Texto publicado originalmente em Tibet House

As Quatro Nobres Verdades nos dizem que, para sermos felizes, primeiro é preciso descobrir as causas da nossa infelicidade. Essa é a abordagem do renomado monge budista francês Matthieu Ricard, que diz que a felicidade genuína só é possível depois de termos compreendido o equívoco fundamental que está na raiz do nosso sofrimento.

Certa vez, uma amiga americana, uma bem-sucedida editora de fotografia, contou-me sobre uma conversa que teve com um grupo de amigos que, depois de terminarem as provas finais da faculdade, estavam pensando no que fariam das suas vidas. Quando ela disse: “eu quero ser feliz”, houve um silêncio constrangedor e, em seguida, seus amigos lhe perguntaram: “Como alguém tão inteligente quanto você não quer mais nada além de ser feliz?”. Minha amiga respondeu: “eu não disse como quero ser feliz. Há tantas formas de se encontrar felicidade: iniciando uma família, tendo filhos, construindo uma carreira, indo atrás de uma aventura, ajudando os outros, encontrando paz interior. O que quer que seja que eu acabe fazendo, eu gostaria de ter uma vida que seja realmente feliz”.

A palavra felicidade, escreveu Henri Bergson, “é comumente usada para designar algo intrincado e ambíguo. Trata-se de uma dessas ideias que a humanidade deixou intencionalmente vaga, para que cada indivíduo possa interpretar do seu próprio jeito”. De um ponto de vista prático, deixar a definição de felicidade vaga não teria tanta importância se estivéssemos falando sobre uma sensação inconsequente qualquer. Mas a verdade é totalmente diferente, já que estamos falando sobre um jeito de ser que acaba definindo a qualidade de todos os momentos das nossas vidas. Portanto, o que exatamente é a felicidade?

Sociólogos definem felicidade como “a medida em que uma pessoa avalia positivamente a qualidade geral que, no presente, tem a sua vida como um todo. Em outras palavras, o quanto que a pessoa gosta da vida que leva”. Entretanto, essa definição não diferencia entre uma profunda satisfação e um mero apreço pelas condições externas da nossa vida. Para alguns, felicidade é apenas “uma impressão momentânea e fugaz cuja intensidade e duração variam de acordo com a disponibilidade dos recursos que a possibilitaram. Por natureza, uma felicidade assim é evasiva e depende de circunstâncias que muito frequentemente estão além do nosso controle. Por outro lado, para o filósofo Robert Misrahi, felicidade é “a alegria que irradia ao longo de toda a existência de um indivíduo, ou durante a parte mais vibrante do passado ativo, do próprio presente e do possível futuro de uma pessoa”. Uma situação que talvez seja mais duradoura. De acordo com André Comte-Sponville, “com ‘felicidade’, queremos nos referir a qualquer espaço de tempo em que a alegria possa nos parecer imediatamente possível”.

Será que a felicidade é uma habilidade que uma vez adquirida, perdura pelos altos e baixos da vida? Há milhares de modos de se pensar sobre a felicidade, e incontáveis filósofos já apresentaram o seu próprio modo. Para Santo Agostinho, felicidade é “um regozijar na verdade”. Para Immanuel Kant, a felicidade tem que ser racional e desprovida de qualquer mácula individual, ao passo que, para Marx, trata-se de crescimento por meio do trabalho. “O que constitui felicidade é uma questão controversa”, escreveu Aristóteles, “e a versão popular não é a mesma dada pelos filósofos”.

Será que a palavra felicidade em si já tem sido tão excessivamente usada que as pessoas desistiram dela, desmotivadas pelas ilusões e lugares-comuns que ela suscita? Para algumas pessoas, falar sobre a busca da felicidade parece ser algo quase de mal gosto. Protegidas por suas armaduras de complacência intelectual, elas zombam da felicidade como se ela fosse um romance sentimental.

