Enquanto milhões de pessoas nos EUA perdem seus empregos e encaram despejos devido à crise econômica criada pela pandemia, o 1% viu um aumento massivo em sua riqueza, com o fundador da Amazon e a pessoa mais rica do mundo, Jeff Bezos, recentemente adicionando estimados 13 bilhões de dólares ao seu patrimônio em um único dia. O renomado dissidente político Noam Chomsky diz que o lucro corporativo inesperado é evidência ainda maior de que os EUA são comandados “essencialmente pelo setor corporativo” em razão de seus próprios lucros. “Eles estão descontrolados.”

Abaixo, segue trecho da entrevista publicada pelo Democracy Now:

AMY GOODMAN: “Você fala daqueles no poder que estão lucrando enormemente. Temos a Goldman Sachs relatando mais de 2.4 bilhões de dólares em lucros no segundo trimestre. Um novo estudo do “Americans for Tax Fairness” descobriu que os bilionários dos EUA acrescentaram 584 bilhões de dólares às suas riquezas pessoais desde março. Esse é um montante ainda maior do que os déficits orçamentários de 23 dos estados da nação. Eles estão lucrando no meio de uma pandemia, quando são necessários pacotes de estímulos para ajudar os que estão sendo esmagados, que serão despejados, quando estamos falando sobre uma situação econômica, sobre os desempregados em um nível que não vemos desde a Grande Depressão. Você escreve e fala sobre isso. Como as pessoas conseguirão sair dessa? O que precisa acontecer agora no país, Noam?”

NOAM CHOMSKY: “O país está vivendo um tipo de paródia do jeito que normalmente funciona. É um país comandado essencialmente pelo setor corporativo, que possui uma incrível influência sobre o governo, que é simbolizado pelo homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, que fez 13 bilhões em um único dia. Eles estão descontrolados, usando Trump e a administração ou usando a pandemia como disfarce para aumentar sua dedicação em enriquecer os mais ricos e o setor corporativo que está, é claro, comendo tudo. Eles amam isso.

Eu mencionei a indústria militar. Esse é um outro exemplo. Você pode considerá-la como sendo o último recurso na tentativa de impor o domínio máximo dos mais ricos e do poder corporativo que caminha em paralelo com a campanha McConnell-Trump. O objetivo da campanha é encher o judiciário dos pés à cabeça com jovens advogados de ultra direita da Sociedade Federalista que serão capazes de garantir que, independentemente do que o público quer, nada além de suas políticas ultra reacionárias será implementado, ao menos, pela próxima geração.

Eles estão fazendo de tudo para tentar manter o que os permitiu passar pelo período neoliberal, pelos últimos 40 anos, que seriam a enorme concentração de riqueza, a concentração do poder político, a estagnação e redução da população em geral, até o ponto em que há um aumento na mortalidade nos últimos anos entre pessoas economicamente ativas, homens e mulheres trabalhadores brancos, em sua maioria homens, algumas mulheres. Nada como isso acontece em sociedades desenvolvidas que funcionem plenamente.

Os Republicanos sabem muito bem que são um partido da minoria. Trump, na realidade, observou não muito tempo atrás que se houvesse eleições justas, os Republicanos nunca ganhariam cargos políticos. O país, basicamente, por um bom tempo, tem sido um estado de um só partido, o partido dos negócios. Duas facções. Mudaram com o tempo.

Nass últimas décadas desde Gingrich, e extensivamente desde McConnell, os Republicanos saíram fora do espectro político. Se olhar os rankings internacionais, estão lado a lado com os partidos europeus com histórico neofascista. Analistas políticos sérios os descrevem como uma insurgência radical que abandonou a política parlamentar. Há alguns dias atrás falamos com Greg Palast, cujo trabalho mostrou o quanto os Republicanos estão tentando desesperadamente limpar listas eleitorais para evitar que as pessoas erradas votem, para que de alguma maneira eles possam continuar no páreo.

Tudo isso está acontecendo em paralelo com o que você descreveu, o massivo enriquecimento dos super ricos e do setor corporativo por debaixo do disfarce da pandemia. Dia sim dia não, alguma decisão executiva ou decisão de algum dos clones corporativos, os figurões corporativos que Trump colocou no comando de várias agências como a EPA, estão aprovando leis que esmurram o povo no rosto e enriquecem os ricos, como o corte de padrões de poluição, o que, é claro, é ótimo para as empresas de carvão.

Estão se segurando por um fio, mas podemos mantê-las por mais tempo para causarem máxima destruição à sociedade humana organizada. Também a poluição que, em meio a uma pandemia respiratória, aumentar a poluição, é claro, maximiza as mortes.

É algo seletivo. São as pessoas que vivem próximas às fábricas poluentes. Quem são elas? As pessoas que não podem viver em outro lugar. Você não vê executivos da Goldman Sachs morando lá. O que você vê são pobres, negros, hispânicos, porto-riquenhos. Eles são os que vão carregar o fardo. Já estão sofrendo com a pandemia. Isso vai tornar pior.

É de certa maneira similar com o que vemos no Brasil onde Bolsonaro está feliz em ver as populações indígenas da região amazônica encarando um genocídio, primeiro devido a destruição da floresta, agora com a pandemia. Muitos deles vivem há quilômetros de distância de uma estação de saúde. Lenhadores ilegais entram e disseminam a pandemia; eles morrem. Você acha que Bolsonaro se importa? Ele pensa que devem sim ser eliminados. Ele já disse isso. “Não precisamos dessas pessoas, então vamos nos livrar delas.” Então vamos nos livrar das pessoas que vivem perto das fábricas poluentes. Quem precisa delas? Elas votam errado, de todo modo. São da cor errada.

Isso é algo que está acontecendo no mundo sob a égide dos EUA, o que literalmente não possui precedente na história moderna, de novo, com a única exceção dos estados verdadeiramente fascistas da sociedade desenvolvida. Não há palavras para descrever isso.”

A entrevista é composta de 6 partes: Acesse e leia na íntegra

Nota: Noam Chomsky, dissidente político, linguista e autor de renome mundial, professor laureado no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona e professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde lecionou por mais de 50 anos.

Texto trazido do site Carta Maior

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