
Tem filme sobre maternidade que vem embalado em clichê, e tem A Melhor Mãe do Mundo.
Desde que chegou aos cinemas e, depois, entrou no catálogo da Netflix, o longa de Anna Muylaert passou a aparecer com frequência em posts de artistas, críticos e influenciadores que saíram da sessão falando em “filme mais triste que já vi” e “obra essencial para entender o Brasil de hoje”.
Não é exagero: a história aperta o peito, mas faz isso com pé firme na realidade de quem vive na margem.
O filme acompanha Gal (Shirley Cruz), catadora de recicláveis em São Paulo, mãe de Rihanna e Benin. Ela denuncia o marido Leandro (Seu Jorge) por agressão, mas é ignorada pela polícia.

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Quando percebe que ninguém vai protegê-la, toma uma decisão radical: coloca as crianças dentro da carroça de reciclagem e foge pelas ruas, tentando arrancá-las de um ambiente de violência doméstica.
Para não destruir a infância dos filhos de vez, disfarça a fuga como se fosse uma grande aventura, inventando histórias e jogos enquanto empurra, dia e noite, um carrinho que pesa centenas de quilos.
Esse contraste entre o que as crianças enxergam e o que o espectador sabe que está em jogo dá boa parte da força do filme.

A câmera acompanha o trio atravessando avenidas, ocupando praças, improvisando abrigo onde dá, e o roteiro insiste em manter o ponto de vista de Gal: uma mulher preta, exausta, apaixonada pelos filhos e constantemente empurrada para fora de qualquer noção básica de segurança.
Não há glamour na pobreza retratada aqui; há cansaço, engenho e um esforço diário para manter um mínimo de dignidade.
Shirley Cruz carrega o longa nas costas com uma atuação cheia de nuances. Em uma cena, ela está rindo com as crianças para sustentá-las emocionalmente; na seguinte, o rosto afunda em silêncio assim que eles viram de costas.

A atriz já vinha sendo bastante elogiada em festivais como Berlim, Guadalajara e Cine PE, onde o filme foi premiado em categorias como melhor roteiro, fotografia e atuação, e o lançamento comercial só reforçou essa percepção de “papel da vida”.
O elenco ao redor também faz diferença. Seu Jorge, como Leandro, foge da caricatura do “monstro unidimensional”: é violento e perigoso, mas também se revela encantador em certos momentos, o que torna mais crível a permanência de Gal ao lado dele por tanto tempo.
Katiuscia Canoro surge em registro bem distante do humor televisivo pelo qual ficou conhecida, e Luedji Luna aparece em um papel que expande sua presença para além da música, reforçando a conexão do filme com a cultura negra e periférica.

Como em Que Horas Ela Volta?, Muylaert volta a falar de maternidade e trabalho, mas aqui o recorte é ainda mais duro. Gal não é babá de uma família rica; é trabalhadora informal em situação de rua, atravessando uma cidade que a trata como invisível.
A direção aposta em cenas longas, muitas vezes na rua, com barulho de ônibus, motos e conversas ao fundo, reforçando a ideia de que a personagem está sempre em trânsito, sem espaço próprio.
A fotografia de Lílis Soares escolhe luzes e enquadramentos que nunca transformam a miséria em “imagem bonita de cartão-postal”; a rua é caótica e exaustiva, como quem circula por ela diariamente conhece bem.

Outra camada importante está no modo como o filme fala de violência doméstica. Não existe discurso longo explicando o problema; o que se vê é o resultado direto de um sistema que falha com Gal em todas as instâncias: na casa, na delegacia, no trabalho informal, na ausência de políticas públicas efetivas.
Quando a personagem decide fugir, o roteiro deixa claro que aquilo não é ato impulsivo, e sim a última saída de quem já tentou o caminho “oficial” e bateu em portas fechadas.
Esse conjunto de escolhas explica por que o filme ganhou tanta tração nas redes. Desde a estreia, pipocam relatos de espectadores — anônimos e famosos — comentando o impacto da história, muitos conectando a trama à própria experiência com mães solo, violência doméstica ou trabalho precarizado.
Críticos destacam o longa como um dos trabalhos mais fortes da diretora e um dos dramas brasileiros do ano que conseguem dialogar com um público amplo sem abrir mão de densidade.
Disponível na Netflix para o público brasileiro, A Melhor Mãe do Mundo se encaixa naquele grupo de filmes que estouram no streaming não só pelo algoritmo, mas pelo boca a boca digital: quem vê sai mexido, comenta, marca amigos e, em muitos casos, encerra o post com a mesma frase que aparece em várias resenhas por aí — “leve um lenço e se prepare para sair da sessão pensando muito sobre o que chamamos de ‘melhor mãe’ e sobre o país em que ela tenta sobreviver”.
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