Como se deu essa desvalorização? Será que é um reflexo da felicidade proposta pela mídia? Será que é o resultado dos esforços malsucedidos que empregamos para buscar a felicidade genuína? Será que temos que nos conformar com a infelicidade, em vez de fazermos a tentativa, inteligente e genuína, de desvencilhar a felicidade do sofrimento?

E o que dizer daquela simples felicidade que temos ao ver o sorriso de uma criança ou ao tomar uma boa xícara de chá depois de um passeio pela floresta? Por mais ricos e reconfortantes que sejam esses lampejos genuínos de felicidade, eles são muito circunstanciais para iluminar as nossas vidas como um todo. A felicidade não pode estar limitada a algumas poucas sensações agradáveis, a algum prazer intenso, a uma erupção de alegria, a uma sensação fugaz de serenidade, a um dia animado ou a um momento mágico que sorrateiramente nos aparece nesse labirinto da nossa existência. Em si, essas diversas facetas não são suficientes para formar uma imagem precisa da duradoura satisfação que caracteriza a verdadeira felicidade.

Com felicidade, quero dizer um senso profundo de florescimento que surge de uma mente excepcionalmente saudável. Não se trata de uma mera sensação agradável, de uma emoção fugaz, ou de um estado de espírito, mas de um estado ideal de bem-estar. A felicidade é também uma forma de interpretar o mundo, já que, embora possa ser difícil mudar o mundo, é sempre possível mudar a forma de se olhar para ele.

Mudar a forma de olharmos para o mundo não pressupõe um otimismo ingênuo ou uma euforia artificial destinada a contrabalançar a adversidade. Enquanto formos escravos da insatisfação e da frustação que surgem da confusão que domina nossas mentes, será tão fútil dizer para nós mesmos: “Eu sou feliz! Eu sou feliz!”, várias e várias vezes, quanto seria pintar uma parede em ruínas. Buscar a felicidade não é olhar para a vida através de lentes cor de rosa, nem fecharmos os olhos para as dores e as imperfeições do mundo. Tampouco a felicidade é um estado de êxtase que deve ser perpetuado custe o que custar. Trata-se do expurgo das toxinas mentais, tais como o ódio e a obsessão, que literalmente envenenam a nossa mente. Trata-se também de aprendermos a colocar as coisas em perspectiva e reduzir o fosso entre as aparências e a realidade. Para isso, precisamos adquirir mais conhecimento sobre como a mente funciona e termos maior clareza sobre a natureza das coisas, uma vez que, em seu sentido mais profundo, o sofrimento está intimamente ligado à nossa incompreensão sobre a natureza da realidade.

Realidade e Insight

O que se entende por realidade? No budismo, essa palavra tem a conotação da verdadeira natureza das coisas, quando elas ainda estão inalteradas pelas construções mentais que lhes sobrepomos. Os nossos conceitos acabam abrindo um fosso entre a nossa percepção e a realidade em si, criando um conflito sem fim com o mundo. “Nós lemos o mundo de uma forma equivocada e depois dizemos que ele nos ludibria”, escreveu Rabindranath Tagore. Nós consideramos permanente o que é efêmero, e consideramos felicidade o que não é nada mais do que uma fonte de sofrimento: o desejo por riqueza, por poder, por fama, por prazeres impertinentes.

Por conhecimento, entende-se não o domínio das massas de informações ou aprendizado, mas o entendimento da verdadeira natureza das coisas. Devido ao hábito, nós percebemos o mundo exterior como uma série de entidades distintas e autônomas às quais atribuímos características que acreditamos que lhes pertencem intrinsecamente. Nossas experiências do dia a dia nos dizem se as coisas são “boas” ou “ruins”. O “eu” que as percebe nos parece ser igualmente concreto e real. Esse erro, que o budismo chama de ignorância, dá origem a poderosos reflexos de apego e aversão que geralmente nos levam ao sofrimento. Como disse Etty Hillesum de forma tão concisa: “o maior obstáculo é sempre a representação; nunca a realidade”. O mundo da ignorância e sofrimento – denominado sâmara em sânscrito – não é uma condição fundamental da existência, mas um universo mental baseado em nossa concepção equivocada da realidade.

