
Tem documentário criminal que aposta em exagero e reviravolta forçada. Já “Colisão: Acidente ou Homicídio?”, da Netflix, segue outro caminho: começa com imagens reais tão desconfortáveis que você entende, nos primeiros minutos, por que tanta gente termina o filme encarando o teto antes de dormir.
A produção revisita o caso de Mackenzie Shirilla, adolescente envolvida em uma colisão brutal que matou dois jovens nos Estados Unidos. E o que parece, num primeiro momento, apenas mais uma tragédia automobilística, vai ficando cada vez mais perturbador conforme a investigação avança.
Tudo começa numa madrugada em Ohio. Policiais recebem o chamado sobre um acidente gravíssimo e encontram um carro destruído após atingir violentamente uma parede de tijolos. O veículo ficou praticamente irreconhecível. Dentro dele estavam três adolescentes. Dois morreram no local: Davion Flanagan, de 19 anos, e Dominic Russo, de 20. A única sobrevivente era Mackenzie, então com 17 anos, retirada das ferragens ainda respirando.

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As cenas registradas pelas câmeras corporais dos agentes dão ao documentário um tom quase claustrofóbico. Não existe trilha tentando dramatizar o momento. O impacto vem justamente da frieza das imagens e das reações espontâneas dos policiais ao reconhecerem as vítimas.
Nos dias seguintes, Mackenzie vira símbolo de sobrevivência. Ela passa por cirurgia, recebe apoio da comunidade e aparece nos noticiários como alguém que escapou de um cenário praticamente impossível. Enquanto isso, famílias e amigos dos rapazes tentam entender como uma colisão tão violenta aconteceu em uma avenida aparentemente comum.
Só que a história muda de direção quando a promotoria decide analisar cada detalhe da noite do acidente.

O documentário acompanha o trabalho do promotor Tim Troup, que passa a reconstruir os minutos anteriores à batida usando vídeos de segurança, mensagens de celular, depoimentos de colegas e os registros eletrônicos do carro. Aos poucos, o caso deixa de parecer uma fatalidade simples.
As informações recuperadas pelo sistema interno do veículo mostram que Mackenzie controlava o carro normalmente durante parte do trajeto. Em curvas anteriores, ela reduzia a velocidade e dirigia de forma consciente.
Depois, em uma avenida específica, acelera bruscamente até atingir o muro. O dado mais inquietante: não houve tentativa de frenagem nos segundos finais.

A partir daí, o documentário mergulha em uma dinâmica de relacionamento marcada por discussões intensas, dependência emocional e comportamentos considerados agressivos por pessoas próximas ao casal.
Conversas recuperadas do celular revelam brigas frequentes entre Mackenzie e Dominic. Em outro momento exibido pela produção, ela aparece tentando entrar à força na casa do namorado após uma discussão.
Ao mesmo tempo, amigos saem em defesa da adolescente e insistem que ela jamais seria capaz de provocar algo daquela magnitude de forma intencional. O filme trabalha justamente nessa zona cinzenta desconfortável: ninguém parece completamente confiável, mas também ninguém surge como caricatura de vilão.
Outro detalhe importante é que, embora houvesse consumo de drogas naquela noite, os investigadores descartaram que Mackenzie estivesse totalmente sem consciência ao volante. Isso muda completamente a interpretação do caso e transforma o acidente em algo muito mais difícil de explicar.
O que torna “Colisão: Acidente ou Homicídio?” tão inquietante é que ele evita entregar respostas fáceis. A produção apresenta versões conflitantes, deixa espaço para dúvida e faz o espectador montar sozinho sua interpretação sobre o que realmente aconteceu dentro daquele carro.
Mesmo após a condenação de Mackenzie Shirilla, muitas perguntas continuam abertas. Foi impulso? Raiva? Desespero? Tentativa de matar? Tentativa de morrer? O documentário entende que a ausência de respostas definitivas é justamente o que mantém esse caso tão perturbador até hoje.
Dirigido por Garreth Johnson, o filme aposta menos em sensacionalismo e mais em reconstrução detalhada dos fatos. E funciona. Porque quando os créditos sobem, a sensação não é de encerramento — é de incômodo.
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