Por Nara Rúbia Ribeiro 

Nestes tempos em que o Poder Judiciário encontra-se exposto a severas críticas por motivos não raro justos e honestos, conheci, nas redes sociais, um juiz cujo discurso e a prática destoavam da imensa maioria dos juízes que conheço.  Seu nome: João Marcos Buch , juiz da Vara de Execuções Penais, em Joinville – Santa Catarina.

Ao pesquisar, vi que, de modo apartidário, Buch falava sobre Política. Sem despir-se da altivez que lhe é própria, discorria acerca de suas dores, medos, sonhos e inseguranças. Um homem comprometido com o seu tempo e sabedor da imensa importância da função por ele exercida. Sua fala direta, firme e imponete ilumina-se por seu olhar sereno e doce, de um azul triste, belo e profundo. Assim observando, fui pesquisar ainda mais sobre ele e encontrei os seus livros.

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Comprei os livros Juiz de si, Juiz do mundo – A esperança persiste,  Crônicas, relatos e vivências e Retroceder jamais, onde a crônica é o gênero sempre dominante,  todos publicados pela Giostri Editora.

Sua função como juiz é, conforme ele mesmo relata, “fiscalizar as condições das unidades prisionais e as condições de vida dos detentos“, e é aí, afirma, “que o drama se apresenta em toda a sua plenitude“. É sobre esse “drama” que ele fala em suas crônicas. Valendo-se de uma linguagem  clara e direta, narra diversas histórias que são, muitas delas, de fato inesquecíveis.

João Marcos Buch escreve como quem quer compartilhar com o mundo as dores e as alegrias de ser quem ele é: um homem de olhar atento e de grande sensibilidade para detectar as belezas e as dores daquilo que o cerca. Por diversas vezes ele menciona o caráter terapêutico da escrita e afirma: “Se eu não escrever, a história me consumirá“.

Selecionei aqui algumas de suas falas que exemplificam a importância dos seus relatos e das  reflexões neles inseridas.

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Penso que a reflexão abaixo, por exemplo, deveria ficar estampada no lugar mais visível da nossa sala mental, tamanha a utilidade para estes nossos dias:

“Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta, criou um personagem chamado SR. Keuner. Numa das histórias ele conta que o Sr. Keuner caminhava pelas calçadas de uma cidade de um país inimigo e, ao cruzar com um soldado, recebeu a ordem para que descesse e andassse pela lama, pois não era cidadão daquele país. Sr. Keuner obededeceu e desejou que aquele soldado morresse, assim como toda a população daquele país. Mais tarde, recuperada a razão, Sr Keuner concluiu que, quando se cruza com idiotas, pode-se facilmente se tornar um. Então, o melhor é evitar.”  No livro Juiz de si, Juiz do mundo

Ao discorrer sobre um comentário infeliz e odioso proferido por um político, asseverou:
“Fascista, o vento será sua herança. A história não pode se repetir. O ódio não é uma resposta, mas pode vir a se tornar. Podemos mudar as coisas, juntos”. Do livro Juiz de si, Juiz do mundo

Sobre os presídios brasileiros:
“O ‘gigante pela própria natureza’, ‘impávido colosso’, não conseguiu virar a página da História e continua mantendo navios negreiros embaixo de seu céu ‘risonho e límpido’.” Do livro Juiz de si, Juiz do mundo

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Acerca da ofensiva frieza dos juízes:
Já no século 19, Nietzshe explicava por que a execução de uma pena (no caso capital) ofendia mais que o próprio assassinato. Era a frieza dos juízes, a penosa preparação do ato a executar, a percepção de que um homem era utilizado como meio para amedrontar os outros(…)” Do livro Juiz de si, Juiz do mundo

Ao visitar um presídio superlotado e em condições degradantes, em Recife:
“É muito difícil ter consciência de que neste século ainda tratamos seres humanos como subumanos. Acho que toda pessoa que prega que ‘bandido bom é bandido morto’ precisaria passar um dia num lugar como aquele que eu pisava para ter noção do que é o óbito social.” Do livro Juiz de si, Juiz do mundo

Sua consciência da indignidade do nosso sistema penitenciário:
“O sistema está falido e essa falência ceifa especialmente a dignidade humana.” No livro Retroceder jamais

Aqui Buch nos faz ponderar sobra a importância de não nos envergonhamos dos pobres, mas de sua pobreza, responsabilidade de cada um de nós:
“O filósofo norte-americano já falecido Ronald Dworkin, em sua obra A Virtude Soberana – A teoria e a Prática da Igualdade, diz que nenhum governo é legítimo a menos que demonstre igual consideração pelo destino de todos os cidadãos sobre os quais afirme seu domínio e aos quais reivindique fidelidade. Enquanto continuarmos a privatizar a riqueza e a socializar as carências, enquanto continuarmos a olhar com preconceito para as favelas e reduzir a humanidade das pessoas que nela vivem, como se não tivessem mérito para progredir, num país rico e de potencialidades gigantescas, mas pobre nas políticas de ofertas iguais de oportunidades, as favelas continuarão sendo mostradas para o mundo. Elas não nos envergonham. O que nos envergonha é a nossa desgraçada desigualdade social.” No livro Retroceder jamais

Sobre a realidade das nossas prisões e a esperança de um mundo mais ético:
“Pior, no Brasil e em vários países, ela (as prisões) guardam infeliz semelhança com calabouços de horror. Um dia a ética vai se sobrepor e o mundo vai se livrar desses navios negreiros escravizantes. Tenho essa esperança, ainda que saiba que isso não será na nossa época.” No livro Crônicas, relatos e vivências

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