Para quem vive de música, cantar e tocar um instrumento costuma depender de movimentos tão automáticos que quase não se pensa neles: encontrar as palavras certas, coordenar as mãos, lembrar a letra e manter o ritmo. No caso do músico paranaense Lincoln Furtado, essas mesmas habilidades acabaram servindo como uma espécie de teste em tempo real enquanto médicos retiravam um tumor de seu cérebro.
Lincoln tem 33 anos, mora em Cambé, no Norte do Paraná, e é conhecido artisticamente como Maldonado. Em março de 2026, ele procurou atendimento médico depois de perceber episódios de esquecimento que começaram a incomodá-lo. Às vezes, esquecia nomes e informações que normalmente lembraria com facilidade. Os exames revelaram um glioma de baixo grau localizado no lado esquerdo do cérebro, próximo justamente das regiões ligadas à fala e à linguagem.
O diagnóstico ainda carregava uma história familiar particularmente difícil. Três anos antes, o pai de Lincoln havia enfrentado o mesmo tipo de tumor, descoberto em estágio mais avançado, e morreu em decorrência da doença. Quando os primeiros sinais apareceram, Lincoln procurou o neurocirurgião Victor Batistela, que também havia acompanhado seu pai.
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Por que ele precisou ficar acordado durante parte da cirurgia?
A localização do tumor criava um problema delicado para os médicos. Retirar o máximo possível da lesão era importante, mas qualquer intervenção em determinados pontos poderia comprometer capacidades essenciais do paciente, principalmente a linguagem.
Por isso, a equipe do Hospital do Câncer de Londrina optou por realizar uma cirurgia cerebral com Lincoln acordado durante parte do procedimento. A técnica permite que os médicos acompanhem imediatamente como o paciente reage enquanto determinadas regiões próximas ao tumor são manipuladas.
Segundo o neurocirurgião Victor Batistela, manter Lincoln consciente não aconteceu simplesmente porque ele era cantor. A decisão estava diretamente relacionada à posição da lesão, situada em uma área cerebral associada à fala e à linguagem.
A operação reuniu sete médicos e durou aproximadamente sete horas. Durante o procedimento, a equipe conversava com Lincoln e avaliava suas respostas enquanto avançava na retirada do tumor.
Até que o instrumento que fazia parte da rotina do músico também entrou na sala.
O violão virou parte do monitoramento
Em determinado momento da cirurgia, Lincoln recebeu seu instrumento e foi orientado a tocar e cantar.
Ele executou “Chora Viola” enquanto os médicos continuavam trabalhando. A atividade ajudava a equipe a observar simultaneamente funções relacionadas à fala, coordenação dos movimentos e execução musical enquanto a região cerebral era operada.
Na prática, qualquer mudança perceptível poderia servir como sinal para os profissionais avaliarem o impacto da intervenção naquele ponto.
Lincoln contou posteriormente que se lembra de receber o instrumento e de sentir o braço mais lento, mas boa parte do que aconteceu naquele período desapareceu de sua memória devido aos medicamentos utilizados durante a cirurgia. Ele só conseguiu acompanhar melhor a cena depois, ao assistir às gravações feitas durante o procedimento.
As imagens mostram uma situação pouco comum fora dos centros especializados: deitado na mesa cirúrgica, com parte da cabeça preparada para a operação, o músico toca enquanto os profissionais seguem trabalhando diretamente em seu cérebro.
Dois dias depois, ele recebeu alta
Apesar da complexidade da operação, a recuperação inicial foi rápida. Dois dias depois da cirurgia, Lincoln recebeu alta e voltou para casa, em Cambé. Não foram relatadas complicações neurológicas aparentes naquele período.
O neurocirurgião destacou também uma característica que pode ter contribuído para sua recuperação: além da atividade musical, Lincoln pratica esportes e é faixa-preta e campeão de jiu-jitsu. Ainda assim, a equipe médica recomendou cautela e afastamento temporário das apresentações.
A previsão inicial era permanecer pelo menos um mês longe dos palcos.
O passo seguinte depende da análise do material retirado durante a cirurgia. O resultado anatomopatológico deve ajudar os médicos a determinar as características do tumor e decidir se haverá necessidade de tratamentos complementares, como quimioterapia ou radioterapia.
Enquanto aguardava essa definição, Lincoln já havia voltado a cantar diante das câmeras. E segurava justamente o instrumento que, algumas semanas antes, deixou o palco por algumas horas para cumprir uma função bem diferente dentro de uma sala de cirurgia.
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