A freira que quebrou o protocolo ao chorar diante do caixão do Papa fala e confirma os rumores

A imagem de uma freira chorando a poucos passos do corpo do papa Francisco chamou atenção durante os dias de despedida no Vaticano. Enquanto milhares de fiéis passavam diante do caixão na Basílica de São Pedro, irmã Geneviève Jeanningros conseguiu se aproximar, permaneceu alguns instantes em silêncio e enxugou as lágrimas com um lenço.

A cena ganhou repercussão justamente porque aquele espaço tinha acesso restrito. O gesto, porém, tinha uma explicação que ia muito além de uma simples quebra de protocolo: Geneviève era amiga de Francisco havia anos e mantinha com ele uma relação próxima, algo que a própria religiosa confirmou ao falar sobre a despedida.

Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, morreu em 21 de abril de 2025, aos 88 anos. A declaração oficial do Vaticano informou que a morte ocorreu após um derrame cerebral, seguido de coma e colapso cardiovascular irreversível.

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Uma amizade que começou de forma inesperada

A ligação entre Geneviève e Bergoglio remonta a 2005 e começou, curiosamente, com uma reclamação.

Geneviève é sobrinha de Léonie Duquet, religiosa francesa sequestrada e assassinada durante a ditadura militar argentina. Os restos mortais de Duquet foram identificados décadas depois e sepultados em Buenos Aires em 2005.

Geneviève ficou incomodada porque, segundo seu relato, nenhum representante do arcebispado compareceu à cerimônia. Quando Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, esteve em Roma naquele mesmo ano, ela escreveu uma carta cobrando uma posição e deixou seu número de telefone.

Para surpresa da religiosa, Bergoglio telefonou. A conversa foi franca, e Geneviève voltou a dizer que esperava uma presença maior da Igreja naquele momento. Segundo seu relato posterior, o então cardeal agradeceu a sinceridade. O contato acabou dando início a uma relação que se estreitaria nos anos seguintes.

Quando Bergoglio foi eleito papa, em março de 2013, os dois voltaram a se encontrar. A proximidade continuou durante o pontificado.

Geneviève, integrante das Irmãzinhas de Jesus, desenvolveu durante décadas um trabalho pastoral junto a pessoas em situação de vulnerabilidade, trabalhadores de parques e circos e integrantes da comunidade LGBTQ+. Ela vive há décadas em Ostia, região costeira de Roma, e frequentemente levou pessoas que acompanhava para encontros com Francisco.

Em julho de 2024, o próprio papa foi até Ostia e visitou o local onde Geneviève realizava seu trabalho pastoral, encontro registrado pelo Vaticano.

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“Era um pai, um irmão, um amigo”

Depois que a fotografia diante do caixão ganhou o mundo, Geneviève falou brevemente sobre a relação que mantinha com Francisco.

“Ele era um pai, um irmão, um amigo”, afirmou à mídia do Vaticano. A religiosa contou ainda que não havia ido à Basílica de São Pedro apenas naquele dia. Ela retornou outras vezes para se despedir e prestar homenagem ao pontífice.

A própria Geneviève explicou que carregava consigo os sentimentos de outras pessoas próximas ao papa. Segundo ela, muitos conhecidos haviam pedido que, quando fosse vê-lo, de alguma forma os levasse consigo. Foi por essas pessoas, disse a freira, que também chorou.

Seu acesso ao espaço próximo ao caixão não parece ter sido uma invasão improvisada. Em relato posterior divulgado pela imprensa francesa, Geneviève contou que pessoas responsáveis pela organização a reconheceram, pediram que aguardasse e, em seguida, um dos guardas a conduziu até o local.

A informação ajuda a explicar por que ninguém tentou afastá-la durante os minutos em que permaneceu diante de Francisco.

A freira também voltou à basílica acompanhada de Laura Esquivel, uma mulher trans paraguaia que havia se encontrado diversas vezes com Francisco. Durante o pontificado, Geneviève tornou-se uma espécie de ponte entre o papa e pessoas LGBTQ+ que acompanhava em seu trabalho pastoral. O Vaticano chegou a registrar oficialmente alguns desses encontros nas audiências de Francisco.

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As lágrimas não foram um episódio isolado

Com a repercussão da fotografia, surgiu a impressão de que Geneviève havia aparecido inesperadamente apenas para aquela despedida. A religiosa esclareceu que retornou para ver Francisco nos dias seguintes e que sua presença junto ao pontífice fazia parte de uma relação construída ao longo de anos.

Ela, contudo, evitou prolongar as entrevistas. Ao ser procurada novamente, disse que a perda ainda era difícil demais para ser discutida diante das câmeras.

“Eu gostava muito dele”, resumiu em uma das breves declarações concedidas à imprensa do Vaticano.

Francisco havia feito sua última aparição pública no domingo de Páscoa, 20 de abril, quando participou da bênção Urbi et Orbi e circulou pela Praça de São Pedro para cumprimentar fiéis. Morreu na manhã seguinte, em sua residência na Casa Santa Marta.

Assim, a cena que circulou pelas redes não revelou uma desconhecida que resolveu desafiar deliberadamente as regras do Vaticano. Era a despedida de uma mulher que conhecia Jorge Mario Bergoglio havia cerca de duas décadas e que, longe das câmeras, já tinha compartilhado com ele encontros, conversas e parte de seu trabalho com pessoas normalmente colocadas à margem da sociedade.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.