O mundo das aparências é criado pela reunião de um número infinito de causas e condições em constante mudança. Assim como um arco-íris – que se forma quando o sol brilha através de uma cortina de chuva para depois sumir quando algum fator que contribuía para sua formação desaparece – os fenômenos existem de um modo essencialmente interdependente e não tem nenhuma existência autônoma ou duradoura. Tudo é relação; nada existe em si ou por si mesmo, imune às forças de causa e efeito. Uma vez que esse conceito é compreendido e internalizado, a percepção equivocada do mundo dá lugar ao entendimento correto da natureza das coisas e dos seres: isso é insight. Insight não é uma mera construção filosófica; ele emerge de uma abordagem básica que nos permite gradualmente ir abandonando a nossa cegueira mental e as emoções inquietantes que ela produz; e, logo, da principal causa do nosso sofrimento.

Todo ser tem o potencial para a perfeição, assim como toda semente de gergelim é permeada de óleo. A ignorância, nesse contexto, significa não estar consciente desse potencial, assim como um pedinte que não sabe do tesouro que está enterrado debaixo do seu barraco. Reconhecer a nossa verdadeira natureza, tomando posse daquela riqueza escondida, permite-nos viver uma vida cheia de significado. Trata-se do caminho mais seguro para encontrarmos serenidade e para deixar florescer o verdadeiro altruísmo.

Existe uma forma de ser que infunde e é subjacente a todos os estados emocionais, abrangendo todas as alegrias e tristezas que chegam até nós. É uma felicidade tão profunda que, como escreveu Georges Bernanos: “Nada pode alterá-la, assim como a enorme reserva de água tranquila que fica embaixo de uma tempestade”. A palavra em sânscrito para esse estado de bem-estar é sukha.

Sukha é um estado duradouro de bem-estar que se manifesta quando nós nos livramos da cegueira mental e das emoções aflitivas. É também a sabedoria que nos permite ver o mundo assim como ele é, sem véus ou distorções. Enfim, é a alegria de ir em direção à liberdade interior e à gentileza amorosa que irradia para os outros.

Primeiro, concebemos o “eu” e nos apegamos a ele.
Depois, concebemos o “meu” e nos apegamos ao mundo material.
Assim como a água presa na roda do moinho, giramos em círculos, impotentes.
Louvo a compaixão que acolhe todos os seres.
—Chandrakirti

A confusão mental é um véu que nos impede de ver a realidade de forma clara, deixando nebuloso o nosso entendimento sobre a natureza das coisas. Em termos práticos, é também a inabilidade de identificar o comportamento que nos permitiria encontrar a felicidade e evitar o sofrimento. Quando olhamos para o exterior, solidificamos o mundo projetando nele atributos que de forma alguma lhes são inerentes. Olhando para dentro, congelamos o fluxo de consciência ao concebermos um “eu” idealizado entre um passado que não mais existe e um futuro que ainda está por vir. Damos como certo que nós vemos as coisas assim como elas são e raramente questionamos essa opinião. Nós espontaneamente atribuímos qualidades intrínsecas a coisas e pessoas – pensamos “isso é belo, aquilo é feio”-, sem nos dar conta de que a nossa mente superpõe esses atributos nas coisas que percebemos. Dividimos o mundo todo entre “desejável” e “indesejável”. Atribuímos permanência ao efêmero, e vemos entidades independentes no que na verdade é uma rede de relações que mudam incessantemente. Tendemos a isolar determinados aspectos de eventos, situações e pessoas, e colocamos todo o nosso foco nessas particularidades. É assim que acabamos rotulando os outros como “inimigos”, “bons”, “maus” e etc., e nos apegamos fortemente a essas atribuições. No entanto, se considerarmos a realidade com cuidado, a complexidade dela se torna óbvia.

