Do blog Marina manda lembranças

O país se vê enfronhado em polêmica sobre as questões de gênero.
Devem ser trabalhadas na escola, ou banidas das salas de aula e da boca dos professores?

Minha pergunta é outra: como a doce Manuela, atualmente com 1 ano de idade, organizará sua presença na vida sem o apoio e o acolhimento da escola, adotada que foi, em maio deste ano, pelo ator Pablo Sanábio e por seu marido, o também ator Marcelo Luiz Nascimento?

E pergunto mais: como, sem a ajuda da escola, os jovens podem entender a importância histórica da recente eleição americana em que as urnas tornaram vencedores, uma lésbica indígena membro da nação Ho-Chunk, uma mãe solteira da tribo Pueblo of Laguna, e um congressista abertamente gay agora governador do Colorado?

As sociedades, todas elas, estão em constante mutação. E o papel da educação é fazer-se presente para explica-la aos jovens. Mais ainda em países como o nosso, onde a esmagadora maioria das famílias não tem preparo e conhecimentos suficientes para esclarecer questões sempre complexas.

Mudanças não ocorrem apenas no segmento em que se tornam mais evidentes, nem na hora em que se tornam mais visíveis. Tudo é fruto de longo cozinhar, tudo é somatório de mínimos movimentos que por vezes passaram desapercebidos. Nada está solto, tudo é consequência.

Aos que não sabem história, não acompanham avanços filosóficos, não conhecem sociologia, as mudanças chegam como uma pedrada, um insulto social. A escola é necessária justamente para atuar como um enorme computador, guiando crianças e jovens através desses links.

As questões de gênero não são apenas questões de gênero. São questões de diversidade. Ninguém polemiza a respeito do bullying, muito pelo contrário, o bullying é assunto prioritário nas escolas, dezenas e dezenas de livros infantis tematizando o bullying são publicados a cada ano e adotados. Mas o bullying é um exercício de poder e de esmagamento do diferente. Se queremos, de fato, acabar com o bullying, precisamos ensinar crianças e jovens a aceitar a diversidade. E como falar de diversidade sem falar de gênero?

A diversidade começa muitas vezes dentro de casa, quando o pai é o dominante provedor e a mãe é a doméstica submissa. Se é esse o modelo que queremos preservar, então é melhor não explicar às crianças a igualdade de direitos aplicada ao gênero.

O problema é que elas o saberão de qualquer jeito através da televisão, das redes sociais, dos comentários de adultos e crianças. E correrão o risco de entender de forma precária ou até mesmo errada este elemento basilar da democracia.


As eleições americanas elegeram 117 mulheres, um número recorde. Entre elas, uma muçulmana nascida na Somália, uma filha de imigrantes palestinos defensora do Islã, e uma filha de porto-riquenhos que fez sua campanha baseada em doações populares. Neste mesmo ano, a Etiópia elegeu uma presidente mulher, não apenas a primeira da sua história, como a única chefe de estado mulher de toda a África. 50% do ministério da Etiópia é formado por mulheres. A presença da diversidade na política de dois países tão distantes e tão diferentes não é aleatória. É fruto de trabalho longo e plural em prol da igualdade.

Quando Manuela crescer, será uma mulher empoderada, orgulhosa da sua negritude e da sua família. Mas enquanto for criança, se não quisermos que sofra bullying — e é certo que não queremos — faz-se necessário que a escola, não só a dela, mostre a pequenos e jovens o percurso dessas conquistas.

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