
Há comédias que partem de uma ideia simples, quase de esquete, e tentam esticá-la até virar um filme inteiro. Primeiro as Damas, novo título em destaque na Netflix, entra exatamente nessa categoria: pega um homem acostumado a mandar, ser ouvido e ocupar espaço sem pedir licença, e o coloca em uma realidade onde tudo funciona contra ele. O incômodo, aqui, vira piada — mas também serve como espelho.
Na trama, Damien Sachs, interpretado por Sacha Baron Cohen, é um executivo de publicidade rico, arrogante e bastante convencido de que o mundo gira ao redor dele. No trabalho, ele está prestes a assumir um cargo ainda mais alto; fora dele, leva a vida como quem nunca precisou pensar muito nas consequências do próprio comportamento.
A virada acontece quando ele sofre um acidente e acorda em uma realidade paralela comandada por mulheres. Segundo a Netflix, o personagem passa a viver em um mundo onde as mulheres ocupam o centro do poder, enquanto ele precisa lidar com regras sociais que antes nem pareciam existir para ele.

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O choque de Damien não vem só da mudança de cenário. Ele começa a ser ignorado, subestimado e tratado como alguém que precisa provar valor o tempo todo. A empresa, antes um território onde ele se movia com segurança, deixa de funcionar a seu favor.
Nesse novo contexto, quem surge em posição de força é Alex Fox, vivida por Rosamund Pike, uma executiva brilhante que passa a disputar espaço diretamente com ele.
A sinopse divulgada pelo Rotten Tomatoes descreve justamente essa queda de posição: Damien, antes dominante na sala de reunião, passa a enfrentar Alex em uma comédia satírica sobre inversão de papéis.

O elenco é um dos principais atrativos do filme. Além de Sacha Baron Cohen e Rosamund Pike, Primeiro as Damas conta com Richard E. Grant, Emily Mortimer, Charles Dance, Fiona Shaw, Tom Davis, Weruche Opia, Kathryn Hunter, Kadiff Kirwan e Bill Paterson.
A direção é de Thea Sharrock, de Como Eu Era Antes de Você e Wicked Little Letters, com roteiro assinado por Natalie Krinsky, Cinco Paul e Katie Silberman.
A produção também tem uma origem curiosa: ela é uma adaptação em língua inglesa do filme francês I Am Not an Easy Man, lançado pela Netflix em 2018. A versão original acompanhava um homem machista que acordava em um mundo dominado por mulheres e precisava lidar com uma realidade em que os códigos de poder eram invertidos.

O ponto mais interessante de Primeiro as Damas está no tipo de desconforto que ele tenta provocar. A graça não depende só de ver Damien perdido em um ambiente novo, mas de observar como ele reage quando privilégios que pareciam “normais” desaparecem de uma hora para outra. O personagem não vira vítima exemplar nem aprende tudo com facilidade.
Ele tropeça, insiste em velhos hábitos e demora a entender que o problema nunca foi só “quem está no comando”, mas como esse comando é exercido.
Ao mesmo tempo, o filme tem dividido opiniões. Parte da crítica internacional apontou que a premissa rende bons momentos, mas também corre o risco de se apoiar em inversões óbvias demais.
O The Guardian, por exemplo, avaliou que a comédia estica uma única ideia por tempo demais, enquanto outros veículos destacaram que a sátira poderia ir mais fundo nas discussões sobre desigualdade e poder.
Ainda assim, para quem gosta de comédias com conceito direto e conflito fácil de entender, Primeiro as Damas pode chamar atenção justamente por essa troca de posição. Damien passa de homem poderoso a alguém que precisa disputar atenção, respeito e autoridade em um espaço que já não foi desenhado para favorecê-lo.
E é nesse deslocamento que o filme tenta construir seu humor: mostrando um personagem que só percebe certas regras quando elas começam a pesar contra ele.
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