A tragédia de perder 24 filhos levou esta mulher a uma decisão que mudaria milhares de vidas

À margem da Blue Ridge Parkway, uma das estradas mais conhecidas dos Estados Unidos, existe uma pequena construção de madeira identificada como Puckett Cabin. Durante anos, muita gente acreditou que aquela havia sido a casa de Orlean Hawks Puckett. Na verdade, a residência onde ela viveu com o marido era maior e foi demolida; a cabana preservada pertenceu a uma das irmãs dele.

Mesmo assim, o local tornou-se um memorial adequado para uma mulher cuja história permaneceu viva entre as famílias das montanhas da Virgínia: depois de perder todos os seus 24 filhos, Orlean trabalhou durante cerca de meio século como parteira e participou de mais de mil nascimentos.

Até seu nome ficou cercado de dúvidas

Não há certeza sobre o ano em que Orlean nasceu. Alguns registros apontam 1837, enquanto outros indicam aproximadamente 1844. Por causa dessa diferença, ela teria entre 94 e 102 anos quando morreu.

Seu primeiro nome também aparece escrito de várias formas: Olinah, Aulina, Orlena, Orlenna, Orlean e Orleana. Como teve pouca instrução formal e aparentemente não sabia escrever, os recenseadores registravam aquilo que entendiam ao ouvi-la falar. Os parentes e moradores da região, porém, costumavam chamá-la de Tia Orlean.

Por volta dos 16 anos, ela se casou com John Puckett e passou a viver perto da Groundhog Mountain, entre os condados de Patrick e Carroll. Era uma região rural, com longas distâncias entre as propriedades e pouco acesso a médicos.

Em 1862, Orlean teve sua primeira filha, Julia Ann. A menina morreu poucos meses depois, vítima de difteria. Vieram então outras 23 gestações. Algumas terminaram com bebês que já nasceram sem vida; em outras, as crianças sobreviveram por poucas horas ou dias.

Nenhum dos 24 filhos chegou à idade adulta.

Vinte deles foram enterrados perto da primeira propriedade do casal, em uma fileira de sepulturas marcadas por pequenas pedras. Os quatro últimos foram sepultados em outro cemitério, próximo à casa que John construiu em Carroll County.

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Uma possível explicação que ela nunca recebeu

Não existem exames que permitam determinar com certeza o que aconteceu. Uma das hipóteses levantadas posteriormente é que Orlean tivesse sangue Rh negativo e seus filhos, Rh positivo.

Nessa condição, chamada doença hemolítica do feto e do recém-nascido, o organismo da gestante pode produzir anticorpos que atravessam a placenta e destroem as células vermelhas do sangue do bebê. O problema tende a se tornar mais grave nas gestações seguintes, podendo provocar anemia severa, morte fetal ou falecimento pouco depois do parto.

Orlean não teve acesso a essa explicação. Na época, não havia acompanhamento pré-natal capaz de identificar a incompatibilidade nem tratamento preventivo. Para ela e John, cada perda chegava sem uma resposta médica.

O pedido de socorro que mudou sua rotina

Em 1889, um vizinho chamado Byrum Bowman apareceu em sua casa. A esposa dele estava em trabalho de parto, mas nenhum médico ou parteira experiente estava disponível.

Orlean decidiu acompanhá-lo e ajudar no nascimento.

A criança nasceu bem, e a notícia se espalhou pelas redondezas. A partir daquele atendimento, mulheres de diferentes comunidades passaram a procurá-la. Orlean já tinha aproximadamente 50 anos quando começou a trabalhar regularmente como parteira.

Ela atravessava estradas precárias, trilhas e terrenos montanhosos para chegar às gestantes. Algumas moravam a até 20 milhas de distância — pouco mais de 32 quilômetros. Dependendo das condições, Orlean fazia o percurso a pé, montada em uma mula ou em um cavalo.

Seu trabalho não tinha horário. Ela saía quando era chamada, mesmo durante a noite, sob chuva, frio ou neve.

Na bolsa que levava aos partos, havia objetos simples, como tesoura, barbante, gaze, colírio e cânfora. Seus métodos vinham principalmente da observação, da prática acumulada e dos conhecimentos transmitidos entre moradores da região.

Uma das histórias preservadas pela tradição local conta que, durante um parto muito demorado, ela queimou uma pena de ganso e aproximou a fumaça do nariz da gestante. A mulher começou a tossir e espirrar, contraindo o abdômen, e o bebê nasceu logo depois. O episódio parece estranho diante da obstetrícia atual, mas ajuda a mostrar os recursos improvisados disponíveis nas casas rurais daquele período.

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Mais de mil crianças trazidas ao mundo

Ao longo de aproximadamente 50 anos, Orlean participou de mais de mil partos. Relatos locais e instituições que preservam sua biografia afirmam que ela não perdeu nenhuma mãe ou criança durante os atendimentos. A placa instalada pelo Serviço Nacional de Parques apresenta a informação de forma um pouco mais cautelosa: nenhuma morte teria ocorrido por responsabilidade dela.

Também existem versões diferentes sobre os pagamentos. A Library of Virginia registra que ela nunca cobrava pelos serviços. Já a placa histórica da Puckett Cabin informa que, em determinados períodos, sua remuneração variava de um a seis dólares. Muitas famílias não tinham dinheiro e ofereciam milho, feijão, mel, maçãs secas, carne ou outros produtos.

Essas divergências são comuns em biografias reconstruídas décadas depois a partir de documentos incompletos e lembranças familiares. O ponto em comum é que Orlean frequentemente atendia quem não podia pagar e repartia o que recebia com vizinhos em dificuldade.

Ela chegou a atender cinco gerações de algumas famílias. Entre as crianças que ajudou a nascer estavam pessoas que, muitos anos depois, ainda contavam aos filhos e netos como Tia Orlean havia chegado à propriedade a pé ou montada, carregando sua bolsa de trabalho.

O último parto, a mudança forçada e a cabana

Orlean continuou atendendo mesmo em idade avançada. Seu último parto ocorreu em 1939, o mesmo ano de sua morte.

Naquele período, o governo construía a Blue Ridge Parkway e adquiriu a área onde ficava sua residência. Orlean precisou deixar a casa erguida por John em 1875, onde havia vivido durante mais de seis décadas. Três semanas depois da mudança, morreu, em 21 de outubro de 1939.

A casa verdadeira não permaneceu de pé. No entanto, uma cabana menor existente na propriedade foi preservada pelo Serviço Nacional de Parques. Hoje, a chamada Puckett Cabin pode ser visitada nas proximidades do marco 189.9 da Blue Ridge Parkway, acompanhada de uma placa que registra os 24 filhos perdidos e os mais de mil nascimentos atendidos por Tia Orlean.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.