Por Antônio Rodrigues
Albert Camus nos deixou como herança a sempre recorrente reflexão sobre o estrangeiro. No romance de Julián Fuks, A resitência, a temática marca forte as 139 páginas de uma prosa admirável; forte, segura e vibrante.

O livro A Resistência, de Julián Fuks, publicado em 2015 pela Editora Companhia das Letras, tem como centro o exílio, seja pela referência aos pais do personagem-narrador, um casal de militantes argentinos que vem para o Brasil fugidos da Ditadura Militar de lá, seja pelo irmão adotivo, que aos poucos tem sua história construída paralela à dos pais. Do irmão adotivo, que não tem nome no romance, nem se sabe sua origem ao certo, podemos dizer que seu exílio é existêncial, uma busca por estar num mundo, uma busca por inserção na família, que não é a sua, e uma busca desesperada por si mesmo. O irmão é estrangeiro no exílio, é estrangeiro na família, e um estrangeiro no mundo.

Ao meio do romance, o narrador-personagem, que está numa rua de Buenos Aires, em frente ao edifício onde seus pais viveram antes de partir para o exílio no Brasil, em resposta ao porteiro do edifício, expõe um curioso fragmento metalinguistico ao definir a própria razão da escrita do romance:

“Só queria conhecer o apartamento onde viveram porque estou escrevendo um livro a respeito… Um livro sobre essa criança, meu irmão, sobre dores e vivências de infância, mas também sobre perseguição e resistência, sobre terror, tortura e desaparecimentos”. p. 57-58

Outra forte característica do romance é a tensão existente entre memória e fato. São muitos os momentos em que o autor expões essa tensão: “Vejo ou invento meu irmão?”, p. 26. “Vejo ou invento essa imagem?”, p.27. “Mas não sei por que ecupero essas trajetórias, por que me disperso em detalhes prescidíveis, tão distantes de nossas vidas como quaisquer outros romances”, p. 34. “Aqui a memória é escassa”, p.48. “Descrevo por suposição”, p. 59.

E assim o livro segue, procurando respostas ao sentido do exílio, do exílio político-geográfico, do exílio existencial, do próprio exílio do homem no mundo e sua busca permanente de sentido. E de forma sutil, passando longe do risco panfletário, Fuks vai inserindo as referências políticas, o terror de regimes autoritários, a repressão, a tortura, o desaparecimento. Como reflexão a essa questão do exilado/estrangeiro, deixo o excerto abaixo, bastante provocador:

“Sei que se tratava de um exílio, de uma fulga, de um ato imposto pela força, mas não será toda imigração forçada por algum desconforto, uma fulga em alguma medida, uma adaptação irredimível à terra que se habitava? Ou estarei, com estas ponderações insensatas, com estas indagações inoportunas, desvalorizando suas lutas, depreciando suas tragetórias, difamando a instituição do exílio que durante anos nos exige a maior gravidade”? p. 34

No mais, por serem inúteis minhas palavras para qualificar o romance de Julián Fuks, deixo-lhes as palavras certeiras de Renato Prelorentzou sobre o livro:

“Leia, porque existe aqui algo de íntimo que convoca a intimidade de cada leitor, porque essas biografias precisam falar direto à sua biografia, porque nenhuma de minhas palavras fará jus a esse romance.”

Julián Fucks (São Paulo, 1981) é escritor e tradutor. Doutor em literatura pela USP, publicou, entre outros, Histórias de literatura e cegueira (2007), Procura do romance (2012), finalista do prêmio Portugal Telecom, e A resistência (2015), sobre o drama social e político de uma família argentina exilada durante a ditadura de 1976, que levou o Prêmio Jabuti na categoria romance. Foi eleito pela revista Granta (nº 121, 2012) um dos vinte melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos.

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