Quando os destroços do Titanic foram finalmente localizados, em 1985, os pesquisadores encontraram uma cena que parecia congelada no tempo. Havia partes do navio ainda reconhecíveis, objetos pessoais espalhados pelo fundo do oceano e até pares de sapatos que haviam pertencido a passageiros. O que não aparecia eram corpos ou esqueletos.
A ausência chama atenção porque mais de 1.500 pessoas morreram no naufrágio, em abril de 1912. Parte das vítimas teve o corpo recuperado nas semanas seguintes ao desastre, mas a maioria permaneceu desaparecida. Décadas depois, quando expedições passaram a explorar o local onde o navio repousa, praticamente nenhum vestígio humano foi encontrado.
A explicação está nas condições extremas do fundo do Atlântico Norte e, especialmente, na química da água naquela profundidade.
O Titanic está a cerca de 3.800 metros abaixo da superfície, em uma área localizada a sudeste de Newfoundland, no Canadá. Os destroços foram encontrados em 1º de setembro de 1985 por uma expedição franco-americana liderada por Robert Ballard, da Woods Hole Oceanographic Institution, e Jean-Louis Michel, do instituto francês IFREMER.
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Nem todas as vítimas desapareceram no oceano
Logo após o naufrágio, navios foram enviados à região para procurar vítimas. Registros dos Arquivos da Nova Escócia indicam que aproximadamente 337 corpos foram recuperados do Atlântico.
Desse total, 128 foram sepultados no mar e 209 levados para Halifax, no Canadá. Muitos outros nunca foram encontrados.
Isso ajuda a esclarecer uma confusão frequente sobre o caso. Não é correto dizer que nenhum corpo foi recuperado do Titanic. Centenas foram encontrados em 1912. O que intriga pesquisadores é a ausência de restos humanos preservados no próprio local dos destroços, descoberto 73 anos depois.
Por que os esqueletos não permaneceram?
Nas primeiras décadas depois do acidente, os tecidos dos corpos que ficaram expostos à água teriam sido decompostos pela ação de microrganismos e animais marinhos.
Os ossos poderiam parecer capazes de resistir por muito mais tempo. Só que a enorme profundidade do Titanic cria outra condição importante.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, ossos humanos tendem a se dissolver na água do mar nas profundidades onde o Titanic se encontra. A própria agência considera improvável que restos humanos sejam encontrados sobre ou ao redor dos destroços atualmente.
Isso acontece porque, em grandes profundidades, a composição química da água favorece a dissolução do carbonato de cálcio, mineral presente nos ossos.
Em regiões mais rasas, materiais ricos em carbonato de cálcio podem permanecer relativamente estáveis. À medida que a profundidade aumenta, porém, a água apresenta condições químicas diferentes, e esse material passa a se dissolver com maior facilidade.
Assim, depois que tecidos e outras partes orgânicas desapareceram, os ossos expostos também foram lentamente degradados.
Os sapatos encontrados no fundo do mar ajudam a contar a história
Um dos detalhes mais marcantes das imagens feitas no local são pares de sapatos encontrados entre os destroços.
Eles não significam que existam esqueletos escondidos imediatamente abaixo deles. Ainda assim, alguns pesquisadores interpretam determinados pares encontrados lado a lado como um possível sinal de que um corpo esteve naquele ponto no passado.
Materiais como couro tratado, borracha, metais e alguns objetos pessoais podem sobreviver durante muito mais tempo do que tecidos humanos. Por isso, itens pertencentes às vítimas continuam visíveis mesmo quando os restos orgânicos já desapareceram.
Há uma ressalva importante. A NOAA aponta que partes internas e isoladas da proa podem oferecer condições diferentes das encontradas no campo aberto de destroços. Ambientes fechados, com pouca circulação de água e baixos níveis de oxigênio, podem retardar a decomposição de material orgânico. Isso não significa que restos humanos tenham sido confirmados nesses locais, apenas que sua preservação seria teoricamente mais possível.
O próprio Titanic também está desaparecendo lentamente
O processo de degradação não atinge apenas aquilo que ficou das vítimas. O navio também está sendo consumido pelo ambiente.
Grande parte da estrutura é coberta por formações conhecidas como rusticles, semelhantes a estalactites de ferrugem. Elas abrigam comunidades de microrganismos que participam da corrosão do ferro presente no casco.
A deterioração é suficientemente intensa para que partes importantes do navio tenham desaparecido ou desabado desde as primeiras expedições. A NOAA estima que a estrutura do casco poderá sofrer colapsos extensos ao longo das próximas décadas.
Por isso, o local é tratado não só como sítio arqueológico, mas como memorial marítimo. Apesar de não haver corpos visíveis, ele permanece associado às mais de 1.500 pessoas que perderam a vida naquela madrugada de 15 de abril de 1912.
A área também voltou às manchetes em junho de 2023, quando o submersível Titan, da OceanGate, implodiu durante uma descida em direção aos destroços. Cinco pessoas estavam a bordo e morreram. A Guarda Costeira dos Estados Unidos concluiu posteriormente que houve perda da integridade estrutural do casco do submersível, provocando uma implosão catastrófica.
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