Médico comandava central clandestina de transplantes em MG e atestou falsamente a morte de menino para fazer algo impensável

O caso que ficou conhecido como “Máfia dos Transplantes” começou com um acidente doméstico em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, e terminou se transformando em uma das investigações criminais mais controversas envolvendo transplantes no país. No centro do processo estava Paulo Veronesi Pavesi, de 10 anos, que teve os órgãos retirados após um diagnóstico de morte encefálica que, anos depois, seria considerado fraudulento pela acusação e pelo Tribunal do Júri.

Paulo sofreu uma queda no dia 19 de abril de 2000, no prédio onde morava. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, ele caiu da grade do playground e foi levado inicialmente ao Hospital Pedro Sanches. Depois, acabou transferido para a Santa Casa de Poços de Caldas.

Foi na Santa Casa que a situação ganhou outro rumo. Os órgãos do menino foram retirados com base em um diagnóstico de morte encefálica que, conforme as investigações conduzidas posteriormente, havia sido forjado. O MPMG sustenta que os médicos envolvidos chegaram a atuar para precipitar a morte da criança, com o objetivo de viabilizar a retirada dos órgãos para transplantes em outros pacientes.

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Um dos principais nomes do processo foi o médico Álvaro Ianhez. Segundo o Ministério Público, ele coordenava uma central clandestina de transplantes que funcionava no Sul de Minas e atestou falsamente a morte encefálica de Paulo. Em abril de 2022, Ianhez foi condenado a 21 anos e oito meses de prisão por homicídio qualificado. A condenação foi posteriormente mantida pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

O caso levou mais de duas décadas para percorrer o sistema judicial. Outros médicos também foram processados em ações relacionadas à morte de Paulo e à retirada ilegal de órgãos.

José Luiz Gomes da Silva e José Luiz Bonfitto foram condenados pelo Tribunal do Júri, em 2021, a 28 anos de prisão cada um. As condenações foram confirmadas em segunda instância e, em setembro de 2024, ambos foram presos após determinação da Justiça mineira. Poucos dias depois, o Superior Tribunal de Justiça negou pedidos das defesas que buscavam suspender as prisões.

Documentos do STJ mostram que o processo continuou produzindo recursos nos anos seguintes. Em setembro de 2025, por exemplo, a Sexta Turma analisou novo agravo apresentado pela defesa de José Luiz Gomes da Silva no âmbito de um habeas corpus relacionado ao caso.

As investigações não se limitaram aos três médicos. Em outra etapa do caso, Celso Roberto Fransson Scafi, Cláudio Rogério Carneiro Fernandes e Sérgio Poli Gaspar também foram condenados pela Justiça. Em decisão de 2014, eles receberam penas de 18, 17 e 14 anos de prisão, respectivamente, por crimes relacionados à retirada dos órgãos de Paulo.

A investigação ganhou força depois que o pai da criança, Paulo Airton Pavesi, passou a questionar as circunstâncias do atendimento. Uma cobrança hospitalar enviada à família levantou suspeitas, já que incluía despesas relacionadas aos procedimentos de retirada de órgãos, que deveriam seguir as regras do sistema público de transplantes. A partir daí, ele começou a reunir documentos e informações sobre o tratamento recebido pelo filho.

Ao longo dos processos, a tese acolhida em diferentes decisões judiciais foi a de que Paulo ainda não preenchia adequadamente os critérios para ser considerado morto quando foi encaminhado para a retirada dos órgãos. Em 2014, ao noticiar uma das condenações, o UOL relatou que a Justiça entendeu que os órgãos haviam sido removidos enquanto o menino ainda estava vivo, após um diagnóstico forjado de morte encefálica.

O MPMG passou a tratar o episódio como um caso de homicídio associado à retirada ilegal de órgãos. Em manifestações mais recentes, a instituição destacou que as condenações foram obtidas após anos de investigações, recursos e julgamentos, e que a central de transplantes coordenada por Ianhez funcionava de maneira clandestina na região.

Em 2024, enquanto José Luiz Gomes da Silva e José Luiz Bonfitto tiveram a prisão determinada, Álvaro Ianhez permanecia em prisão domiciliar por decisão do STJ. Sua pena de 21 anos e oito meses continuava mantida pelo Judiciário mineiro.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.