Se uma coisa fosse verdadeiramente bela e agradável e se essas qualidades genuinamente lhe pertencessem, nós a consideraríamos desejável em qualquer momento e em qualquer lugar. Mas existe alguma coisa nesta terra que reconhecemos como belo de forma unânime e universal? Como diz o verso canônico budista: “para o apaixonado, uma bela mulher é um objeto de desejo; para um eremita, uma distração; para o lobo, uma boa refeição”. Do mesmo modo, se um objeto fosse inerentemente repulsivo, todo mundo teria uma boa razão para evitá-lo. Mas tudo muda quando reconhecemos que estamos simplesmente atribuindo essas qualidades às coisas e às pessoas. Não há uma qualidade intrínseca em um belo objeto que o torna benéfico para a mente, assim como não há nada em um objeto feio que lhe prejudicará.

Da mesma forma, uma pessoa que hoje consideramos uma inimiga certamente será o objeto de afeto de um outro alguém, e pode ser que, um dia, firmaremos laços de amizade com esse mesmo inimigo. Nós reagimos como se as características fossem inseparáveis dos objetos para os quais as atribuímos. Assim, nós nos distanciamos da realidade e somos arrastados para dentro do mecanismo da atração e repulsão que se mantém incansavelmente em movimento pela nossas projeções mentais. Os nossos conceitos congelam as coisas em entidades artificiais e, assim, perdemos a nossa liberdade interior, da mesma forma que a água perde sua fluidez quando vira gelo.

A Cristalização do Ego

Entre os muitos aspectos da nossa confusão, a mais radicalmente disruptiva é a insistência do conceito que temos de uma identidade pessoal: o ego. O budismo diferencia entre um “eu” inato e instintivo – quando pensamos, por exemplo, “eu estou acordado” ou “eu estou com frio” – e um “eu” conceitual moldado pela força do hábito. Nós lhe atribuímos várias qualidades e presumimos que se trata da essência do nosso ser, que é autônomo e duradouro.

A todo momento, entre o nascimento e a morte, o corpo passa por transformações incessantes e a mente se torna um teatro de inúmeras experiências emocionais e conceituais. Contudo, mesmo assim nós obstinadamente atribuímos ao “eu” qualidades de continuidade, singularidade e autonomia. Além disso, conforme vamos sentindo que esse “eu” é altamente vulnerável e que temos que mantê-lo protegido e satisfeito, a aversão e a atração vão entrando em cena – aversão por tudo aquilo que ameaça o “eu”; atração a tudo que lhe agrada, conforta, aumenta sua confiança ou o deixa à vontade. Essas sensações básicas (atração e repulsa) são a fachada de todo um mar de emoções conflitantes.

O ego, escreveu o filósofo budista Han de Wit, “é também uma reação afetiva ao nosso campo de experiência; é uma fuga mental com base no medo”. Devido ao medo do mundo e dos outros, do temor ao sofrimento, da ansiedade de viver e de morrer, supomos que se nos escondermos dentro de uma bolha – o ego – estaremos protegidos. Nós criamos a ilusão de estarmos separados do mundo, na esperança de assim evitar o sofrimento. Mas, na verdade, o que acontece é exatamente o oposto, na medida em que o apego ao ego e à autoimportância são os melhores imãs para atrair sofrimento.

O destemor genuíno surge com a confiança de que conseguiremos reunir os recursos internos necessários para lidar com qualquer situação que apareça em nossa frente. Isso é muito diferente de fugir para uma absorção em si mesmo, que é uma reação medrosa que perpetua sentimentos profundos de insegurança.

