Terapia em português no exterior: como o EMDR pode ajudar brasileiros a lidar com traumas

Construir uma vida em outro país costuma exigir adaptação constante. É preciso aprender novas regras sociais, reorganizar relações, enfrentar diferenças culturais e, muitas vezes, estabelecer uma rotina longe das pessoas que sempre fizeram parte da vida.

Para muitos brasileiros, essa experiência é positiva. Para outros, ela também pode tornar mais evidentes questões emocionais que estavam sendo carregadas há bastante tempo.

Nem todo sofrimento de quem mora fora está relacionado à imigração em si.

Algumas dificuldades começaram muito antes da mudança de país.

Experiências de violência, abandono, acidentes, perdas, relacionamentos abusivos ou situações vividas durante a infância podem continuar influenciando emoções e comportamentos anos depois.

Nesses casos, buscar terapia em português no exterior pode facilitar o acesso a abordagens específicas para trauma, como o EMDR.

O que é EMDR e por que essa terapia é associada ao tratamento de traumas?

EMDR significa Eye Movement Desensitization and Reprocessing, traduzido para o português como Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares.

Trata-se de uma abordagem psicoterapêutica estruturada utilizada especialmente no trabalho com experiências traumáticas e sintomas relacionados ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

A proposta parte da compreensão de que determinadas experiências podem permanecer associadas a emoções, pensamentos e sensações corporais muito intensas.

Assim, mesmo depois de o acontecimento ter terminado, situações do presente podem despertar respostas que parecem pertencer ao passado.

Durante o tratamento com EMDR, lembranças específicas podem ser trabalhadas dentro de um protocolo terapêutico que inclui formas de estimulação bilateral.

Os movimentos alternados dos olhos são uma das possibilidades mais conhecidas.

O trauma pode continuar presente mesmo quando a pessoa reconstruiu a vida

Nem sempre o sofrimento provocado por uma experiência traumática é facilmente reconhecido.

Uma pessoa pode trabalhar, manter relacionamentos, cuidar da família e aparentemente ter seguido em frente.

Ainda assim, determinados acontecimentos podem continuar influenciando sua vida.

Isso pode aparecer por meio de:

  • medo diante de situações específicas;
  • dificuldade de confiar;
  • sentimentos persistentes de culpa;
  • vergonha;
  • reações emocionais intensas;
  • comportamentos de evitação;
  • sensação de ameaça;
  • pesadelos;
  • lembranças invasivas;
  • desconforto físico quando algo recorda a experiência.

Às vezes, a pessoa sequer associa imediatamente essas respostas a acontecimentos anteriores.

A psicoterapia pode ajudar a compreender essas conexões.

Morar em outro país não faz experiências antigas desaparecerem

Uma mudança internacional pode representar um recomeço.

Mas recomeçar a vida não significa automaticamente resolver aquilo que aconteceu antes.

É possível mudar de cidade, profissão, círculo social e até idioma e continuar carregando determinadas respostas emocionais.

Em alguns casos, a distância da antiga rotina até torna essas questões mais perceptíveis.

A rede de apoio muda.

A proximidade da família diminui.

Há menos pessoas conhecidas por perto.

Tudo isso pode levar a pessoa a perceber de maneira diferente questões emocionais que anteriormente estavam misturadas ao cotidiano.

Por que brasileiros no exterior procuram terapia em português?

Dominar o idioma do país onde se vive não significa necessariamente preferir utilizá-lo durante a psicoterapia.

Quando o assunto envolve emoções profundas, lembranças da infância, relações familiares ou experiências traumáticas, a língua materna pode ter um significado diferente.

É comum que determinadas palavras e lembranças estejam fortemente ligadas ao português.

Uma pessoa pode conhecer perfeitamente a tradução de uma palavra e, ainda assim, sentir que ela possui outra intensidade quando dita na língua em que aprendeu a compreender suas próprias emoções.

Por isso, a procura por psicoterapia online para brasileiros no exterior não acontece apenas por conveniência.

Em determinados casos, falar em português pode proporcionar maior espontaneidade durante o atendimento.

Como o EMDR pode ajudar no trabalho com lembranças difíceis?

Uma das características do EMDR é trabalhar não somente a narrativa racional de uma experiência, mas também os elementos emocionais e corporais associados a ela.

Durante a avaliação, o terapeuta pode investigar:

  • quais lembranças continuam provocando desconforto;
  • quais pensamentos aparecem quando a pessoa recorda determinada situação;
  • quais emoções estão associadas à memória;
  • quais sensações aparecem no corpo;
  • quais acontecimentos atuais funcionam como gatilhos.

O processo de reprocessamento busca permitir que aquela experiência seja integrada de maneira diferente.

Isso não significa esquecer.

Significa reduzir a força com que a memória continua interferindo no presente.

A pessoa precisa contar todos os detalhes do trauma?

Essa é uma preocupação frequente de quem considera procurar terapia.

Trabalhar uma experiência traumática não significa necessariamente narrar repetidamente todos os detalhes do que aconteceu.

O acompanhamento precisa respeitar os limites e as condições emocionais da pessoa.

O terapeuta avalia o momento adequado para cada etapa.

Além disso, antes do processamento de determinadas lembranças, pode ser necessário desenvolver recursos de estabilização e regulação emocional.

Isso é particularmente importante em histórias com múltiplos acontecimentos traumáticos.

EMDR não é apenas movimentar os olhos

É fácil entender por que os movimentos oculares acabaram se tornando a parte mais conhecida do EMDR.

