Por Vinícius Siqueira
Consumir é um ato de distinção. Não consumimos qualquer coisa nem de qualquer jeito[1]. É sabido que, para ter suas condições de reprodução da vida garantidas, um operário brasileiro precisa de seu consumo específico que será diferente do consumo de um operário francês, pois, apesar de ambos serem operários, a reprodução de suas vidas é diferentes quanto às necessidades básicas de existência de um humano já que delas fazem parte as necessidades de cultura, de reprodução da parte simbólica da vida que lhes são essenciais.

Quando entendemos que a nossa vida no sistema de produção e consumo específico que vivemos leva este último a um patamar elevado de distinção social, conseguimos perceber que o consumo também é parte de nossa pele. É o consumo que fabrica parte da individualidade do sujeito na contemporaneidade. Eu poderia até mesmo me arriscar afirmando que o consumo é o mediador principal das relações na atualidade em países desenvolvidos e grandes metrópoles.

Consumo na formação da individualidade

Entender o consumo na formação da individualidade é um trabalho de arqueólogo[2], mas também de engenharia reversa. A individualidade deve ser compreendida como histórica e, sendo assim, fora do globo de construção de si individual, íntimo, atomizado. Ela não precisa ser a prova da responsabilidade do indivíduo perante sua existência enquanto sujeito em sociedade, entretanto, não como parte dispersa em toda ela, mas como parte integrante com poder de se desvincular a qualquer momento. Eis aqui o trabalho arqueológico.

O trabalho de engenharia reversa está na analítica das individualidades hoje e voltar ao consumo para entender como elas se formaram e como funcionam em sociedade, no trabalho genealógico de compreensão do que foi necessário no caminho das identidades atuais para se tornarem o que são e, ainda mais, entender quais tipos de poder são acionados e executados a partir delas.

Com isso, podemos trabalhar com cautela sobre as identidades comuns nos meios urbanos.
Se a individualidade é um processo histórico, se ela se dá através de mecanismos postos na sociedade, as identidades contemporâneas são resultado deste processo, a materialização da possibilidade concreta de um tipo específico de discurso. A partir disso, compreendemos a personalidade focada em performance, típica em ambientes corporativos, como um tipo específico deste meio; da mesma maneira, o comentador de portais de notícias tem nesta atividade parte da expressão de uma identidade específica. O mesmo valeria para ativistas políticos que só se utilizam de redes sociais ou jovens que frequentam o Lollapalooza.

Todos eles podem ser definidos através de seus itens de consumo. O terno, o carro, a roupa, o cinema, o teatro, os quadros na sala, o jacaré na roupa, etc.

E isso não é uma escolha. Quem se define a partir do consumo não escolhe este trajeto, só anda conforme as regras inconscientes da cidade urbana e multicultural.

A pergunta que assombra qualquer tentativa de observar essa realidade é: como transformar este mecanismo de construção de individualidade? É necessário entender que ele está diretamente ligado ao mercado. Como lutar contra o mercado?

Referências

[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
[2] FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 8ª edição, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, p.39.

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