De fato, cada um de nós é uma pessoa única, e está tudo bem reconhecer e valorizar quem nós somos. Entretanto, ao reforçar uma identidade apartada do “eu”, ficamos fora de sincronia com a realidade. A verdade é que temos uma relação fundamental de interdependência com outras pessoas e com o nosso ambiente. A nossa experiência é simplesmente o conteúdo do fluxo mental – o contínuo da consciência –, e não há justificativa alguma para ver o “eu” como uma entidade completamente distinta dentro desse fluxo. Imagine uma onda que se alastra afetando seu ambiente e sendo afetada por ele, mas que não é o meio de transmissão de nenhuma entidade em particular. No entanto, estamos tão acostumados a colocar o rótulo do “eu” nesse fluxo mental que passamos a nos identificar com ele e a temer pelo seu desaparecimento. O que se segue é um poderoso apego ao “eu” e, com isso, surge a noção do “meu” – meu corpo, meu nome, minhas posses, meus amigos, e assim por diante – que nos leva ou ao desejo de possuir, ou ao sentimento de repulsa em relação ao “outro”. É assim que o conceito do “eu” e do outro cristalizam-se em nossa mente. A ideia equivocada de dualidade torna-se inevitável, formando a base para todas as aflições mentais, sejam elas desejos alienantes, ódio, inveja, orgulho ou egoísmo. A partir daí, passamos a ver o mundo através do espelho distorcido das nossas ilusões. Dessa modo, passamos a ficar em desarmonia com a verdadeira natureza das coisas, o que invariavelmente leva a frustações e sofrimento.

É possível ver essa cristalização do “eu” e do “meu” em muitas situações do dia a dia. Por exemplo: você está tirando um cochilo tranquilamente em um barco no meio de um lago. Um outra embarcação se choca na sua e você acorda com o sobressalto. Pensando que algum piloto desastrado ou travesso bateu em você, você se levanta furioso, pronto para xingá-lo, mas no fim descobre que o barco em questão estava vazio. Você ri do seu próprio engano e retorna tranquilamente para o seu cochilo. A única diferença entre as duas reações é que no primeiro caso, você achou que era o alvo da malícia de outra pessoa, ao passo que no segundo, você se deu conta de que o seu “eu” não era o alvo.

Eis um outro exemplo que ilustra o nosso apego a ideia do “meu”. Você está olhando para um lindo vaso de porcelana em uma vitrine quando um vendedor desajeitado o derruba no chão. “Que pecado! Era um belo vaso”, você suspira, e continua calmamente em seu trajeto. Por outro lado, se você tivesse acabado de comprar aquele vaso e o colocado orgulhosamente sobre a bancada, para logo depois vê-lo cair e se estilhaçar em pedaços, você gritaria em desespero: “meu vaso quebrou!” e ficaria profundamente afetado pelo incidente. A única diferença é o rótulo de “meu” que você tinha colocado no vaso.

É claro que essa noção equivocada de um “eu” real e independente tem base no egocentrismo, que nos convence de que o nosso próprio destino tem bem mais valor do que o dos outros. Se o seu chefe repreende um colega seu que você odeia, critica um outro pelo qual você não nutre nenhum sentimento específico ou te dá uma senhora reprimenda, você ficará feliz ou satisfeito no primeiro caso, indiferente no segundo, e profundamente chateado no terceiro. Mas, na realidade, o que será que poderia haver de tão diferente para tornar o bem-estar de qualquer uma dessas três pessoas mais valioso que dos demais? O egocentrismo que coloca o “eu” no centro do mundo tem um ponto de vista totalmente relativo. O nosso equívoco é nos fixar nesse nosso ponto de vista e esperar – ou pior ainda, insistir – que o “nosso” mundo prevaleça sobre o dos demais.

