Era madrugada de sábado e eu caminhava lentamente na calçada à direita de uma rua escura e desconhecida. Meus passos eram firmes e eu nada temia. Vez ou outra, reparava que o oscilar das luzes era boa distração.

Minha mente não dava alarme de nenhum perigo e eu andava devagar e imponente. Eu era a dona daquela noite e tomava posse daquilo que, por direito, é meu.

Era o centro velho de uma cidade antiga, mas, aqui e ali, arranha-céus pontuavam a paisagem.

Após caminhar uma grande distância, passei a olhar mais atentamente o outro lado da rua. Velhos casarões. Portões enferrujados. Lotes baldios… À distância, eu intuía, parecia certo que ali eu encontraria outros humanos.

Uma curiosa e estranha força impeliu-me a atravessar a rua. Num átimo, obedeci.

Segui caminho naquela madrugada quente e úmida e o suor começava a brotar da minha face.

Até que notei que de fato estavam ali. Após caminhar algumas centenas de metros, humanos, como se brotassem do chão, dezenas, talvez centenas, não sei dizer, postaram-se estirados junto ao muro, embaixo da extensa marquise de uma loja abandonada.

Eles não notaram a minha presença e continuei a caminhar serenamente. Até que olhei para os meus pés e fiquei atônita: eles pisavam descalçados aquele chão imundo, onde agulhas esparramadas davam especial sinal de perigo. Sujidades diversas. Cigarro, cacos de vidro, papéis picotados…

Desconcertada, continuei a caminhar no calçamento. Logo à frente, um casal se amava sob cobertores sujos e rotos. Tive nojo e virei o rosto.

Passando a mão direita por meu cabelo, notei, perplexa, que meus brincos não estavam ali. Meus anéis sumiram. Meu colar com pingente de colibri também sumiu.

Deus! Se ninguém se aproximara de mim, como fiquei descalça e sem meus caros adornos? Uma angústia afligiu-me e já a trajetória não me alegrava, mas só poderia seguir em frente. Como retroceder depois de caminhar tanto?

Rente a um portão com pinturas que faziam lembrar asas de pássaro, dois jovens abriam uma carteira e contavam moedas. Jogando papeis ao chão, eles sorriam. Olhei para eles e tudo pareceu-me evidente. Furtaram? Roubaram?

Mais perto de mim, uma mãe embalava um bebê: – “Dorme neném, que a cuca vem pegar…”

Seu outro filho, de uns três ou quatro anos corria e veio ao meu encontro. Pânico! Entrei em pânico. Tive medo do menino, como se sequer humano ele fosse. Talvez um filhote de um bicho de qualquer outra espécie que não a minha. Antes que a criança me alcançasse, olhei novamente para mim e eu estava despida. Totalmente despida.

Minhas roupas sumiram e necessitei encarar a todos, em face da minha vergonha.

Olhei para cada um e constatei: ninguém me via. Só então reparei que eles não tinham rosto e que eu jamais outra vez os reconheceria.

Gritei, mas não puderam me ouvir. A angústia preencheu cada milímetro quadrado os meus sentidos. Nada fazia sentido. Meu estômago secretava substâncias que me faziam grunhir. As dores e o vexame fizeram com que eu me vergasse para frente e eu mal conseguia respirar. Eu não entendia os porquês.

Até que a criança alcançou-me e, ao puxar-me pelos cabelos, gritou: Acorda! Acorda! Acorda!

Foi quando levei as mãos à cabeça e, já quase sem ar, de súbito sentei em minha cama. Todo o meu corpo doía. A minha alma doía.

Conferi todas as coisas. As joias, a minha camisola de seda importada, minha pele aveludada à base dos melhores produtos trazidos de Paris. Meus calçados rentes à cama. Tudo parecia em ordem. Até que me olhei no espelho e nada vi. Eu permanecia sem face.

Abri o armário e respirei aliviada. Peguei a minha melhor máscara e me senti pronta para começar mais um dia.

Imagem de donterase por Pixabay

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Nara Rúbia Ribeiro
Ama poesia, contos, passarinhos e borboletas. É mãe, dona de casa, tem uma filha adolescente e uma cachorrinha que fica lambendo a sua perna enquanto ela escreve. Abandonou um casamento estável com o Direito para flertar com a literatura e criar a Revista Pazes.