Por Nara Rúbia Ribeiro

Logo na primeira vez que visitei o Solar Colombino Algusto de Bastos, em Goiânia – GO, chamou-me a atenção a dona Violeta. Uma funcionária do abrigo apresentou-nos e de pronto me afeiçoei a ela, cujos traços e o jeito manso e gentil trouxeram-me lembranças e saudades da minha avó.

Conversamos por alguns minutos:

– A senhora se parece muito com a minha avó, dona Violeta. É uma alegria conhecer a senhora!

– Com a sua avó? Como que ela chama?

– Bernardina, mas ela já não está mais entre nós.

– Foi passear, foi?

Dona Violeta

– Sim, sim…  Há muito tempo ela foi fazer um passeio no céu. Quantos anos a senhora tem, dona Violeta?

– Muito né. Muitos anos… (abaixou a cabeça)

– Vestido bonito de flor, dona Violeta. Adorei o vestido. A senhora tem bom gosto.

– Vestido de flor. Tá limpinho. Vesti ontem, mas tá limpinho, cheira pra ocê vê.

Estava mesmo. Falei para a dona Violeta que voltaria dentro de 3 dias e levaria a minha filha comigo.

Quando voltei, fui apresentar minha filha à dona Violeta.

– Dona Violeta, a senhora se lembra de mim? Falei com que a senhora se parece com minha avó.

– Ah, quem é sua avò? Quem é você? Não, não lembro não.

Levanta-se e diz:
– Segura a minha mão aqui. Vamo embora, né? Tá tarde!

Foi assim que a minha filha adolescente foi apresentada, ao mesmo tempo, à dona Violeta (a quem ela chama de dona Vilu) e à doença de Alzheimer.

Essa doença danificou a memória da dona Violeta, fazendo com que ela crie mundos fantasiosos e fugazes, a cada conversação.

– Olha, esse sapato foi ele que me deu. Não sei o nome dele. Mas o sapato (diz dona Violeta abraçando e acariciando as próprias sandálias) era da mãe dele, que já morreu. (E chora copiosamente) Eu tinha que saber o nome dele. Não tem fotografia? Porque não tenho fotografia dele? Ele era pra ser meu filho. Me deu o sapato da mãe. Ele nunca mais veio me ver.

Levanta-se de novo:
– Vamo embora! Já tá tarde. Você sabe que ele me deu esses sapatos? Era da mãe dele que já morreu. Eu não sei o nome dele…

Dona Violeta fez com que minha filha e eu chorássemos diante da constatação de que essa triste doença nos rouba as nossas histórias. Furta-nos dos vínculos criados com aqueles que amamos, faz com que nos tornemos reféns do agora sem o escudo do ontem e sem compreender a ideia do amanhã.

Como é linda a dona Violeta, sempre olhando as pequeninas flores do seu vestido, procurando na alma vestígios daquilo ou daqueles a quem possa amar.

– O vestido tá limpinho… Cheira pro cê vê! Você tem alguma foto dele?

Dona Violeta, assim como vários outros idosos que padecem com Alzheimer, amaria contar novas histórias a quem a adotasse em seu coração.

E quem não vai adotar a senhora, dona Vilu? Com vestido de flor cheirado a flor e tudo? Mesmo que a cada dia tenhamos que recomeçar a nossa amizade, a senhora já tem espaço demarcado em nosso coração.

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