O ego enganador

Em nossas vidas diárias, vivenciamos o ego por meio de sua vulnerabilidade. Um simples sorriso lhe dá um prazer instantâneo; já uma carranca tem o efeito oposto. O “eu” está sempre “aqui”, pronto para ser machucado ou satisfeito. Em vez de vê-lo como algo indefinido ou múltiplo, nós o tornamos um bastião unitário, central e permanente. Mas vamos considerar o que imaginamos que contribui para a nossa identidade. O nosso corpo? Um conjunto de carne e ossos. A nossa consciência? Um contínua corrente de instantes. A nossa história? A memória do que já passou. O nosso nome? Agregamos todo tipo de conceitos a ele – a nossa herança, a nossa reputação, o nosso status social – mas, em última instância, ele não é nada mais do que um agrupamento de letras. Quando vemos a palavra João, o nosso espírito dá um salto; pensamos: “esse sou eu!”. Mas só temos que separar as letras, J-O-Ã-O, para que percamos todo o interesse. A ideia do “nosso” nome é apenas uma fabricação mental.

É esse profundo senso do “eu” situado no coração do nosso ser que temos que examinar honestamente. Quando exploramos o corpo, a fala e a mente, chegamos a conclusão de que o “eu” não é nada mais do que uma palavra, um rótulo, uma convenção, uma designação. O problema é que esse rótulo se acha o que há de melhor. Para desmascarar a enganação do ego, temos que seguir com a nossa investigação até o fim. Quando suspeitamos que há um ladrão em nossa casa, inspecionamos todos os quartos, todos os cantos, todos os potenciais esconderijos, só para termos certeza de que realmente não há ninguém ali. Somente assim podemos ficar tranquilos. Precisamos de uma investigação introspectiva para descobrirmos o que está se escondendo por trás da ilusão do “eu” que achamos que define o nosso ser.

Uma análise rigorosa nos levará a concluir que o “eu” não está em parte alguma do corpo, nem em alguma entidade difusa que permeie o corpo todo. Nós acreditamos voluntariamente que o “eu” está associado à nossa consciência, mas a consciência é uma corrente elusiva: em termos de experiência vivida, o momento da consciência que passou está morto (apenas seu impacto persiste), o futuro ainda não chegou, e o presente é passageiro. Como poderia existir um “eu” distinguível, suspenso no céu como uma flor, entre uma coisa que não existe mais e outra que ainda nem existe? Não é possível detectá-lo nem no corpo nem na mente; não é nem uma entidade distinta combinada com outra, e nem é algo externo a isso. Nenhuma análise séria ou experiência introspectiva direta pode nos dar uma convicção forte de que possuímos um “eu”. É possível que alguém acredite que é alto, jovem e inteligente; mas nem altura, juventude ou inteligência são o “eu”. O que se conclui então é que o “eu” é apenas um nome que damos a um contínuo, assim como nomeamos o rio Ganges ou o Mississippi. Tal contínuo certamente existe, mas apenas enquanto uma convenção que tem base na interdependência entre a consciência, o corpo e o ambiente. É algo totalmente sem uma existência autônoma.

A Desconstrução do “Eu”

Para termos uma melhor compreensão sobre isso, vamos retomar a nossa análise em mais detalhes. O conceito de uma identidade pessoal tem três aspectos: o “eu”, a “pessoa” e a noção de “si mesmo”. Esses três aspectos não são fundamentalmente diferentes um do outro, mas eles refletem formas diferentes de nos apegarmos a nossa percepção de identidade pessoal.

O “eu” vive no presente; é o “eu” que pensa “eu estou com fome” ou “eu existo”. Trata-se do espaço onde está a consciência, os pensamentos, os julgamentos e a vontade. É a experiência do nosso estado atual.

