações técnicas e outras estruturas do local. O cenário ficava na região noroeste do complexo e décadas mais tarde acabou dando lugar a instalações de estacionamento.

Na maior parte da série, o truque funciona. Nesse episódio, alguns centímetros extras no enquadramento foram suficientes para revelar que a suposta ilha perdida estava consideravelmente mais perto de Hollywood do que o roteiro sugeria.

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Nem o próprio S.S. Minnow consegue permanecer igual

Os problemas de continuidade atingiram também uma das peças mais reconhecíveis da série: o barco.

Ao comparar diferentes imagens dos créditos de abertura, é possível perceber mudanças na aparência do S.S. Minnow. Em algumas tomadas, por exemplo, a embarcação apresenta estruturas que desaparecem em outras. Há também diferenças na posição do barco encalhado entre os créditos de abertura e encerramento.

Existe uma razão bastante simples para tanta inconsistência: mais de uma embarcação foi usada para representar o Minnow ao longo da produção. Fontes especializadas registram quatro versões diferentes, utilizadas em situações distintas, incluindo gravações no Havaí e cenas produzidas nos estúdios da CBS.

Para quem assistia pela televisão nos anos 1960, dificilmente esse tipo de diferença seria percebido. Com episódios digitalizados e disponíveis para serem pausados, a troca fica muito mais evidente.

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Uma bandeira na abertura guarda uma história bem mais séria

Um dos detalhes mais curiosos da abertura não é exatamente um erro.

As filmagens do piloto original, chamado Marooned, estavam sendo concluídas no Havaí em 22 de novembro de 1963, justamente o dia em que o presidente John F. Kennedy foi assassinado em Dallas.

A equipe recebeu a notícia durante o trabalho e acompanhou as informações pelo rádio. Em imagens aproveitadas posteriormente na abertura da primeira temporada, o S.S. Minnow deixa o porto enquanto uma bandeira dos Estados Unidos aparece ao fundo a meio mastro, em sinal de luto pela morte do presidente.

É um detalhe de poucos segundos que liga uma das comédias mais leves da televisão americana a um dos dias mais traumáticos da história recente do país.

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Mrs. Howell abre os olhos quando deveria estar desacordada

Algumas gafes exigem menos investigação histórica e mais atenção aos atores.

Em uma cena na qual os personagens acabam desmaiados depois de consumir uma bebida feita com frutas fermentadas, Mrs. Howell, interpretada por Natalie Schafer, deveria permanecer completamente desacordada.

Só que Schafer abre os olhos rapidamente durante a tomada.

É um daqueles movimentos mínimos que provavelmente não justificariam repetir uma cena inteira durante a produção. Na televisão da época, com telas menores e resolução muito inferior às atuais, havia ainda menos chance de o público notar.

A mesma sequência provoca outra discussão entre fãs por causa do Professor. Em outro episódio, o personagem havia afirmado ter alergia ao álcool, mas aparece consumindo a bebida fermentada junto com os demais. O problema, nesse caso, está mais próximo de uma inconsistência de roteiro do que de uma falha de filmagem.

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A aliança de Bob Denver entrega o ator por trás de Gilligan

Gilligan passou a série como solteiro, mas Bob Denver não conseguiu esconder completamente sua vida fora das câmeras.

No episódio They’re Off and Running, há momentos em que a aliança de casamento do ator pode ser vista em sua mão.

Não interfere em absolutamente nada na história, mas é um típico erro de figurino e continuidade. Um detalhe pessoal de Denver acabou permanecendo na versão exibida e, décadas mais tarde, tornou-se mais uma pequena caça ao tesouro para quem revê os episódios.

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O Professor e Mary Ann começaram como “o resto”

Nem toda curiosidade escondida envolve uma falha visual.

Na primeira temporada, a canção de abertura identifica Gilligan, o Capitão, o milionário e sua esposa e a estrela de cinema. Quando chega a vez dos dois personagens restantes, Professor e Mary Ann, eles são agrupados simplesmente como “the rest”, ou “o resto”.

A situação mudou posteriormente. Russell Johnson e Dawn Wells passaram a ser citados individualmente na abertura a partir da segunda temporada, refletindo a importância que seus personagens haviam conquistado.

O piloto original, aliás, tinha diferenças ainda maiores. Russell Johnson, Tina Louise e Dawn Wells sequer faziam parte daquela primeira versão. Os personagens e parte do elenco foram reformulados antes de a série efetivamente chegar à televisão.

O nome S.S. Minnow era uma provocação

Até o nome do barco escondia uma piada que boa parte do público jamais percebebeu.

O Minnow não recebeu esse nome simplesmente por causa do pequeno peixe chamado “minnow” em inglês. Sherwood Schwartz, criador da série, escolheu a denominação em referência a Newton Minow, então conhecido por sua passagem pela presidência da Federal Communications Commission, a FCC.

Minow havia feito um famoso discurso em 1961 criticando a qualidade da televisão americana. Schwartz transformou o sobrenome do crítico em nome da embarcação que levaria seus personagens diretamente para o desastre.

Uma provocação bastante discreta, considerando que milhões de espectadores passaram anos acompanhando as consequências do naufrágio do “Minow” sem saber quem estava sendo homenageado.

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Alan Hale enfrentou uma pequena odisseia para conseguir o papel do Capitão

Esse caso não é uma gafe, mas ajuda a entender quanto algumas histórias de bastidores de A Ilha dos Birutas conseguem ser tão improváveis quanto os próprios episódios.

Alan Hale Jr. estava em Utah trabalhando no faroeste Bullet for a Bad Man quando surgiu a oportunidade de testar para o papel do Capitão. Sem conseguir simplesmente abandonar a produção em que estava trabalhando, encontrou uma solução pouco convencional.

Segundo relatos sobre o processo de seleção, Hale saiu de Utah, conseguiu carona até Las Vegas e de lá pegou um avião para Los Angeles. Uma versão relatada no livro Surviving Gilligan’s Island acrescenta que parte do deslocamento começou a cavalo. Ele fez o teste e voltou para continuar as filmagens do faroeste.

O esforço compensou. Alan Hale Jr. acabou interpretando o Capitão durante toda a série e ficou tão associado ao personagem quanto Bob Denver ficou a Gilligan.

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Uma série feita para outra maneira de assistir televisão

Grande parte desses deslizes tem uma explicação tecnológica. A Ilha dos Birutas foi produzida para uma época em que o espectador via cada episódio uma vez por semana, numa televisão de resolução limitada, sem poder congelar a imagem para conferir quem estava escondido no barco ou qual prédio aparecia atrás das árvores.

Hoje, uma cena de dois segundos pode ser pausada, ampliada e comparada com episódios gravados mais de 60 anos atrás. E é justamente aí que começam a aparecer pequenas pistas de como a série era realmente produzida: um ator usando a própria aliança, uma câmera ligeiramente alta demais, embarcações diferentes representando o mesmo barco e um oitavo tripulante que saiu para um passeio de três horas e, aparentemente, desapareceu antes mesmo do naufrágio.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.