Quando Patricia Rashbrook apareceu nos jornais britânicos em 2006, o motivo era incomum até para uma época em que os tratamentos de reprodução assistida já haviam avançado bastante. Aos 62 anos, a psiquiatra infantil acabara de dar à luz um menino após um tratamento de fertilização in vitro realizado no exterior.
O nascimento colocou Patricia, então moradora de Lewes, no condado de East Sussex, na posição de mulher mais velha a dar à luz no Reino Unido naquele momento. Também abriu uma discussão que ultrapassou a vida particular da família e envolveu médicos, especialistas em reprodução, comentaristas e leitores de jornais.
Patricia já era mãe de três filhos adultos de um casamento anterior. Seu marido, John Farrant, por outro lado, nunca havia tido filhos. Os dois se conheceram no fim da década de 1990 e se casaram em 2003.
Segundo Patricia contou na época, a possibilidade de ter um filho com John passou a fazer parte dos planos do casal. Ela dizia estar consciente das exigências envolvidas em criar uma criança e rejeitava a ideia de que estivesse simplesmente tentando ter um bebê a qualquer custo.
Várias tentativas até a gravidez
A idade de Patricia tornava o tratamento particularmente complicado. Clínicas britânicas geralmente não aceitavam realizar fertilização in vitro em mulheres daquela faixa etária, embora não houvesse uma proibição legal absoluta.
O casal acabou procurando Severino Antinori, médico italiano conhecido por trabalhar com tratamentos de fertilidade para mulheres após a menopausa.
Patricia e John passaram inicialmente por quatro tentativas malsucedidas de fertilização in vitro em Roma. Depois, realizaram uma quinta tentativa em uma clínica na antiga União Soviética, descrita por diferentes reportagens da época como localizada na Rússia. Foi utilizado um óvulo doado, fertilizado com o esperma de John. Dessa vez, Patricia engravidou.
O caso já era notícia antes mesmo do nascimento. Em maio de 2006, quando a gravidez se tornou pública, Patricia e John divulgaram uma declaração afirmando que a decisão havia sido tomada depois de muita reflexão e planejamento, inclusive sobre o futuro da criança.
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O nascimento de Jude
O menino nasceu em 5 de julho de 2006, por cesariana, pesando aproximadamente 3 quilos. Inicialmente chamado pela imprensa pelo apelido de “JJ”, ele posteriormente ficou conhecido como Jude.
Durante o parto, o casal escolheu ouvir Salut d’Amour, composição de Edward Elgar que também havia sido tocada no casamento dos dois.
John descreveu o nascimento como um momento transformador. Até conhecer Patricia, segundo ele, não havia encarado plenamente a tristeza que sentia por nunca ter sido pai. Depois do nascimento, disse ter ficado impressionado ao ver o filho pela primeira vez.
Patricia também afirmou que os dois não teriam prosseguido com o tratamento se não acreditassem que poderiam oferecer boas condições ao menino.
A idade dos pais provocou um intenso debate
A repercussão, porém, estava longe de ser apenas comemorativa.
Parte das críticas se concentrava na idade de Patricia e na possibilidade de Jude perder os pais enquanto ainda fosse jovem. O fato de ela trabalhar na área de saúde mental infantil acabou tornando sua decisão ainda mais discutida na imprensa britânica.
Representantes de grupos ligados à ética reprodutiva classificaram a gravidez como inadequada e questionaram se tratamentos desse tipo deveriam ser oferecidos a mulheres acima dos 60 anos. Ao mesmo tempo, outros comentaristas apontaram que homens de idade semelhante ou ainda mais avançada frequentemente tinham filhos sem provocar uma reação pública equivalente.
Patricia dizia compreender a preocupação. Ela afirmou que ambos estavam saudáveis e que haviam conversado com amigos mais jovens, também pais, que poderiam assumir responsabilidades pelo menino caso algo acontecesse ao casal.
Naquele período, a tecnologia reprodutiva já permitia que mulheres depois da menopausa engravidassem com óvulos doados, mas casos em idades tão avançadas ainda eram raros. O nascimento de Jude acabou se tornando um exemplo recorrente no debate britânico sobre os limites médicos e éticos da reprodução assistida.
O recorde de Patricia, por sinal, não durou para sempre. Em 2009, a britânica Elizabeth Adeney deu à luz aos 66 anos após realizar tratamento de fertilidade na Ucrânia, tornando-se então a mulher mais velha do Reino Unido a ter um filho.
A família deixou os holofotes
Depois da enorme atenção recebida em 2006, Patricia e John passaram a preservar muito mais a vida familiar. Há poucas informações públicas confiáveis sobre Jude durante a infância e a adolescência, e o casal deixou de dar entrevistas frequentes sobre o assunto.
Uma atualização posterior, porém, foi confirmada por registros ligados à comunidade de Lewes: John Farrant morreu em 2021.
O Lewes History Group, organização dedicada à preservação da história local, registrou sua morte ao destacar décadas de pesquisas realizadas por ele sobre a história de Sussex. John havia trabalhado na administração universitária e participado do desenvolvimento da Brighton and Sussex Medical School, além de publicar estudos sobre a região.
A informação corrige também alguns textos que circulam atualmente sobre Patricia. Como ela tinha 62 anos quando Jude nasceu em julho de 2006, referências recentes que a apresentam como tendo apenas 76 ou 79 anos são incompatíveis com a cronologia conhecida. Fontes biográficas situam seu nascimento em 1943, o que a colocaria na faixa dos 82 ou 83 anos em 2026.
Jude, por sua vez, completou 20 anos em julho de 2026. Desde que seus pais decidiram se afastar da exposição pública, informações confiáveis sobre sua vida adulta são escassas, razão pela qual alegações recentes sobre onde ele mora ou o que faz devem ser tratadas com cautela.
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