Esta semana eu tive acesso a três brilhantes reflexões. Mia Couto, através de um pequeno fragmento do livro “E se Obama fosse africano”, demonstra com uma ampla percepção o pavor que temos de empobrecer, ou pior ser rotulados pobres. A necessidade que temos de demonstrar pelos bens que possuímos a que casta econômica pertencemos. Mostra que ao procurarmos esse vínculo à riqueza, permitimos que a vida passe sem deixarmos rastro de nossa existência, nos somando aos bilhões de invisíveis que aqui já viveram. Marilena Chauí deu uma intensa aula sobre a origem do poder. A filósofa vai de Aristóteles a Boétie traçando a espiral até nossa contemporaneidade e demonstrando como se instaura o poder, a tirania dos poderosos e as bases do formato político-social que estamos acostumados, e que francamente fazemos pouco para reformular, pois é natural nossa servidão à tirania. O terceiro e não menos brilhante que os demais, foi uma entrevista do filósofo francês Edgard Morin que aos 98 anos é uma testemunha viva da espiral que vivemos. Essa espiral hoje nos faz reviver o clima de pandemia e ainda permite discutir totalitarismo novamente, como se algo de bom pudesse ser exemplificado a respeito quase cem anos depois. Sua entrevista aponta os temores quanto ao futuro, caso não modifiquemos paradigmas essenciais para o ambiente e o consumo.

A capacidade destas personalidades é incrível, a profundidade do discurso e a clareza com a qual enxergam nossos paradoxos é surreal. A infelicidade para nós é o alcance destas reflexões. Há algum tempo as pessoas que chegam a um patamar de filosofar sobre os temas diversos da humanidade são colocadas numa espécie de panteão, um olimpo que é invisível para a grande massa da população mundial, simplesmente inatingível. Para uma minoria que os lê, sem olhos de enxergar, tornam-se fonte inesgotável de fragmentos que são salpicados nas redes sociais como mantras, que pretendem através de uma repetição sem fim, convencer aos leitores que reflexões extremamente complexas se resolvem em um parágrafo lacrador. Esta é sem dúvida a classe do superficialismo, interessada em formar opinião, sem muito poder de ação a não ser de interações virtuais em discussões que rendem engajamento a seus perfis sociais.

Uma outra partição ainda menor da sociedade pensante, têm acesso, lê, reflete, tece comentários a respeito e se impõe nas redes sociais e na academia sobre reflexões deste porte, demonstrando a capacidade de contrapor a estas pessoas geniais, buscando seu espaço como “profundis pensantis”. Divido esta partição em três grupos. O dos que sabem de suas capacidades e observam no grupo dos superficialistas, pessoas de menor lastro acadêmico ou capacidade de reflexão, tentam impor a comunidade internauta uma aceitação que não é absorvida, sobrando-lhes apenas espaço na academia através de suas coleções de PDF´s. Uma lástima que muitos destes apenas o fazem para alimentar seu ego numa encruzilhada em busca de curtidas e likes.

O grupo dos mais conformados permanecem reclusos as salas de aula, nem são conhecidos. Sobrando para o terceiro grupo de poucos desbravadores desta partição a capacidade de democratização das riquezas intelectuais fora da academia. O fazem para que estas reflexões ganhem força e sejam aprimoradas cada vez mais a tal ponto de alcançar a maioria ainda cega. Estes seres iluminados ficam satisfeitos mesmo se a repercussão não é notória. Porém o conteúdo que compartilham algumas vezes ainda tem forma muito eloquente para uma difusão ampla.

Por isso precisamos incentivar o movimento contínuo de uma peça fundamental nessa engrenagem social da difusão do pensamento e seus desdobramentos. Ela existe, mas está escassa, sua raridade faz com que sua função não cumpra com a eficácia necessária este importante papel. Como na química precisamos dos reagentes que vão compor uma reação, contudo dependendo dos elementos essa reação pode ser muito lenta, daí o catalisador entra como figura que aumenta a velocidade de tal reação, concretizando o resultado esperado num tempo muito menor. Na sociedade a filosofia, o pensamento, após as devidas reflexões e discussões precisa ser oferecido à massa da população para que esta também reaja ao mesmo e assim inserir no seu modo de vida, ou não, conforme suas conclusões. Está realmente faltando este catalisador na sociedade, pessoas com a vontade e a empatia de distribuir aquilo que nos é propriedade definitiva, e que não perderemos jamais, mesmo se compartilharmos a torto e a direito, o nosso conhecimento.

São na sociedade necessários diversos níveis de catalisadores, desde aqueles que têm acesso as informações puras dos pensadores, a depuram para um melhor entendimento, até os que fazem as depurações seguintes, para que Aristóteles, por exemplo, se aproxime do mais simples dos mortais fazendo sentido para este, que pode ou não incorporá-lo e torná-lo culturalmente cotidiano.

