Ela fez um teste de DNA por curiosidade e acabou reabrindo um mistério de 73 anos na família

Durante décadas, uma família da Califórnia guardou fotografias de um menino que havia desaparecido em 1951. Sua mãe morreu sem descobrir seu paradeiro, e o irmão que presenciou o sequestro envelheceu sem saber se voltaria a vê-lo. A resposta só chegou em 2024, quando uma investigação iniciada por uma sobrinha revelou que Luis Armando Albino estava vivo, aos 79 anos, do outro lado dos Estados Unidos.

A descoberta começou com um teste de ancestralidade feito quatro anos antes, por simples curiosidade. O resultado apontava uma ligação genética com um desconhecido, mas foi necessário reunir fotografias, notícias antigas e novas amostras de DNA para confirmar que aquele homem era o garoto procurado havia 73 anos.

O desaparecimento que mobilizou uma cidade

Luis tinha apenas seis anos quando foi sequestrado, em 21 de fevereiro de 1951, no Jefferson Square Park, em Oakland, na Califórnia. Naquela tarde, brincava com Roger, seu irmão de dez anos, perto da residência da família.

Os dois haviam chegado de Porto Rico no ano anterior, acompanhados da mãe e dos outros irmãos. Luis ainda não dominava o inglês, mas isso não foi um obstáculo para a mulher desconhecida que se aproximou dele no parque.

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Falando espanhol, ela ofereceu doces ao menino e o convenceu a acompanhá-la. Roger viu a mulher, que usava um lenço na cabeça, levar seu irmão. Foi a última vez que os dois estiveram juntos durante as sete décadas seguintes.

O desaparecimento provocou uma grande operação de buscas. Policiais, militares, integrantes da Guarda Costeira e outros funcionários públicos vasculharam a região. As autoridades chegaram a procurar pelo garoto nas águas da Baía de São Francisco.

Roger foi interrogado diversas vezes, mas manteve seu relato sobre a mulher que havia levado Luis. Apesar da mobilização e da divulgação do caso nos jornais, os investigadores não conseguiram localizar a criança.

Com o passar dos anos, a família continuou preservando as poucas lembranças que tinha do menino. Uma fotografia sua permanecia exposta em casa, enquanto sua mãe, Antonia, carregava na carteira um recorte de jornal sobre o desaparecimento.

Ela morreu em 2005, sem saber que o filho estava vivo.

O menino desaparecido havia formado outra família

Após o sequestro, Luis foi levado de avião para a Costa Leste dos Estados Unidos, onde passou a ser criado por um casal como se fosse filho deles.

A identidade dessas pessoas e os detalhes sobre a transferência do menino para outra região do país não foram totalmente esclarecidos publicamente.

Longe dos parentes biológicos, Luis cresceu e construiu sua própria vida. Ingressou no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, participou de duas missões durante a Guerra do Vietnã e, posteriormente, tornou-se bombeiro.

Também se casou, teve filhos e se tornou avô.

Segundo sua sobrinha, Alida Alequin, Luis conservava algumas lembranças do sequestro e da viagem que fez quando criança. Em determinados momentos, chegou a questionar os adultos que o criaram sobre seu passado, mas não recebeu explicações satisfatórias.

Ele preferiu não compartilhar publicamente todos os detalhes dessa experiência.

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Um teste de DNA revelou uma pista inesperada

Em 2020, Alida Alequin, então moradora de Oakland, decidiu fazer um teste genético de ancestralidade pela internet. Queria conhecer melhor suas origens, sem qualquer expectativa concreta de encontrar o tio desaparecido.

Ao consultar os resultados, deparou-se com uma correspondência genética de aproximadamente 22% com um homem desconhecido.

Esse percentual indicava um parentesco próximo, mas não permitia determinar, sozinho, qual era a relação familiar entre eles.

Alida tentou obter informações sobre o homem, porém não conseguiu avançar. A correspondência permaneceu sem explicação durante quatro anos.

A situação mudou em fevereiro de 2024, depois que ela assistiu a um documentário que abordava elementos da cultura porto-riquenha. A lembrança de suas origens familiares despertou novamente seu interesse pelo tio que havia desaparecido ainda criança.

