Descobrir uma traição às vésperas do casamento já renderia conflito suficiente para sustentar um drama inteiro. O Lado Bom de Ser Traída, porém, prefere acelerar as coisas: transforma a decepção amorosa em ponto de partida para sexo, perigo, segredos, motocicletas, investigação criminal e um novo homem misterioso entrando em cena. O resultado é um filme brasileiro que assume sem muita cerimônia sua intenção de provocar e entreter, mesmo quando o roteiro parece querer colocar três histórias diferentes dentro do mesmo pacote.
Lançado pela Netflix em outubro de 2023, o longa é dirigido por Diego Freitas e adapta livremente o romance homônimo de Sue Hecker, pseudônimo da escritora brasileira Débora Gimenez. Giovanna Lancellotti interpreta Babi, enquanto Leandro Lima vive Marco, o homem que passa a ocupar um espaço cada vez maior na vida da protagonista depois do fim de seu relacionamento.
Babi é uma contadora prestes a se casar com Caio, interpretado por Micael Borges. O cenário aparentemente organizado desmorona quando ela descobre que o noivo mantinha outra relação. Em vez de construir sua história em torno de uma longa tentativa de reconciliação, o filme manda Caio rapidamente para o território do ex e concentra sua atenção na reação de Babi.
É justamente aí que o título começa a fazer sentido.
A traição continua sendo dolorosa, mas funciona como uma ruptura com uma vida na qual Babi parecia ter acomodado parte de seus desejos. Ela volta a andar de moto, muda hábitos e se permite experimentar uma liberdade sexual que o filme coloca deliberadamente no centro da narrativa. A própria Netflix apresenta a produção como a história de uma mulher que transforma a infidelidade do noivo em oportunidade para um despertar sexual.
Marco entra em cena e muda o tom da história
Durante essa nova fase, Babi conhece Marco, um juiz vivido por Leandro Lima. A atração entre os dois surge rapidamente, e o longa não demonstra qualquer interesse em trabalhar com romance tímido ou aproximações prolongadas.
Marco é construído a partir de características bastante reconhecíveis do romance erótico contemporâneo: reservado, sedutor, fisicamente imponente e cercado por informações que Babi ainda desconhece. A relação entre os dois passa a ser guiada por desejo e curiosidade, com cenas de sexo recebendo bastante espaço dentro dos cerca de 90 minutos de filme.
A comparação com produções como Cinquenta Tons de Cinza dificilmente acontece por acaso. O próprio material promocional internacional da Netflix apresentou Burning Betrayal, título usado fora do Brasil, como um thriller sensual próximo de obras como Fifty Shades of Grey e Sex/Life.
Giovanna Lancellotti se encaixa bem na proposta. Sua Babi precisa alternar vulnerabilidade, raiva, desejo e impulsividade sem transformar a personagem em alguém permanentemente abatido pela descoberta da traição. A mudança de comportamento acontece depressa, às vezes depressa demais, mas Lancellotti consegue dar energia suficiente à personagem para manter o espectador acompanhando suas decisões.
Leandro Lima, por sua vez, aposta muito mais na presença e no mistério. Marco passa boa parte do filme funcionando como uma pergunta ambulante: afinal, quem exatamente é aquele homem e o que ele está escondendo?
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Quando o romance erótico encontra o thriller
Se O Lado Bom de Ser Traída permanecesse exclusivamente dentro do romance erótico, sua história seria relativamente simples. O roteiro, entretanto, acrescenta uma trama criminal envolvendo ameaças, negócios suspeitos e acontecimentos ligados ao trabalho de Babi.
É nessa mistura que aparecem os principais problemas.
O longa tenta desenvolver simultaneamente a transformação pessoal da protagonista, o relacionamento intenso com Marco e uma investigação com características de thriller. Nem todos esses elementos recebem tempo suficiente para amadurecer. O suspense, especialmente, precisa correr para acompanhar a trama romântica.
Essa combinação dividiu parte da crítica especializada. O Omelete avaliou que o filme enfrenta dificuldades justamente ao tentar conciliar o thriller com o romance erótico, enquanto outras análises apontaram que a quantidade de cenas sensuais acaba ocupando um espaço que poderia ter sido utilizado para fortalecer o mistério.
Há ainda outro problema: algumas pistas são apresentadas de maneira bastante evidente. Para quem costuma assistir a thrillers policiais, determinadas revelações podem ser percebidas antes de o roteiro finalmente confirmá-las. A investigação funciona mais como combustível para colocar os personagens em risco do que como um quebra-cabeça cuidadosamente construído.
Isso não significa, entretanto, que o suspense esteja completamente deslocado. Ele ajuda a impedir que o filme se transforme numa sequência de encontros entre Babi e Marco e fornece ritmo ao segundo ato. A questão é que a balança permanece claramente inclinada para o lado sensual.
Um filme que sabe exatamente onde quer chamar atenção
Visualmente, O Lado Bom de Ser Traída busca elegância e sensualidade. Apartamentos sofisticados, roupas cuidadosamente escolhidas, motos, ambientes noturnos e enquadramentos dos protagonistas são usados para criar uma atmosfera de fantasia erótica contemporânea.
Existe pouco interesse em naturalismo. A produção trabalha com personagens particularmente atraentes, situações intensificadas e encontros coreografados para produzir impacto visual. Isso combina com a proposta do filme, embora também afaste a história de uma abordagem mais realista sobre traição e reconstrução emocional.
Camilla de Lucas, como Paty, amiga de Babi, ajuda a quebrar essa intensidade em alguns momentos. A personagem funciona como contraponto mais espontâneo à protagonista e injeta humor em uma narrativa ocupada por desejo, ameaças e desconfianças. O elenco principal ainda conta com nomes como Bruno Montaleone, Louise D’Tuani e Micael Borges.
Talvez a principal limitação esteja justamente no tema que dá nome ao filme. A ideia de encontrar alguma consequência positiva depois de uma traição poderia render observações interessantes sobre identidade, dependência afetiva, autoestima e a quantidade de decisões pessoais que alguém abandona silenciosamente durante um relacionamento.
O roteiro toca nesses assuntos, principalmente quando Babi recupera interesses e comportamentos deixados de lado, mas logo troca essa investigação por sexo e suspense. É uma escolha perfeitamente legítima para um filme voltado ao entretenimento, só que deixa algumas possibilidades dramáticas pelo caminho.
O Lado Bom de Ser Traída funciona melhor para quem entra na história disposto a aceitar essa combinação sem exigir grande realismo: romance erótico em primeiro plano, suspense como tempero e uma protagonista usando o colapso do próprio casamento para descobrir desejos que estavam adormecidos. Quem procurar uma investigação sofisticada provavelmente perceberá as fragilidades cedo. Quem procura um thriller sensual brasileiro, provocador e de ritmo rápido encontrará exatamente o tipo de produção que a Netflix resolveu colocar na tela.
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