Alertando aqui que este formato não privilegia uma casta esclarecida empoderada pelo conhecimento acadêmico, científico e filosófico, pois se observarmos atentamente aos pensamentos cheios de referências e explicações e rodapé, perceberemos claramente que eles têm fragmentos de origem divina do ser que escreve. Sim parte dele é inerente do ser pensador, porém a outra parte deste pensamento vem de uma simplicidade nascente do original, do básico. Assim como nenhum rio nasce rio, a fonte de onde o pensamento é captado para sua elaboração complexa não contém toda sua robustez. Por esse fator não precisamos de maneira alguma ser livres docentes para que nossas reflexões ganhem asas, nós precisamos que elas tenham base, pois do divino todos temos a centelha, seja esta base histórica, científica, ou mesmo prática.

O pensamento para ser digno de difusão precisa de uma profundidade que transpõe as enciclopédias, ele apenas tem de ter sua legitimidade cultural e isto até o mais simples dos mortais realiza. Por exemplo quando alguém ensina outra pessoa a nadar, a pescar a sobreviver do entorno e conviver com suas benesses e mazelas isso acontece sem que seja necessária uma vivência acadêmica, mas tem a centelha divina e a habilidade prática do mestre que é absorvida e cada um de nós realiza a tarefa aprendida à própria maneira.

Provando aqui então que o pensamento tem essa dimensão da simplicidade cito aqui outra personalidade que nesta semana, direto de sua fazenda no sul da Bahia, participou de uma live muito especial. Ernst Gotsch, suíço que adotou o Brasil como pátria e a agricultura como meio de vida. Um engenheiro anônimo, formado, que abandonou seu trabalho por compreender os danos que causavam ao meio ambiente. Hoje é um dos mais importantes camponeses do mundo. Ele simplesmente transformou um enorme espaço de sertão, recuperando sua exuberante mata atlântica onde chove duas vezes mais que o entorno e a temperatura local é dois graus mais amena que da média da sua região. Criador do que os acadêmicos chamam de Agricultura Sintrópica, mas que para Ernst é uma simples leitura do ambiente e das possibilidades que ele oferece.

Percebem como os pensamentos complexos têm origem? Estudando a prática do camponês Ernst, cientistas e ambientalistas que trabalham na renovação da natureza e na melhoria da qualidade dos alimentos que comemos, vão elaborar, em breve, reflexões e pesquisas mais complexas, que no futuro poderão fazer sentido as pessoas, que não se preocupam hoje com a orgiem do seu alimento. Essa falta de conhecimento a respeito do assunto pode gerar consequências como doenças. Então, após uma cirurgia cardíaca, ou do advento de algum câncer, lhe será imposto pelo médico um cuidado e conhecimento neste sentido. Veja como o caminho da busca do conhecimento se dá hoje, muitas vezes, pelo desespero e não pela vontade.

Se você que suportou essa minha reflexão até o momento precisa justamente entender que ainda lhe falta a capacidade, ou a paciência de se aprofundar na filosofia mais complexa criada por estes brilhantes pensadores. Assim como acontece comigo. Também nos falta uma maior conexão com os filósofos que não utilizam dos artigos como ferramenta de difusão do pensamento e dos ensinamentos. Aqueles que tem os saberes básicos. Estou tentando explicar, talvez fazendo meu papel de catalisador nesse amontoado de palavras, que estamos numa espécie de vácuo cultural, onde pequenas superficialidades conseguem nos tocar, mas sem acesso aos Deuses do Olimpo, ou aos saberes básicos. Desta forma continuaremos submetidos à servidão, à pobreza e ao consumo como meios de vida. Exatamente o que tentaram alertar Couto, Chauí e Morin. Existe uma vastidão de conhecimentos que nos passa despercebido e corremos um imenso risco que nossas jornadas por aqui passem em branco, sem rastros ou reconhecimentos que possam ser levados adiante e partilhados ad aeternum.

Basta você checar o tipo de informações que recebe através das redes sociais para captar se lhe falta dar alguns passos em direção do conhecimento. O algoritmo, que me perdoe a genial Ada Lovelace, da forma como é administrado tende a nos levar a idiotice que Humberto Eco já alertara antes de seu falecimento.

Portanto saia do limbo, se não te satisfaz a filosofia mais concreta e plena, busque nos conhecimentos dos antepassados, busque na simplicidade a base, ou até nas ciências elementares: na física, na matemática, na biologia, na ecologia, na engenharia, na culinária, na literatura, na arte os saberes que despertem teu imenso potencial e possam proporcionar a você e a todos aqueles com quem possa compartilhar, uma qualidade de vida que o dinheiro não pode comprar, mas que principalmente podem torná-lo imortal, transpondo assim a barreira mais complexa desde que tomamos ciência da nossa finitude.

Imagem de asinclairster por Pixabay

Ricaro Pecego é escritor e publicou o livro Caparaó, pela Editora Giostri. É ainda produtor cultural há mais de 17 anos e iniciou suas aventuras na escrita em 2005. O autor mantém um site onde publica seus textos mais antigos e os novos textos que produz (www.receitasdeaprendiz.com).

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