Eles são visualmente diferentes do que as pessoas normalmente imaginam quando pensam em psicoterapia.

Mas reduzir toda a abordagem a isso seria um erro.

O EMDR envolve avaliação, preparação, identificação das experiências relevantes, processamento e acompanhamento das mudanças que surgem ao longo do tratamento.

Segundo a psicóloga Josie Conti, psicoterapeuta online e especialista em EMDR, o trabalho com trauma precisa considerar a história completa do paciente e não apenas uma lembrança isolada, especialmente quando existem experiências acumuladas ao longo de diferentes períodos da vida.

Essa avaliação individual também é relevante no atendimento de brasileiros que moram fora, já que o contexto atual da pessoa faz parte do planejamento terapêutico.

Traumas vividos depois da mudança para o exterior também podem ser trabalhados

A experiência migratória não é necessariamente a causa do sofrimento, mas acontecimentos difíceis também podem ocorrer depois da mudança.

Entre eles estão situações como:

  • discriminação;
  • xenofobia;
  • acidentes;
  • violência;
  • relacionamentos abusivos;
  • perdas;
  • conflitos familiares;
  • experiências profissionais traumáticas;
  • episódios de assédio;
  • situações de ameaça.

Há ainda acontecimentos que podem ser profundamente difíceis mesmo sem se enquadrar imediatamente naquilo que a pessoa entende como trauma.

A avaliação psicológica ajuda a compreender o impacto de cada experiência.

Experiências da infância ainda podem influenciar adultos que vivem no exterior

O fato de determinado acontecimento ter ocorrido durante a infância não significa que seus efeitos necessariamente desapareceram.

Algumas experiências podem contribuir para crenças que continuam presentes na vida adulta.

Por exemplo:

“não posso confiar nas pessoas”;

“preciso estar sempre alerta”;

“não sou bom o suficiente”;

“se algo deu errado, a culpa foi minha”;

“não estou seguro”.

Essas crenças podem parecer parte natural da personalidade.

Mas, em alguns casos, estão ligadas a experiências anteriores.

O trabalho psicoterapêutico pode ajudar a identificar de onde essas percepções surgiram e como elas influenciam o presente.

É possível realizar EMDR por atendimento online?

Sim, a abordagem pode ser utilizada em psicoterapia online quando o profissional considera que existem condições adequadas para isso.

Existem diferentes maneiras de adaptar a estimulação bilateral ao ambiente remoto.

Entretanto, o formato online não elimina a necessidade de avaliação clínica.

Também não significa que exercícios de EMDR encontrados em vídeos equivalham a um tratamento profissional.

Ao lidar com experiências traumáticas, acompanhamento e preparação são partes fundamentais do processo.

Como escolher um psicólogo para EMDR vivendo fora do Brasil?

A procura por um profissional deve considerar mais do que apenas a disponibilidade de atendimento por videochamada.

É recomendável verificar:

  • formação em Psicologia;
  • registro profissional adequado;
  • capacitação específica em EMDR;
  • experiência com trauma;
  • experiência com atendimento remoto;
  • familiaridade com brasileiros residentes no exterior.

Também é importante compreender como o profissional estrutura as sessões e avalia a indicação do tratamento.

Nem todas as pessoas precisam da mesma abordagem.

O EMDR pode ser adequado para determinados casos e não ser a primeira escolha em outros.

EMDR pode ser utilizado em qualquer idade?

Não existe uma idade específica a partir da qual uma experiência antiga deixa de poder ser trabalhada.

Adultos e idosos podem procurar psicoterapia para acontecimentos que ocorreram décadas antes.

O tempo passado desde o episódio é apenas uma das informações consideradas.

O ponto central é entender se aquela experiência ainda influencia a vida emocional da pessoa.

Uma lembrança de quarenta anos atrás pode ter pouca importância para alguém e ser extremamente perturbadora para outra pessoa.

Quanto tempo leva para perceber resultados?

Não existe um número universal de sessões.

Algumas pessoas procuram ajuda para uma experiência bastante delimitada.

Outras chegam à terapia com diferentes acontecimentos traumáticos interligados.

O ritmo também varia conforme as condições emocionais, recursos de enfrentamento e complexidade da história individual.

Por isso, promessas rígidas de resultados em poucas sessões não são uma forma responsável de apresentar o tratamento.

A evolução precisa ser acompanhada ao longo do processo.

Procurar terapia no exterior também pode fazer parte da adaptação

Existe uma tendência de interpretar a busca por ajuda psicológica como sinal de que a experiência de morar fora deu errado.

Não precisa ser assim.

A imigração pode estar indo bem e, ainda assim, trazer questionamentos importantes.

Em alguns casos, morar longe proporciona justamente a distância necessária para perceber questões que foram ignoradas durante anos.

Para quem carrega experiências traumáticas, encontrar atendimento em português e ter acesso a um profissional com formação específica pode tornar mais simples o primeiro passo.

A terapia EMDR não promete retirar acontecimentos da história.

Também não transforma o passado em algo irrelevante.

O que ela busca é ajudar no processamento de experiências que continuam provocando sofrimento no presente.

Para brasileiros que vivem longe do país, isso pode signific construir uma nova vida sem precisar continuar carregando antigas experiências com a mesma intensidade emocional.

Porque mudar de país pode abrir novos caminhos.

Mas, em alguns momentos, seguir adiante também envolve cuidar daquilo que atravessou a fronteira junto com a pessoa.






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