Como de forma clara resumiu o neuropsiquiatria David Galin, a noção do que é uma “pessoa” já é mais ampla. Trata-se de um contínuo dinâmico que se estende pelo tempo e incorpora vários aspectos da nossa existência corporal, mental e social. Os seus limites são mais fluidos. A pessoa pode se referir ao corpo (a condição física), a pensamentos íntimos (“um sentimento muito pessoal”), ao caráter (“uma boa pessoa”), a relações sociais (“separar a vida pessoal da vida profissional”), ou ao ser humano em geral (“respeito pela pessoa de alguém”). A sua continuidade ao longo do tempo nos permite conectar as representações de nós mesmos do passado com as projeções para o futuro. Ela denota como cada um de nós se diferencia um do outro e reflete as nossas qualidades únicas. A noção da pessoa é válida e saudável desde que a consideremos simplesmente como a conotação da relação em geral entre a consciência, o corpo e o ambiente. Ela se torna inapropriada e prejudicial quando passamos a considerá-la como sendo uma entidade autônoma.

Quanto à noção de “si mesmo”, já vimos que se acredita que ela seja a própria essência do nosso ser. Nós a imaginamos como uma coisa invisível e permanente que nos caracteriza do nascimento à morte. O “si mesmo” não é meramente a soma dos “meus” membros, “meus” órgãos, “minha” pele, “meu” nome e “minha” consciência, mas sim o seu exclusivo dono. Nós nos referimos ao “meu” braço e não de “um alongamento de mim mesmo”. Se cortássemos o nosso braço fora, a nossa noção de “nós mesmos” simplesmente perderia um braço, mas a noção em si continuaria intacta. Uma pessoa sem os membros sente sua integridade física diminuída, mas claramente acredita ter preservado seu senso de “si mesmo”. Se o corpo sofrer cortes transversais, em que ponto o senso de “si mesmo” começaria a sumir? Desde que conservemos o poder do pensamento, temos esse senso de “si mesmo”. Isso nos leva à celebrada frase de Descartes, subjacente a todo o conceito ocidental da noção de “si mesmo”: “Penso, logo existo”. Mas o fato de que pensamos não prova absolutamente nada sobre a existência de um “si mesmo”, porque o “eu” nada mais é do que os presentes conteúdos do nosso fluxo mental, que mudam de momento para momento. Não basta que algo seja percebido ou concebido para que essa coisa exista. Nós claramente estamos vendo uma miragem ou uma ilusão, sem que nenhuma delas tenha qualquer realidade.

A ideia de que a noção de “si mesmo” seja nada mais do que um conceito vai de encontro à intuição da maioria dos pensadores ocidentais. Mais uma vez, Descartes é categórico sobre esse assunto. “Quando considero a minha mente – isto é, eu mesmo, dado que sou meramente algo que pensa – não consigo identificar nenhuma parte em específico, mas me entendo como uma coisa singular e completa”. O neurologista Charles Scott Sherrington acrescenta: “O “si mesmo” é uma unidade… considera-se a si mesmo como um só; os outros o tratam como um só; dirigem-se a ele como um só; pelo nome ao qual responde”. Indiscutivelmente, nós vemos o “si mesmo” de forma instintiva como algo unitário, mas logo que tentamos apontá-lo, temos muita dificuldade para chegar em algo.

As frágeis facetas da identidade

A noção da pessoa inclui a imagem que temos de nós mesmos. A ideia que temos da nossa identidade e do nosso status na vida está profundamente enraizada em nossa mente e influencia as nossas relações com os outros de forma contínua. A mais mínima palavra que ameace a imagem que temos de nós mesmos já é insuportável, embora não tenhamos o menor problema quando ela é usada para qualificar uma outra pessoa em circunstâncias diferentes. Se gritássemos insultos ou elogios do topo de um penhasco e essas palavras ecoassem de volta para nós, isso não nos afetaria. Mas se uma outra pessoa gritasse esses mesmos insultos para nós, ficaríamos profundamente chateados. Se temos uma imagem muito forte de nós mesmos, ficaremos constantemente tentando nos assegurar de que ela seja reconhecida e aceita. Não há nada mais doloroso do que vê-la exposta à dúvida.

