Muitas vezes, a vida nos afasta daquilo a que mais amamos. Não dá para entender o motivo, a razão, nem sempre é possível entender a lógica intrincada que nos distancia daquilo que o coração tanto deseja. Mas acontece.

Logo na infância, eu me apaixonei pela ideia de cursar Medicina. Minha família era batista e inúmeros missionários médicos saíam daquela igreja para diversos países da África. Ah, que bonita a ideia de alguém abandonar a comodidade e uma vida estável para dedicar-se a um propósito maior e salvar vidas.

Mas eu não pude cursar Medicina. Por mais que eu me esforçasse, estava além das minhas condições financeiras e eu necessitava, com urgência, estabilizar-me para auxiliar, filha mais velha que sou, a minha família.

Próximo à cidade interiorana onde eu morava, havia uma Faculdade de Direito. Como donzela abandonada pelo amor primeiro, fiz empenho de me apaixonar pelo mundo jurídico. Li boa parte das obras de Rui Barbosa no último ano do ensino médio, li o que encontrei de Teoria do Estado e Direito Constitucional. Apaixonei-me, assim, pela advocacia.

Cursei Direito, mas o meu amor pela advocacia primeiro foi obstado por diversas circunstância que me impediram de advogar. E, logo depois, por minha real inaptidão a esse trabalho. Por algum motivo que não sei explicar, tudo na advocacia me produzia enfado, ansiedade, nada me alegrava. Foi como desses amores que são belos e perfeitos à distância, mas quando se aproximam ferem a nossa face se nos acariciam ou sufocam a nossa alma, se nos beijam.

Alguns amores, sejam profissionais, sejam relacionamentos interpessoais, eles existem em si mesmos e nos movem a alma, mas não se destinam à concretude. Eles integram a nossa alma, são fulcrais, são pilastras de nossas vidas, mas ficarão sempre aqui, dentro do peito, como se não se destinassem ao mundo lá de fora.

Isso acontece porque a vida é uma teia impermeável ao nosso imediato entendimento. Aquilo que planejamos, aquilo que sonhamos, aquilo que move a nossa alma, ou o amor que faz tremer as nossas pernas, que faz com que percamos a fala ou nos leva a planejar castelos e jardins floridos, é a nossa essência dizendo-nos que ela subsiste.

Levo uma frase de Rubem Alves no coração. Ele sempre dizia que ele só chegou onde havia chegado porque tudo o que planejou não deu certo. O plano, o sonho, a paixão ou mesmo o amor puro é o que nos move. Mas uma Mão Invisível, mescla de fatores intrínsecos e estranhos a nós, é que nos conduz ao nosso destino, à realização da nossa missão pessoal. Essa frase de Rubem sempre me consolou, ao longo da vida.

E quando a vida nos afasta daquilo que amamos, é como se uma fissura fosse feita no solo da nossa alma. Há uma dor que nos dilacera, nos avilta e, ao mesmo tempo, nos prepara para o novo. Façamos dessas fissuras um campo fértil para a semeadura do bom e do belo. E dessas feridas nascerão flores e frutos que certamente nos farão compreender que todos os amores valeram a pena, embora muitos tenham ficado pelo caminho.

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Nara Rúbia Ribeiro
Ama poesia, contos, passarinhos e borboletas. É mãe, dona de casa, tem uma filha adolescente e uma cachorrinha que fica lambendo a sua perna enquanto ela escreve. Abandonou um casamento estável com o Direito para flertar com a literatura e criar a Revista Pazes.