O filme que todo mundo ignorou na estreia e hoje é considerado uma das experiências mais intensas da Netflix

Tem filme de zumbi que grita o tempo todo: perseguição, explosão, gente correndo. A Noite Devorou o Mundo faz o contrário.

Ele te prende pelo que falta: conversa, barulho “humano”, rotina. Quando o mundo vira ruído e silêncio, o terror deixa de ser “o monstro lá fora” e passa a ser a cabeça do cara aqui dentro.

Sam (Anders Danielsen Lie) acorda depois de uma festa no apartamento da ex e percebe que Paris foi tomada por zumbis. Ele se fecha no prédio e começa a fazer o básico: bloquear portas, vasculhar andares, racionar comida, improvisar água, sobreviver.

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Só que o filme não está interessado em transformar isso numa lista de tarefas heroicas, e sim em mostrar o preço mental de aguentar dias iguais, sem ninguém por perto.

Uma escolha que dá o tom é o comportamento dos infectados: eles não ficam gemendo para avisar que estão chegando.

São rápidos, quase mudos e reagem em massa a qualquer sinal de movimento ou som. Isso muda tudo, porque o prédio vira uma armadilha acústica: um passo errado pode chamar um corredor inteiro.

Ficha rápida, sem enrolação: é um filme francês de 2018, dirigido por Dominique Rocher, adaptado do romance de Pit Agarmen.

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Apesar de se passar em Paris, é falado em inglês, o que dá uma estranheza extra (Paris familiar, mas “descolada” do jeito turístico). Dura por volta de 1h30 e o elenco inclui Golshifteh Farahani e Denis Lavant.

O que faz a experiência ficar tão intensa é que o roteiro coloca o Sam num lugar pouco glamouroso: ele não vira líder, nem salvador. Ele vira um sujeito tentando não enlouquecer.

Como ele é músico, a relação com som vira tema: o filme usa bateria, silêncio, respiração e barulhos do prédio como se fossem “pontos de virada”. Tem um momento em que a música deixa de ser lazer e vira teste de sobrevivência — e, de quebra, um jeito torto de confirmar se ainda existe alguém vivo do outro lado.

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Também ajuda o jeito como a direção filma o confinamento: apartamentos parecidos, corredores repetidos, a cidade ali na janela mas inacessível.

O roteiro até flerta com a ideia de “companhia” (incluindo a figura do Alfred), mas sem transformar isso numa amizade fofinha: é mais um espelho do que a solidão faz com a gente quando não tem ninguém para responder.

E tem outro detalhe: o filme não tenta agradar quem quer “ação constante”. Ele é lento quando precisa ser lento, e isso dividiu críticas na época — teve gente chamando de pensado e absorvente, e teve quem achou que faltavam ideias.

Esse tipo de divisão, curiosamente, é parte do motivo de ele ter sido ignorado por muita gente no início e depois “descoberto” por indicação.

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Fonte: IMDb






Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.