Há imagens que parecem simples até o cérebro começar a completar aquilo que os olhos entregam. Nesta, duas figuras estão misturadas no céu: uma baleia, mais evidente, e a cabeça de uma ave, escondida entre as formas das nuvens. Dependendo de onde sua atenção se fixa primeiro, você pode perceber uma delas antes da outra.
Esse tipo de teste visual costuma ser apresentado na internet como uma maneira de descobrir se uma pessoa utiliza mais o “lado direito” ou o “lado esquerdo” do cérebro. A brincadeira é interessante, mas existe um detalhe importante: a ciência não sustenta a ideia de que uma pessoa seja essencialmente “do cérebro direito” ou “do cérebro esquerdo”.
Ainda assim, a imagem pode servir como uma curiosa experiência de percepção. Afinal, duas pessoas podem olhar para exatamente o mesmo desenho e identificar elementos diferentes primeiro.
Se você viu a baleia primeiro
A baleia é a figura que aparece com mais facilidade para boa parte das pessoas. Seu contorno ocupa uma área maior da imagem e pode ser percebido rapidamente quando o olhar percorre o centro da cena.
Nos testes compartilhados nas redes sociais, quem identifica a baleia primeiro costuma ser associado ao chamado “lado direito do cérebro”, relacionado popularmente à criatividade, à intuição, à percepção visual e à capacidade de enxergar padrões.
Essa interpretação, porém, precisa ser tratada como uma brincadeira de percepção, e não como uma avaliação psicológica ou neurológica.
Existe, de fato, uma especialização funcional entre os hemisférios cerebrais. Algumas funções apresentam maior participação de um lado do cérebro do que do outro. A linguagem, por exemplo, tende a apresentar predominância no hemisfério esquerdo, enquanto determinadas formas de atenção e processamento espacial apresentam maior participação do direito. Isso não significa que um hemisfério assuma o controle da personalidade de alguém.
Se você percebeu a cabeça da ave primeiro
A cabeça da ave está muito mais escondida na composição. É preciso perceber determinados contornos e reorganizar visualmente as formas da imagem para identificá-la.
Na interpretação popular desses testes, quem encontra a ave primeiro costuma ser classificado como alguém mais ligado ao “lado esquerdo do cérebro”, supostamente associado ao raciocínio lógico, à análise, à atenção aos detalhes e à organização.
Novamente, essa divisão é simplificada demais.
Pesquisas sobre funcionamento cerebral mostram que os hemisférios possuem diferenças reais de especialização, mas trabalham de maneira integrada. A ideia de que algumas pessoas utilizariam predominantemente um hemisfério enquanto outras dependeriam do outro não encontra respaldo científico consistente. Um estudo de neuroimagem com mais de mil pessoas, por exemplo, não encontrou evidências de que indivíduos tenham uma rede cerebral globalmente mais “direita” ou “esquerda”.
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Por que duas pessoas podem enxergar animais diferentes?
Aqui está a parte mais interessante da imagem.
A percepção visual não funciona como uma fotografia automática. O cérebro precisa organizar formas, contrastes, contornos e relações espaciais para transformar estímulos visuais em algo reconhecível.
Quando existem figuras sobrepostas ou incompletas, como acontece nesta imagem, a atenção pode favorecer determinados elementos. Uma pessoa pode captar rapidamente a silhueta da baleia, enquanto outra pode perceber os contornos que formam a ave.
Isso também ajuda a explicar por que o primeiro animal identificado não permite determinar qual hemisfério cerebral é “dominante” em você.
A criatividade, por exemplo, envolve diferentes regiões e redes cerebrais distribuídas pelos dois hemisférios. Estudos de neuroimagem encontraram participação bilateral em processos criativos, variando conforme o tipo de tarefa realizada.
Portanto, se você viu a baleia primeiro, isso pode dizer algo sobre como você captou aquela imagem naquele momento, mas não permite concluir que seu cérebro seja predominantemente direito. Se encontrou a ave antes, vale a mesma regra.
No fim, a graça está justamente no conflito entre aquilo que parece óbvio e aquilo que estava escondido diante dos seus olhos. E, aparentemente, até as nuvens conseguiram transformar uma simples imagem de pôr do sol em mais um teste para a humanidade discutir qual lado do cérebro está no comando.
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