Dessa vez, resolveu investigar com a ajuda das filhas.

As três começaram a pesquisar o nome do desconhecido que aparecia no teste genético. Encontraram fotografias e outras informações que fizeram Alida suspeitar de uma conexão com Luis.

Para aprofundar a pesquisa, ela procurou a Biblioteca Pública de Oakland e consultou exemplares antigos do jornal Oakland Tribune, preservados em microfilme.

Entre as reportagens sobre o desaparecimento, encontrou uma fotografia dos irmãos Luis e Roger. A imagem aumentou sua convicção de que o homem identificado pelo teste poderia ser seu tio.

Naquele mesmo dia, apresentou as informações à polícia.

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A confirmação chegou 73 anos depois

As autoridades consideraram os indícios relevantes e abriram uma nova investigação sobre o desaparecimento. O trabalho contou com a colaboração da polícia de Oakland, do FBI e de órgãos de Justiça.

Os investigadores localizaram o homem que aparecia como possível parente de Alida. Ele vivia na Costa Leste americana e concordou em fornecer uma amostra de DNA.

A mãe de Alida, irmã biológica de Luis, também participou dos exames. A comparação genética confirmou o parentesco e encerrou a principal dúvida da família.

Em 20 de junho de 2024, investigadores foram à casa da mãe de Alida para comunicar a descoberta: Luis Armando Albino havia sido encontrado.

A notícia teve um significado especial para as duas mulheres. Alida crescera ouvindo relatos sobre o desaparecimento do tio, enquanto sua mãe passara a maior parte da vida sem notícias do irmão.

Quatro dias depois, Luis viajou para Oakland, acompanhado de familiares, para conhecer os parentes que o procuravam havia décadas.

No primeiro encontro, abraçou Alida e agradeceu por tê-lo encontrado.

O reencontro dos irmãos teve uma despedida inesperada

Um dos momentos mais importantes aconteceu em 25 de junho de 2024, quando Luis voltou a encontrar Roger, o irmão que estava com ele no parque no dia do sequestro.

Na última vez em que haviam se visto, Roger tinha dez anos e Luis, seis. Agora, estavam com 82 e 79 anos, respectivamente.

Segundo Alida, os dois se abraçaram demoradamente antes de se sentarem para conversar. Relembraram a infância, falaram sobre suas famílias e descobriram experiências que tinham em comum.

Ambos, por exemplo, haviam servido às Forças Armadas americanas. Enquanto Luis foi fuzileiro naval, Roger serviu à Força Aérea.

Depois de retornar à Costa Leste, Luis fez uma nova viagem à Califórnia, em julho, e permaneceu aproximadamente três semanas com os familiares.

A visita acabou sendo a última oportunidade de convivência entre os irmãos.

Roger morreu em agosto de 2024, cerca de dois meses depois do reencontro. Sua morte ocorreu pouco depois de finalmente descobrir o destino do irmão que havia visto ser levado por uma desconhecida quando ambos eram crianças.

O sequestro ainda deixou perguntas sem resposta

A localização de Luis permitiu que a polícia encerrasse oficialmente o registro de pessoa desaparecida. Entretanto, em setembro de 2024, quando a descoberta ganhou repercussão internacional, as autoridades informaram que a investigação sobre o sequestro permanecia aberta.

Ainda não havia uma explicação pública completa sobre a identidade da mulher que levou a criança, sua relação com o casal responsável por criá-la ou as circunstâncias que permitiram que Luis permanecesse afastado dos parentes biológicos durante tanto tempo.

Luis optou por preservar sua privacidade e não conceder entrevistas detalhadas sobre o assunto.

Para Alida, encontrar o tio também significou esclarecer uma questão que acompanhava sua família havia gerações. A avó, que guardou durante anos uma notícia sobre o desaparecimento, não chegou a conhecer a resposta. Roger, por sua vez, conseguiu reencontrar o irmão poucos meses antes de morrer.

Em entrevista ao The Mercury News, a sobrinha contou que acreditava que Roger havia partido em paz, sabendo que Luis estava vivo e que os dois finalmente tinham conseguido se rever.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.