Mia Couto, escritor moçambicano muito conhecido mundialmente e também biólogo, concedeu uma entrevista exclusiva ao Correio Braziliense na qual ele nos traz, em sua visão social e poética, suas considerações sobre a pandemia hoje vivenciada por todos nós. “O problema, ou melhor, os problemas, foram os fatores de desumanização que estão inscritos nos modelos de fazer economia e política (atualmente). Há quem acredite que tudo isso vai ser repensado depois desta epidemia. Mas eu não sou tão otimista”, afirma.

Em tom preocupado, pondera que: “A maioria dos que escolheram lideranças imbecis muito provavelmente continuará apoiando no futuro essas lideranças populistas e demagógicas. O medo não ajuda a vencer a mentira. Pelo contrário, o medo fundamenta a escolha de soluções messiânicas. É por isso que os “salvadores do mundo” adoram o medo. E fazem da gestão eterna de crises o alimento da sua longevidade. O Brasil tem uma experiência dolorosa nesta produção de um poder que vive da eternização da crise e da permanente polarização que mantém o país numa espécie de estado de guerra”.

Para Mia Couto, “a imbecilidade não será vencida num virar da folha”, mas traz uma visão moderadamente otimista do quadro atual: “É possível que valorizemos de forma mais justa quem está à nossa volta e são ofuscados pelo brilho das carreiras de sucesso: os médicos, os enfermeiros, os professores, os catadores de lixo, os jornalistas, todos aqueles que neste momento de crise se revelam com toda a dimensão humana das suas profissões”.

Ao comentar a política adotada pelo Presidente da República brasileiro no que concerne às diretrizes públicas nestes tempos de covid-19, negando a gravidade da dimensão humana, e questionado se não seria “falta de empatia” o fulcro desse posicionamento, Mia acrescentou:

“Não sei se é uma falta de empatia. Mas é uma empatia pelo obscuro, pela negação da ciência e da luz, pela ganância do poder autoritário. Há governantes brasileiros que negam que a Terra seja redonda. Como esperar que acreditem na progressão epidemiológica de um vírus?”

Leia a entrevista na íntegra: Correio Braziliense

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