
De uns dias pra cá, tem uma produção brasileira na Netflix que entrou no modo “assunto fixo” nas redes: muita gente começa no fim da tarde e, quando percebe, já passou da meia-noite.
O motivo é simples: a série não enrola, não faz cena bonita pra agradar e coloca o espectador bem perto de um tipo de disputa que parece sempre estar acontecendo em algum lugar.
“Os Donos do Jogo” aposta num clima seco e direto: gente fazendo acordo no sussurro, promessas que duram pouco e decisões tomadas sob pressão — com consequência real, daquelas que mudam tudo de um episódio pro outro.

O foco é menos “ação grandiosa” e mais o desgaste de viver cercado por desconfiança, onde informação vale mais do que força.
A trama se passa no Rio de Janeiro e gira em torno do jogo ilegal e de quem tenta controlar esse mercado sem chamar atenção.
É um ambiente onde ninguém dá passo sem medir risco, porque qualquer movimento pode acender uma guerra silenciosa: hoje você aperta a mão, amanhã descobre que virou moeda de troca.
A série pega essa engrenagem e mostra como ela se sustenta no dia a dia — com cobrança, proteção, chantagem e vaidade.
Quem assina a criação é Heitor Dhalia (o mesmo de DNA do Crime), e dá pra sentir a escolha por um realismo que incomoda: os personagens não ganham “passada de pano”, e os conflitos não vêm com explicação moral.
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Em vez de discurso, a narrativa deixa as ações falarem. O resultado é aquela sensação chata (no bom sentido) de estar olhando pra algo que poderia ter saído de uma manchete, só que com nomes trocados.
No centro disso tudo está o Profeta, interpretado por André Lamoglia. Ele não é apresentado como herói e nem como vilão “caricato”: é alguém esperto, impaciente e com fome de espaço, tentando empurrar os negócios da família pra um patamar maior.
Só que crescer ali exige um tipo de frieza que vai cobrando pedágios: alianças viram ferramenta, lealdade vira teste, e a linha entre estratégia e traição fica cada vez mais curta.
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E é justamente aí que o personagem prende. Tem hora que você entende o raciocínio dele; na cena seguinte, você se pega torcendo contra.
A série brinca com essa ambiguidade sem transformar isso em truque barato: o Profeta muda de posição conforme o cenário muda, e o público vai junto, meio desconfortável, tentando adivinhar qual é o próximo cálculo.
Outro ponto que ajuda a “grudar” é o formato. A primeira temporada tem oito episódios e trabalha com ritmo acelerado, mas sem parecer videoclipe: cada capítulo empilha tensão, fecha portas e abre outras piores.
Os ganchos finais são daqueles que dão raiva, porque você sente que precisa ver o que vem depois — não por curiosidade vazia, e sim porque a história realmente desloca o tabuleiro.

Visualmente, a série mantém uma pegada mais escura e contida, combinando com a proposta de bastidor, de conversa em corredor e de ameaça que nunca é anunciada em voz alta.
O elenco acompanha esse tom: interpretações menos “teatrais”, mais pé no chão, o que dá um peso maior quando alguém explode ou decide cruzar um limite.
O que dá o tempero final é a proximidade com o Brasil de verdade. Não porque a série copie casos específicos, mas porque ela acerta a lógica: como redes paralelas se organizam, como território vira moeda, como o medo funciona como ferramenta de gestão e como ambição pode ir comendo o resto — sono, relações, prudência. Tem episódio que acaba e você fica com aquela sensação de “isso aí existe”, e aí pronto: lá vai mais um.
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