— Juiz, estamos indo dormir com fome, se ao menos tivéssemos um miojo!

Quando eu tinha 20 anos, eu morava em uma república com amigos e cursava a faculdade de direito. Levantava ‪às 7h‬, comia um pão com queijo e presunto, tomava leite com achocolatado e ia para a universidade. Por volta das 10h, no intervalo das aulas, era a vez de um café e algum lanche na cantina. Ao meio-dia, almoçava num restaurante próximo, que a maioria dos acadêmicos frequentava. O almoço era arroz, feijão, um bife, fritas e salada, o famoso PF, tudo fresco e feito na hora. Depois retornava para a faculdade e ficava estudando na biblioteca durante a tarde, com um pacote de bolachas na mala. Lá pelas 18h eu comia um bolinho de carne com pão na lanchonete do ‘campus’ e após ia para aula de inglês ou alemão. Chegava em casa por volta das 21h, procurava algo na geladeira para comer, era comum nada encontrar que me apetecesse ou achar algo que dava muito trabalho para fazer. Assim eu recorria ao miojo, de todos os sabores e gostos. Dormia de estômago cheio.

Os detentos que encontrei hoje no presídio têm por volta de 20 anos. Eles moram em celas superlotadas com amigos/irmãos feitos dentro da prisão e não cursam escola alguma, pois elas não existem. Levantam por volta das 6h30min, comem um pão com algum recheio e tomam meia xícara de café, às vezes com leite, mas nunca com achocolatado. Depois não vão a lugar nenhum, ficam amontoados na cela. Por volta das 10h eles não fazem lanche, mas vão para o banho de sol, num pátio de cimento sem nada e muito menos equipamento de atividade física. Ao meio-dia, eles almoçam espremidos no cubículo que habitam. O almoço é uma marmita com arroz ou massa e um pedaço de carne, nem sempre fresco e nunca feito na hora. Depois, eles permanecem confinados, sem atividade alguma além de livros para ler do projeto de remição pela leitura. Lá pelas 17h30min comem mais uma marmita de alimentos, na mesma qualidade e quantia do almoço e ganham uma fruta. Por volta das 21h procuram algo para comer, não têm geladeira, nada acham, seja algo que apeteça ou não, difícil ou fácil de fazer. Eles não podem recorrer ao miojo, do sabor que for, nada há, nada! Dormem de estômago vazio.

Com a pandemia, as visitas das famílias foram suspensas e entregas de bolsas (jumbos) de alimentos também, tudo como medida preventiva sanitária determinada pelo estado.

Eu estive lá hoje, na prisão. Aqueles jovens, famintos, pediram miojo! Quando voltei para casa, continuei trabalhando, mas agora à noite fui caminhar, depois das 21h, sozinho e de máscara. Caminhei pelas ruas vazias do bairro, em ritmo forte, até ficar ofegante. Tentei me distrair de algo que queria ser esquecido, mas que permaneceu cruzando, diante de mim, por todos os lugares que passei.

A fome é a falta e a falta é a morte da esperança. Hoje ela morreu para mim, mas isso não me impedirá. Amanhã trabalharei para que ações compensatórias à proibição da entrega de comida pelas famílias aos presos sejam feitas, urgentemente.

Posso aceitar a morte da esperança, mas não aceito a fome.

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João Marcos Buch
Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville/SC