Por Nara Rúbia Ribeiro

Mia Couto, escritor moçambicano notável por sua prosa poética, cuja força das palavras faz ressurgir em nós o ímpeto de sonhar, iniciou, no ano de 2015, um audacioso projeto.

Trata-se da trilogia “As Areias do Imperador”. Naquele ano, o primeiro volume, no Brasil denominado “Mulheres de Cinzas”, teve grande aceitação do público e da crítica, sendo, inclusive, indicado como um dos finalistas do Prêmio São Paulo 2016.

O livro narra os derradeiros dias do chamado “Estado de Gaza”, o segundo maior império da África dirigido por um africano. E o segundo volume, “Sobras da Água”, chega agora, com lançamentos no Rio e em São Paulo, com a presença do autor.

Antes de lançar o primeiro livro da trilogia, Mia Couto respondeu-nos algumas questões muito pertinentes acerca do seu trabalho e do livro em si mesmo.

1 – Mia, é verdade que há alguns anos cogitou-se “adequar” os seus textos ao “português brasileiro” antes de publicá-los no Brasil?

Não, isso não é verdade. Pelo menos, que seja do meu conhecimento. As edições dos meus livros no Brasil respeitam a grafia original, aquele em que escrevi os livros, aquela que é usada em Moçambique. E nunca ninguém reclamou por causa disso.

2 – É notória a sua popularidade, hoje, no Brasil. Será que o povo brasileiro e o povo moçambicano se reconhece, mutuamente, como irmãos há muitos separados e que o Brasil tenha decidido saber mais desse irmão distanciado por meio das suas histórias?

É verdade que existe hoje mais conhecimento recíproco entre Brasil e Moçambique. Os meus livros são uma pequena, muito pequena contribuição. Outros esforços foram incomparavelmente mais importantes. O facto de se estudar mais Africa nas escolas brasileiras ajudou muito a que esse encontro fosse efectivo. Nos últimos dez anos nota-se uma diferença substancial no quanto o BRasil conhece as várias Áfricas da àfrica e reconhece a diversidade de um continente cuja realidade é plural, dinâmica e complexa. Os africanos também necessitam de conhecer melhor a realidade brasileira. Mas deve ser dito que esse conhecimento, ainda que desfocado, foi sempre maior no sentido do olhar de África sobre o Brasil do que no sentido inverso. África há muito que vê o Brasil, ou pelo menos, um certo Brasil. Para a maior parte dos brasileiros África é um realidade oculta sob os panos do estereotipo.

3 – Nos seus livros, a linguagem dos personagens é sempre de grande poeticidade. Essa visão metafórica encontra eco na linguagem coloquial de Moçambique ou é parte do seu universo ficcional?

Essa dimensão poética é minha. Sou que que a produzo. Mas faço isso em cima de uma certa oralidade que é ainda dominante em Moçambique. Faço isso por que é ainda hegemónica em Moçambique uma lógica muito pouco mecanicista e uma linguagem metafórica. As pessoas mantêm vivas divindades e crenças que, em outros lugares, são tidas como heresias. A alma é mais fértil e mais disponível a ser possuída pelo fascínio e pelo espanto. E as pessoas falam com o corpo todo.

4 – Em suas primeiras obras, vemos uma predominância da “língua brincada”. A quem lê, parece que você se divertia e sonhava enquanto escrevia. Isso vem se modificando e, em seu último romance, “A confissão da Leoa”, esse brincar, essa alegria da escrita não se mostra tão evidente. Mia Couto cansou-se de brincar? Será que a responsabilidade de uma consagração internacional drena a alegria e a aura encantatória da escrita?

Num certo momento, eu entendi que precisava que me espantar a mim mesmo. Precisava de recusar uma zona de conforto que um relativo “sucesso” me podia conferir. E ensaiei outros caminhos. Não que renegue o que já fiz. Porque o que já fiz não foi um simples jogo inventivo, ou uma simples criação vocabular. Essa transgressão resultou de uma abordagem poética. E essa lealdade com a poesia eu a mantenho. E manterei sempre enquanto escrever.

5 – Você sempre menciona Guimarães Rosa como uma de suas principais fontes de inspiração quando da construção de seu estilo. Como se deu, no seu caso, essa construção? Escolhida a mesma temática, o predomínio da oralidade e a mesma densidade poética, você poderia nos dizer, para além da questão geográfica, que marco difere a sua escrita da escrita do Rosa?

Eu encontrei Rosa por triangulação. Isto é, conheci quem o conheci. Fui influenciado, primeiro, pelo angolano Luandino Vieira. Nessa altura, em meados da década de oitenta eu ainda não conhecia Guimarães Rosa. Li uma entrevista em que Luandino confessa que um tal João Guimarães Rosa o tinha marcado muito a ele. Fui à busca desse tal João. Quando o encontrei eu já tinha publicado o meu primeiro livro de contos. O meu segundo livro de contos, as Estórias Abensonhadas já são muito roseanas. O que fascinou não foi apenas a inventividade da linguagem. Mas o modo como ele dialogava com as vozes e deixava a página ser tomada pela oralidade. Mas eu creio que faço algo diferente: no meu caso eu acho me distancio mais da própria lingaugem que, para Rosa, se tornou não apenas um material mas a própria tela onde ele pintou o seu mundo.

6 – O que devemos esperar do novo romance “Mulheres Cinzas” ou de “Mulheres de Cinzas”? Parece-me que o título no Brasil ainda não está definido. Trata-se de uma obra que mescla história e ficção?

É uma história sobre a vivência do tempo, o modo como diferentes gentes e culturas que partilharam um lugar se encontram e se desencontram no modo como narram e como lembram esse passado. Num primeiro instante, parece que a narrativa conta a história da derrocada de um império e de um imperador africano que dominou todo o Sul de Moçambique no século 19. Mas logo se percebe que n\ao se trata de um romance histórico mas de um texto sobre a construção do medo e das falsas identidades que surjam como resposta de salvação perante esse medo.

7 – Seria bom lermos primeiramente esse trecho da história de Moçambique para melhor nos inserirmos na sua narrativa?

Acredito que sim. Mas isso não é fundamental. É evidente que um leitor moçambicano percebe melhor o contexto histórico e as mensagens subliminares que são sugeridas ao longo do texto. Mas um leitor brasileiro entenderá igualmente toda a história. E reconhecerá ali um pouco da sua própria história. A menina que é a narradora e o imperador condenado moram dentro de cada leitor.

8 – Quando uma língua, em signo e sonho nos une, nenhuma distância nos pode separar. Você consegue perceber essa ponte em sua literatura?

Em toda a literatura está presente essa ponte. Qualquer que seja a língua, qualquer que seja a cultura, somos todos ávidos produtores e consumidores de histórias. Foi isso que sustentou a construção da nossa humanidade: a habilidade de vivermos em histórias.

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