Por Nara Rúbia Ribeiro

Desde a infância, sou apaixonada pela simplicidade que camufla a profundidade filosófica da poesia de Manoel de Barros.

Ainda com 9 anos de idade, deparei-me com um de seus poemas nas últimas páginas de um livro didático. O texto informava que o poeta era vivo e que residia, naquela ocasião, em Cuiabá, capital do Mato Grosso, estado vizinho do meu.

Desde aquele momento, pensei que deveria ou, ao menos queria muito, conhecê-lo. Anos depois, pesquisei com afinco a sua biografia e obra. Dentre os detalhes da sua personalidade, chamou-me a atenção o fato dele ser tímido e “meio bicho do mato”, como ele dizia. Não gostava de holofotes ou de visitas. Em respeito ao seu temperamento, desisti, naquele momento, de conhecê-lo.

Anos depois, soube que ele havia modificado bastante o seu modo de ser, e que já apreciava visitas. Por meio de uma prima em segundo grau do poeta, consegui o seu telefone e liguei para saber se poderia visitá-lo. Quem atendeu foi a sua filha e, com voz embargada, explicou-me que o pai já estava acamado e que já não conseguia conversar, de sorte que visitas o emocionavam muito, e, diante dessa impossibilidade de diálogo, deveriam ser evitadas.

Confesso que fiquei desolada. Seu estado de saúde era grave.

Poucos dias depois, seria o aniversário de Manoel. Foi então que tive a audácia de escrever a Mia Couto e pedir a ele que fizesse uma homenagem a Manoel: – Pode ser uma ou duas linhas, pedi. Afirmando que publicaria nas redes sociais.

Horas depois, o escritor Mia Couto nos manda este belíssimo poema em homenagem ao nosso amado Manoel de Barros:

UM ABRAÇO PARA MANOEL

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.

Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.

E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.

E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.

MIA COUTO
19-12-2013

Manoel falecera quase um ano depois, no dia 13 de novembro de 2014.

O poema foi publicado em seu livro “Tradutor de Chuvas”.

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