
Tem filme de tribunal que a gente liga achando que vai ver “mais um caso”, e de repente percebe que a história está jogando contra o nosso instinto de escolher um lado cedo demais.
Versões de um Crime é exatamente esse tipo: ele usa o julgamento como vitrine, mas o que prende mesmo é o jeito como cada depoimento vai mudando a temperatura da sala — e a sua certeza também.
No longa (título original The Whole Truth), Keanu Reeves interpreta Richard Ramsay, um advogado de defesa que aceita representar Mike Lassiter, um adolescente acusado de matar o próprio pai.

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O ponto é que o garoto praticamente não ajuda: ele é fechado, fala pouco e, no tribunal, o silêncio vira uma arma (pra acusação e pra defesa). A partir daí, o filme vai soltando versões diferentes do que aconteceu dentro daquela casa, sempre com alguma peça fora do lugar.
A direção é de Courtney Hunt, que mantém a narrativa bem colada na dinâmica do júri: pergunta, resposta, corte seco, reação.

O roteiro (de Nicholas Kazan) gosta de construir tensão em cima de detalhes práticos — horário, comportamento, contradições pequenas — como se dissesse: “o problema não é só o que foi dito; é o que ficou conveniente demais.” O resultado é um suspense jurídico enxuto, com 93 minutos, que vai direto ao ponto e não fica enrolando em subtramas.
O trio principal funciona por motivos bem diferentes. Reeves segura bem o papel do advogado que está sempre tentando controlar o dano (inclusive o próprio), enquanto Renée Zellweger aparece como a mãe que parece carregar uma história inteira por trás de cada frase — e às vezes por trás da falta de frase também.

Já Gugu Mbatha-Raw entra como a advogada mais jovem que tenta conduzir o caso com método, o que cria um contraste interessante: ela busca lógica; ele, sobrevivência no tribunal.
Onde o filme mais acerta é no ritmo de revelação: ele faz o espectador se reorganizar várias vezes, porque o que parecia “óbvio” vai perdendo firmeza conforme as versões surgem.
E sim, existe uma virada importante — mas o melhor é que ela vem amarrada ao tema do filme: como uma narrativa bem contada pode soar verdadeira, mesmo quando está protegendo alguém (ou encobrindo alguma coisa).

Agora, vale alinhar expectativa: Versões de um Crime não é um drama de tribunal cheio de discursos memoráveis.
Ele é mais seco, mais de “sala fechada”, e depende bastante do seu interesse por histórias em que a verdade aparece aos poucos, em camadas, com gente tentando ganhar tempo. Se esse é o seu tipo de thriller, ele tem boas chances de funcionar numa noite só.
Na Netflix, ele aparece como drama/suspense de tribunal e está com classificação 14 no catálogo brasileiro.
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