Mas qual é o valor dessa identidade? A palavra personalidade vem do latim persona, que significa a máscara de um ator – a máscara através (per) da qual a voz do autor ressoa (sonat). Apesar do ator estar consciente de estar usando uma máscara, nós muitas vezes esquecemos de diferenciar entre o papel que desempenhamos na sociedade e a genuína valorização que temos pelo nosso ser.

Geralmente, temos medo de enfrentar o mundo sem algum ponto de referência e ficamos tomados por vertigem sempre que as máscaras e epítetos caem. Se não sou mais músico, escritor, sofisticado, belo ou forte, o que sou eu? No entanto, ignorar todos os rótulos é a melhor garantia de liberdade e a maneira mais flexível, leve e alegre de nos conduzirmos no mundo. De forma alguma, recusar-se a ser enganado pelo ego impede que cultivemos uma firme determinação de atingir os objetivos que estabelecemos para nós mesmos e de, a cada instante, saborear a riqueza das nossas relações com o mundo e com os outros. O efeito, na verdade, é exatamente o oposto.

Através do muro invisível

Até que ponto essa compreensão da natureza ilusória do ego pode mudar meus relacionamentos com minha família e com o mundo ao meu redor? Será que uma reviravolta dessa magnitude não seria desconcertante? O que a experiência tem demonstrado é que isso só lhe trará coisas boas. Na verdade, quando o ego predomina, a mente é como um pássaro que fica constantemente se chocando contra uma parede de vidro – a crença no ego – que encolhe o nosso mundo e o enclausura dentro de limites restritos. Chocada e perplexa com a parede, a mente não consegue atravessá-la. Mas a parede é invisível porque, na verdade, ela não existe. Trata-se de uma invenção da mente. No entanto, ela funciona como uma parede que segmenta o nosso mundo interno e represa o fluxo do nosso altruísmo e da nossa alegria de viver. O nosso apego ao ego está fundamentalmente ligado ao sofrimento que sentimos e infligimos aos outros. Abandonar essa nossa fixação com a nossa própria imagem particular, dissipando toda a importância que tem o ego, significa ganhar uma incrível liberdade interior. Isso nos permitirá lidar com qualquer um e com qualquer situação com certa tranquilidade natural, além de com benevolência, coragem e serenidade. Sem expectativa de ganhar, nem medo de perder, ficamos livres para dar e receber. Não temos mais a necessidade de pensar, falar e agir de uma forma forçada ou egoísta.

Ao nos apegarmos ao apertado mundo do ego, temos a tendência a nos preocupar exclusivamente com nós mesmos. O mais mínimo revés que temos nos chateia e nos desencoraja. Ficamos obcecados com o nosso sucesso, o nosso fracasso, os nossos anseios e as nossas ansiedades; e, assim, damos à felicidade todas as chances para ela nos iludir. O estreito mundo do “eu” é como um copo d’água em que se joga um punhado de sal – a água se torna intragável. Mas se, por outro lado, rompermos as barreiras do “eu”, tornando a mente um vasto lago, esse mesmo punhado de sal não terá efeito algum sobre seu sabor.

Quando o “eu” para de ser a coisa mais importante do mundo, fica mais fácil focarmos nas preocupações dos outros. Só de imaginar o sofrimento deles aumenta a nossa coragem e a nossa determinação de nos empenhar por eles, em vez de ficarmos paralisados com as nossas próprias aflições emocionais.

Se o ego fosse mesmo a nossa essência mais profunda, seria fácil entender o receio que temos em abandoná-lo. Mas se ele é meramente uma ilusão, ao nos livrarmos dele, não estaremos tirando o coração do nosso ser, mas simplesmente abrindo os nossos olhos.

Portanto, vale a pena dedicar alguns momentos da nossa vida para deixar a mente repousar na calma interior e para compreender, por meio da análise e da experiência direta, o lugar que o ego tem em nossas vidas. Enquanto esse senso da importância do ego tiver controle sobre o nosso ser, nunca teremos uma paz duradoura.

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