********Leonardo Tanus é professor de Literatura Brasileira na Sorbonne Université – Faculté des lettres

Hoje meu corpo dói. Meus braços. Meus olhos. Até meus dentes me mordem. As insônias voltaram. E a dor. A insidiosa dor adentrando as coxas. Qual um angioma.

O corpo dói e nada posso fazer. Sobretudo hoje em que devo ministrar 6 horas de aulas. Sobretudo hoje diante dos meus estudantes de 1° ano. Jovens estudantes. Cada vez mais jovens. E mais despreparados. Com seus jovens sonhos.

Hoje meu corpo dói diante do dever de falar de nossa história. De nossa civilização. De nossa cultura aos meus estudantes que este ano são muitos. Mais de 150 estudantes inscritos em meus cursos de civilização brasileira intitulado « visages du Brésil ». Um curso concebido alguns anos atrás no meu entusiasmo de evocar um país em que acreditava. Um país que se acreditava diverso. E respeitoso para com a diversidade. Para com o outro. Os outros.

Meu curso é uma aula optativa que reúne estudantes de várias áreas. Filosofia. Sociologia. Artes. Línguas. E linguística. Um curso que resume certa diversidade do mundo. Muitos são franceses. Portugueses. Espanhóis. Muitos são marroquinos. Turcos. E até malacos.

Alguns deles já tiveram aulas comigo. E decidiram se reinscrever em minhas aulas por apreciarem o conteúdo. Por apreciarem o país de que sou oriundo. Por apreciarem, talvez, minhas aulas.

Trata-se de uma aula de descoberta do Brasil. De nossa história. De nossa cultura. Em minhas aulas os estudantes podem apresentar trabalhos diversos. Muitos já falaram sobre candomblé. Sobre capoeria. Sobre os Yanomamis. Até sobre sobre surf no Brasil alguns ja evocaram em seus trabalhos.

Muitas dessas aulas foram, em tempos passados, pretexto para juntos visitarmos um artista brasileiro de passagem por Paris. Para juntos recebermos autoras e autores brasileiros. Para juntos assistirmos a filmes brasileiros. E juntos compartilharmos o nosso entusiasmo por um país. Que já não há.

Mas hoje não. Porque dói meu corpo. E minha alma. E é por isso que decidi começá-la escrevendo na lousa a frase impronunciável. A abominável frase pronunciada por um representante de um governo que já não teme dizer o indizível.

A frase está lá escrita na lousa. Impressa aos olhos de meus estudantes que impedirei de ler em voz alta. Pois não quero que esta conspurque seus corpos. Suas almas. E seus sonhos.

A frase será um pretexto para falarmos do abominável. Da ideologia do embranquecimento. Do racismo. E da discriminação estrutural que caracteriza a nossa sociedade. E que nossos representantes expõem, sem vergonha, ao mundo.

Sabíamos que seria assim. Sabíamos mas não queríamos acreditar. Sabíamos que tudo destruiriam. E nossos corpos. E nossos sonhos.

Meus estudantes já começam a chegar. Estão surpresos com a frase na lousa. Calam-se. E vejo certo temor em seus olhos.

Chegou a hora de fechar o computador. De começar a aula.
E guiá-los para que frases como estas.Para que atitudes e posturas como estas não destruam suas almas.
Seus Sonhos.

Embora meu corpo doa
Embora doa o nosso corpo.

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