Costumo frequentar um café muito agradável, nas tardes de sábado. Uma preguiça boa nos faz permanecer por horas nele, em umas mesinhas da varanda, de frente para a rua. Desta vez, com um livro em mãos, pedi uma taça de um tinto intenso e abanquei-me.

Lia ESCRITOS DA CASA MORTA, de Dostoiévski, resultado de sua experiência de anos em uma prisão na Sibéria. Na obra, Dostoiévski descreve não só as rotinas da prisão, como penetra na alma do povo e faz uma análise antropológica dos russos. Muitos dos detentos, na época chamados de “galés”, além dos trabalhos forçados, produziam coisas artesanais e vendiam nos vilarejos próximos. O autor descreve o preconceito dos livres sobre os presos e sobre os trabalhadores mais pobres e necessitados.

Estava eu no meio da leitura, quando um rapaz passou pela calçada, em uma bicicleta, com um suporte e uma caixa de madeira. Ele parou, passou a olhar para o Café e então abriu a caixa e começou a ofertar doces de chocolate à venda. Outros clientes em outras mesas perceberam a presença, mas continuaram a conversar, sem dar atenção ao vendedor.

Fechei o livro e, acenando com a cabeça, chamei o jovem. Ele imediatamente se aproximou, com a caixa nos braços, logo dispondo-a sobre a mesa e descrevendo os tipos de doces. Tinha trufas, palha italiana, bolachas de amendoim, tudo envolto a chocolate 50% cacau e produzido em casa, por ele e pela mulher. As unidades custavam 5 reais cada. Comprei 4. Ele agradeceu, abençoou-me e se despediu.

Antes de sair, porém, clientes de uma outra mesa o chamaram, depois de outra e mais outra. Muitos compraram iguarias, as mais variadas. O rapaz foi embora alegre e satisfeito.

Às vezes, basta dar um primeiro passo.

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Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville/SC